Excesso de liberdade e falta de imposição de limites pode levar jovens a ter atitudes abusivas. Pais são os responsáveis por esse controle, mas a escola também deve ajudar

Pais devem aconselhar os filhos sobre a necessidade de respeitar as vontades dos outros e, se for o caso, estabelecer proibições e punições
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Pais devem aconselhar os filhos sobre a necessidade de respeitar as vontades dos outros e, se for o caso, estabelecer proibições e punições

Sentindo-se invadidas, meninas de 13 anos denunciam colegas de escola que passam as mãos em seus seios ou nádegas “por brincadeira”. Outras alegam que colegas de classe cometeram assédio sexual. Ao mesmo tempo, produções musicais e televisivas trazem para dentro de casa adolescentes bastante sexualizadas - e que parecem gostar de se exibir com tão pouca inibição. Um exemplo é o Bonde das Maravilhas, quinteto do hit “Quadradinho de 8” que já acendeu uma luz de alerta no Ministério Público por ter quatro das cinco integrantes menores de idade (13, 15, 16 e 17 anos; a mais velha tem 20) e forte apelo sexual em letras e coreografias.

Diante de tudo isso, a dúvida é natural: como lidar com a sexualidade dos filhos adolescentes e fazer com que eles respeitem os limites alheios? “Cabe aos pais aconselhar muito sobre a necessidade de respeitar as vontades dos outros e, se for o caso, estabelecer proibições e punições devido aos maus comportamentos. É importante ressaltar que isso vale tanto para meninos quanto para meninas. E, claro, é preciso ouvir todas as espécies de revoltas típicas dessa idade e não ceder a elas”, aconselha Vera Blondina Zimmermann, psicóloga do Centro de Referência da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A psicoterapeuta Helô Negrão concorda: “É bom demonstrar interesse genuíno pelo assunto, estar sempre aberto. Ouvir o adolescente já basta para promover um relacionamento de qualidade e construir o caminho do diálogo contínuo, do aconselhamento.”

Educação e postura

Mãe de Rodolfo, hoje com 20 anos, e Diogo, 17, a funcionária pública Lilian Belentani fez marcação cerrada para que seus meninos não tivessem uma visão superficial de mundo e do sexo oposto. “Sempre exigi deles respeito em relação às filhas de conhecidos, o que não se limita à conduta sexual. Está na forma de tratar, de falar com elas. É questão de educação e postura. Fico muito atenta a algum tipo de grosseria ou fala mais dura”, diz.

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Para ela, o modo como as mulheres são expostas na mídia atualmente dificulta muito na orientação de limites, o que pode ser amenizado com o exemplo de casa: “Vendo moças seminuas em todo tipo de programa de TV, é fácil que meninos cresçam achando que as mulheres são disponíveis e acessíveis. E não são! Mas acho que tudo depende do modelo ao qual estão acostumados. Meus filhos sempre me valorizaram como mulher que trabalha e faz o que pode para dar conta de tudo, e hoje reconhecem que a mulher normal trabalha, estuda, luta pelo que quer”, afirma ressaltando a importância das meninas também se valorizarem.

Além do exemplo, Lilian considera o diálogo essencial na hora de instruir os adolescentes sobre o que devem e o que não devem fazer. “Os meninos tentam esticar os limites, as meninas ficam divididas entre o moralmente correto e o medo de serem menos ‘descoladas’. Na minha opinião, isso demonstra claramente um tipo de educação em que ‘homens podem tudo e as mulheres que se cuidem’. O cara mais popular ‘pega’ muitas na balada. Os pais devem ensinar que um beijo no rosto é um cumprimento, que abraçar para demonstrar carinho é legal. Mas nada de passar a mão nos seios ou colecionar garotas”, opina.

Construção da sexualidade

Doutora em educação e professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Cláudia Vianna explica que é a sociedade que constrói a visão do que é a sexualidade. “Nossa sociedade ocidental é extremamente sexualizada, desde o discurso de que ‘sexo é fundamental’ até a propagação de estereótipos como ‘a gostosa que vai à escola com roupa de balada’ e ‘o garanhão que já transou’. A falta de limites é fruto desse pensamento”, afirma.

Na mesma linha, Vera Zimmermann complementa: “Vivemos um momento de enfraquecimento das repressões, de menos castigos. As pessoas estão mais narcísicas e só pensam no próprio prazer. Essa é uma das questões que levam à impulsividade sexual do adolescente, pois ele quer o que quer e vai pegar, sem pensar no outro, em consequências ou na imagem que passa, justamente por estar preocupado apenas com a própria satisfação.”

O papel da escola

Não há como fechar os olhos para o fato de que a escola, na maior parte das vezes, é onde surgem os comportamentos sexualmente inadequados. “Acontece de isso só se manifestar em grupo e deixar os pais sem ação”, afirma a psicóloga Vera. A auditora Renata Barbosa já passou por uma situação que envolveu o fator surpresa. Bruna, sua filha de 14 anos, chegou em casa perturbada porque um colega havia falado “barbaridades sexuais” para ela no intervalo. “Um garoto educadinho, que conhecemos desde pequeno. Exigi uma posição da coordenação do colégio. Ele acabou contando que aquilo era parte de uma aposta entre os meninos da classe, e todos levaram advertências. As mães de alguns deles reclamaram, mas o puxão de orelha serviu para eles perceberem que não devem agir assim”, acredita.

Cláudia Vianna defende que a escola tem a obrigação de se intrometer em casos como este, por mais que alguns pais achem que a questão seja privada. “A temática sexual já entrou na sala de aula por meio do assédio, do bullying, da homofobia. A escola não é substituta da família e não precisa lidar com o assunto da mesma maneira que o pai e a mãe do aluno. Como a escola vai manter o discurso, por exemplo, de uma mãe que nem sabe conversar com a filha sobre menstruação?”, questiona.

No entanto, o suporte das instituições, via de regra, ainda é fraco. “A escola, infelizmente, não está bem preparada para tratar do tema. Quando surge alguma situação envolvendo sexualidade, chama os pais ou encaminha o aluno para o psicólogo. Os pais, por sua vez, aceitam como a melhor solução. Falta o diálogo franco e aberto”, diz a psicoterapeuta Helô Negrão.

Cláudia acrescenta ao quadro a formação dos professores nesse sentido. “A formação docente para as questões sexuais ainda é muito recente. São poucas as disciplinas na grade do curso de pedagogia, e são opcionais. Por enquanto, o que dá para fazer é levantar a questão. Mas mudar o comportamento dos professores é um processo de longo prazo.”

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