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Quero ser freira

Três mulheres entre 17 e 35 anos falam sobre a decisão de dedicar sua vida à religião

Carina Martins, iG São Paulo | 13/09/2010 14:05

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Foto: Bruno Zanardo/Fotoarena

Amanda Moita Vaz, 17, está decidida a se tornar uma freira

"Ai, gente, meus brincos, não sei como vou viver sem meus brincos!", brinca a estudante paulistana Amanda Moita Vaz, 17, a respeito das argolonas prateadas nas orelhas. Simpática, olho pintado, luzes no cabelo, ela explica que, se der tudo certo, nos próximos dias vai conseguir compensar a nota vermelha que tirou em Biologia e assim evitar ficar de dependência justo agora que está terminando o Ensino Médio. Nos próximos meses, seus amigos vão prestar vestibular. Ela também. "É bom ter uma garantia", diz. Mas qualquer que seja o resultado, a faculdade será uma segunda opção. Amanda quer ser freira. E vem se preparando para isso há mais tempo do que os colegas pensam em vestibular. Acompanhada por irmãs Apostolinas desde os 12 anos, ela é hoje uma "vocacionada", nome dado às pessoas que já se decidiram pelo caminho consagrado e se preparam para a longa jornada até que realmente possam fazer seus votos.

Pouca gente deve pensar que ser freira é uma atividade fácil. Mas muitos podem achar que é simples tornar-se uma. Não é. Depois de um tempo indeterminado de contato entre vocacionados e congregação, a mulher que busca a consagração deve fazer os mesmos votos das freiras - obediência, pobreza e castidade - e viver a vida monástica por um período que varia entre cinco e nove anos de estudo e experiência para só então repetir os mesmos votos, só que de forma definitiva. E aí sim, ser uma freira. Hoje, são pouco mais de 30 mil no Brasil, número descrescente desde uma alta dos anos 70.

É muito tempo de dedicação para que um dos estereótipos sobre o que leva mulheres a escolher esta carreira (sim, carreira) se sustente: haja desilusão amorosa para valer o equivalente a uma faculdade de medicina, sem expectativa de receber salário de médico. Lucivânia Conceição Oliveira, 28, está prestes a fazer os votos definitivos e levanta a bola: “muita gente acha que só quer ser freira quem se dá mal no amor. Ou é feia”, diz, sabendo que é uma morena de olhos verdes e sorriso fácil que dificilmente poderia ser enquadrada naquela categoria.

Sexo e romance são muito valorizados, então é natural imaginar que sua renúncia esteja no topo dos questionamentos e dificuldades para as meninas e mulheres católicas que decidem ter suas vidas consagradas e tornarem-se freiras. Certamente o celibato não é o aspecto mais atraente da vocação. Mas, pelo menos entre aquelas que se interessam pela vida religiosa, também não é apontado como maior problema. Amanda já teve dois namoros longos. Diz que hoje não se interessa pelo assunto e que espera que uma paixão não apareça para fazê-la ter que escolher entre o futuro religioso e o romance. Lucivânia diz que sempre quis ser freira, e que isso não impediu que tivesse vários namoricos no interior da Bahia, de onde veio, mas que fez com que nunca levasse a sério a possibilidade de se casar. Nem Lucivânia nem Amanda citam o romance entre suas maiores preocupação na hora de fazer os votos que pretendem. Desculpem, meninos.

Foto: Bruno Zanardo/Fotoarena

Amanda com a irmã Susana na casa das freiras

A irmã Susana Santa Catarina, 35, é a responsável pela área vocacional das irmãs Apostolinas, pequena congregação cuja missão é exatamente a de atrair católicos para a vida consagrada. Em sua experiência, as meninas que se interessam em conhecer melhor esta opção costumam se preocupar mais com outras renúncias. A maior parte delas vem de cidades pequenas do interior do país, e deixar a família é o maior empecilho que encontram. “Especialmente quando são filhas únicas, é muito difícil para elas a ideia de ficar longe da mãe e da família, explica Susana.

Se o voto de castidade não é a grande questão, sobram pobreza e obediência. Susana, na vida monástica há dez anos, Lucivânia, prestes a fazer os votos definitivos, e Amanda, que apenas acompanha a rotina das irmãs, podem estar em estágios diferentes da consagração. Mas são unânimes aos apontar a maior dificuldade da vida de freira. E, surpresa, é algo tão mundano quanto sexo: a convivência. As irmãs, mulheres de origem e idades diferentes, têm que viver juntas, partilhar uma rotina, dividir tarefas e ainda seguir uma hierarquia. Quase dez anos de Big Brother Brasil já deveria ter nos ensinado que abstinência não é nada perto dos desafios da convivência. “Dividir sua vida é parte do voto de pobreza”, ensina irmã Susana. E, no caso delas, é para sempre.

