Na contramão de quem pinta a função em tons pastel, há quem opte pelo humor e escracho para retratar a realidade do dia a dia com filhos

Em vez de uma animação fofa e colorida de um bebê no meio de flores e corações, a imagem – em desenho ou texto – de uma mãe cansada devido à rotina e aos cuidados com os filhos. Embora a primeira alternativa seja mais comum na internet e nas prateleiras de livros, a segunda tem cada vez mais representantes e admiradoras. Fora do clichê “a maternidade é uma maravilha 24 horas por dia”, estas mulheres resolveram rir delas próprias e retratar de maneira bem-humorada, ácida e realista a vida depois que se tornaram mães.

Gabriela com a filha Valentina: bom humor para falar da aventura materna e jogo de cintura para enfrentar os olhares feios
Arquivo pessoal
Gabriela com a filha Valentina: bom humor para falar da aventura materna e jogo de cintura para enfrentar os olhares feios

É o caso do site O Pintinho. Desde junho de 2010, a autora Alexandra Moraes mostra, em tirinhas estreladas por uma galinha (ela) e um pintinho (seu filho Benjamin, hoje com cinco anos), situações e diálogos rápidos, espertos e nem sempre glamourosos sobre o dia a dia familiar. Eventualmente publicadas pela “Folha de S. Paulo”, em maio as personagens passam ao papel: a editora Lote 42 lançará uma coletânea com as 80 melhores histórias. Em tira recente, por exemplo, o pintinho pergunta para a galinha “Super-herói faz cocô?”, ao que ela responde, sem titubear: “Com uma dieta rica em fibras, tudo é possível” (veja outras tirinhas ao final da página).

Os diálogos criados por Alexandra abordam a maternidade com humor e realismo
Reprodução/Alexandra Moraes
Os diálogos criados por Alexandra abordam a maternidade com humor e realismo

Os personagens nasceram, Alexandra explica, para dar forma a frases e ideias que surgem “das novidades, do sorriso, de um amor resiliente”. “Nem todas as tiras são sobre maternidade, mas não deixa de ser o ponto de vista de uma mãe. Seja para escolher a cor de uma cadeira ou pensar sobre a onisciência divina, não tem como deixar de lado o fato de ter uma criança que depende de você, e que vai rabiscar a cadeira ou questionar como pode haver um Deus bom se as crianças são obrigadas a tomar banho e ir pra escola todo dia”, diz. “A maternidade se torna uma espécie de óculos 3D: é interessante, mas não quer dizer que vai deixar tudo mais bonito”.

A linguagem bem-humorada vem naturalmente. “Não sei se é mais fácil expressar essas desventuras pelo humor. Para mim, é o único jeito, não consigo ver o mundo sem algum humor”, pondera. Esse também é o lema de Gabriela Franco, criadora do grupo “Maternidade para Divas” no Facebook. Mãe de Valentina, cinco anos, a produtora de vídeo opta pela risada ao narrar o crescimento da filha. “Acho engraçadas as tiradas dela, fico surpresa com o raciocínio rápido. Se eu não conseguir rir de mim e dessas situações, acho que não vou aproveitar os momentos tão bem”, afirma.

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As mulheres com quem Gabriela conversa na rede social têm a mesma linha de raciocínio. “Falamos sobre o amor e o suporte que damos às crianças com seriedade, só que sempre fazendo piada das passagens mais inusitadas, claro”, conta. Mas ela não considera esse um termômetro justo da realidade. “No mundo ‘real’ ouço críticas. Muita gente julga, acha que mães que riem são loucas cuidando de uma criança. É preciso ter jogo de cintura e manter o mesmo bom humor”, acredita.

[A maternidade] é cheia de aspectos maravilhosos, mas no fundo é mais uma aventura selvagem do que uma visita higiênica ao amor incondicional", diz Alexandra

Mães que agem como se todo dia fosse ensolarado e feliz e apontam o dedo para as mulheres que enxergam o cotidiano com alguma acidez levaram a norte-americana Jen ML a criar, em abril de 2011, o blog People I Want to Punch in the Throat (em tradução livre, Pessoas que quero socar na garganta), de onde saiu o livro “I Just Want to Pee Alone” (“Eu só quero fazer xixi sozinha”, sem previsão de lançamento no Brasil). “Eu ficava tão irritada! Não aguento essa conversa de alegria eterna, porque sei que é mentira. A maioria das blogueiras não assume a casa desarrumada, os filhos chorando e a mãe rezando para conseguir pensar por um minuto, então decidi ir na direção contrária”, conta ela, que é mãe de duas crianças de menos de 10 anos (Jen não revela mais informações, para preservar a família).

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Em postagens sobre o que considera absurdo (mães que carregam a placenta em bolsinhas, por exemplo) e também sobre acontecimentos de sua casa, Jen tentou apenas duas vezes ser “mais fofinha”. Não deu certo. “Minhas leitoras se revoltaram, reclamaram”, lembra. “Conquistei um público que se identifica com meu lado sarcástico e engraçado. Para cada comentário negativo, que diz que sou uma pessoa terrível por não agradecer pelo milagre de ser mãe, chegam outros 20 com frases como ‘Obrigada por mostrar que não estou sozinha’”.

Alexandra recebe o mesmo tipo de retorno com “O Pintinho”. “O discurso da maravilha absoluta de ser mãe já foi levemente dilapidado, até porque pouquíssima gente conseguiria manter a farsa depois de uma rodada de pirraça infantil”, opina. “As pessoas muito ricas e as muito loucas talvez consigam atingir essa superioridade, mas não é o caso para quem já precisou negociar mensalidade vencida na escola ou se controlar diante de uma criança gritando. A maternidade, me parece, não perdoa quase ninguém. É cheia de aspectos e descobertas maravilhosos, mas no fundo é mais uma aventura selvagem do que uma visita higiênica ao amor incondicional”.

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