O caminho

Lucivânia nunca tinha visto uma freira de verdade, mas já sonhava em ser uma. Antes, trabalhava em casas de família. Ela tem uma irmã mais velha que faz parte da mesma congregação que ela, e desconfia e torce que outro irmão tem vocação para padre. Na cidade de Susana também não havia nenhuma irmã, mas vem de uma família extremamente religiosa. Envolveu-se com a comunidade da Igreja e acabou decidindo viver para isso. As duas dizem que seus pais falam com orgulho de sua opção.

Lucivânia e Susana têm origens e histórias parecidas. O caso da paulistana Amanda é um pouco diferente. Seu pai é umbandista e a mãe católica não-praticante. Ela começou a frequentar a igreja por conta própria aos sete anos, ao ouvir uma amiguinha contar histórias da catequese. “Meu pai ficou um ano sem falar comigo. Eu adorava ir, e logo quis participar como as crianças que ficavam no altar. O dia que me colocaram para carregar a cestinha, fiquei muito empolgada. Acabei virando coroinha”, conta. No ano passado, sua mãe foi conhecer a casa das freiras, programa preferido de Amanda nos finais de semana, o que custa muita reclamação dos amigos de escola. “Eles me chamam para sair, comer pizza. Eu vou, eu gosto. Mas gosto mais de ir à casa delas”, diz. A menina conta que a mãe não gosta da ideia, mas hoje apóia sua decisão.

As duas mais velhas escolheram a vida monástica por uma identificação com a igreja. Amanda também, mas a estudante diz que, acima de tudo, sua vontade é trabalhar com jovens. Hoje, exercita esse lado sendo amiga dos amigos. “Eles dizem que dou bons conselhos”, conta. A turma se divide entre os que apóiam sua escolha para o futuro e os que a acham “louca”.

Freira pode

Quando Amanda conheceu as freiras em um retiro, aos 12 anos, disse que nunca tinha visto uma irmã. “Achei que eram todas velhas chatas, e que iam atrapalhar a viagem”, conta. Surpreendeu-se com a idade e a disposição das que encontrou. Após a primeira noite, a menina diz ter acordado angustiada sem saber por quê. “Uma irmã conversou comigo e me ajudou muito”, diz. Foi o começo de uma amizade que moldou a escolha de Amanda. A freira que a ajudou acabou desistindo da vida consagrada. Ela, não.

“Vou sentir falta do meu pagodinho também, ai meu Deus”, conta Amanda, fã de Exaltasamba, Jeito Moleque e outros. “Se bem que eu já as vi ouvindo Alexandre Pires. Mas dançando, não”, ri. Entre as idéias mais erradas que já ouviram a respeito das freiras, as três apontam o excesso de restrições, como não poder ver televisão, não poder sair sozinha ou encarar castigos. Tudo lenda, elas garantem, pelo menos nesta congregação. Perguntando com jeitinho, elas contam rindo segredos da convivência – tem freira pintando o cabelo, tem irmã vaidosa demais. “Essas coisas do dia a dia de mulher nós também temos. E gula e vaidade são pecados capitais!”, ri. E não é porque o hábito é largo que a cintura pode acompanhar. “Se a gente percebe que uma irmã está se jogando demais nos doces, por exemplo, a gente comenta”, confessa Susana aos risos. Convivência.

As unhas vermelhas e o olho pintado de Amanda vão ter que ficar para trás se ela conseguir o que quer e for viver com as irmãs no ano que vem, quando completar 18 anos. “Não é que não pode, mas é inapropriado”, explica Susana sobre a maquiagem. A estudante lamenta, “adoro ser loira”, mas acha que vai levar numa boa. Só que os brincos... “Ai meus brincos, vou sentir falta”, diverte-se. Se tudo der errado, ela mantém os brincos e vira publicitária. Mas só se Deus quiser.

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    185 Comentários |

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    • marlene Bueno da Silva Oliveir | 17/09/2010 11:24

      Acho louvável e agradável aos olhos de Deus, uma adolescente ou jovem que tem uma vida inteira pela frente se consagrar a Deus no serviço aos irmãos necessitados. Conheço inúmeras freiras que são muito felizes e realizadas no trabalho que fazem. Tem que ter dom, não é para qualquer um. E elas trabalham muuuuuuito mesmo para este mundo ficar melhor. A alegria que Deus nos permite sentir quando realizamos algo para Ele, só quem experimenta sabe. Abraços!!

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    • maria | 16/09/2010 21:54

      Que bonito ver a naturalidade e sinceridade nas colocações da Amanda .Segue em frente e confiante na obra de Deus n'ela .Vou rezar para que sejam muito Felizes , e acreditei que já esta Feliz vivenciando o ' chamado' em seu coração, ha caminho . Muita paz e fortalecimento em Jesus e Maria ,pra você e todas as vocacionadas .Abraços .

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    • Andressa Albuquerque | 16/09/2010 13:45

      Tem pessoas dizendo que a garota deveria pesquisar mais sobre a Igreja Católica pra dpois decidir se é isso mesmo que ela quer....pessoal...fala sério....assim vcs estão insultando a inteligencia dela como se ela fosse pisar num território com os olhos vendados...vcs acham mesmo que ela não sabe de tudo?

      E outra coisa....isso se expande à TODAS as religiões...nenhuma é perfeita...já disse....religião é algo criado pelo homem...existe muitas pessoas que se escondem atrás de uma biblia...que na missa/culto se fazem de servos fiéis e por trás é fofoca, inveja, olho gordo e por ai vai até coisas mais absurdas e horriveis....agora quer dizer...só pq existe tais pessoas ridiculas...a Amanda não deveria seguir o caminho que ela escolheu com o coração dela? Vcs vivem em que mundo ein? É a mesma coisa dos pastores evangélicos....como nós sabemos existem mtos ladrões que se aproveitam da fragilidade e da fé das pessoas.....mas existem aqueles que são pastores que realmente decide seguir esse caminho para ajudar as pessoas....

      Mas é....infelizmente existe pessoas como essas que generalizam...que acham que só pq existe pessoas inescrupulosas na Igreja Católica....TODA a Igreja não presta... Como tbm mtos acham que TODO evangélico é ladrão...

      Eu não tenho religião....não encontro a minha fé dentro de nenhuma ..nem catolica..evangelica...espirita...umbanda....nem naqlas seich-no-ie e na messiânica...ja conheci muitas.....acredito em Deus sim concerteza não pq me falaram q existe um Deus..mas sim pq ja senti em meu coração....e nem por isso fico tentando fazer a cabeça das pessoas a pensarem da msma maneira q eu....qualquer que seja a religião da pessoa.....crença...enfim.....eu sempre desejo somente que a pessoa seja sempre abençoada por qualquer ser divino em que acredita.....se todos respeitassem a diversidade e escolhas dos outros....concordam que seria um passo pra um futuro melhor?
      Por isso eu digo....não interessa oq a Igreja católica foi, é ou será... e sim desejar a Amanda que Deus a abençoe..e que ela seja feliz no caminho que ela escolheu seguir...

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    • Ir.Jaqueline,cp | 16/09/2010 09:42

      Querida Amanda,estou muito feliz também por sua decisão,
      o Bom Deus nos sustenta na nossa caminhada e nos desafios,
      se coloque sempre nas mãos de Jesus pois é Ele que vai te conduzir;
      "SEM MIM NADA PODEIS FAZER!" Para ser religiosa é preciso coragem e alegria.
      SEJA PERSEVERANTE!

      Abraços;
      E pode contar também com as minhas orações.
      Ir.Jaqueline.cp

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    • Daniel | 15/09/2010 16:05

      Que maravilha a decisão da nossa amiga Amanda!!!

      Cara amiga tenha certeza que o Céu está em festa e o inferno se balança de raiva...

      Também sou vocacionado, porém para o sacerdócio e sei o quanto é difícil, pois tenho 21 anos, enho namorada e curso computação, etc.

      Abraço Mariano.
      Paz e Bbem.

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    • ana paula jones | 15/09/2010 15:21

      Espetacular Amanda,
      Deus está operando em sua vida para que sejas exemplo de muitos jovens , que Deus te abençoe a a estas irmãs que sabemos são exemplo de Deus aqui na terra, um veículo para que sigamos também.
      Não se importe com as pessoas que te contrariam, elas aprenderão a cver a felicidade em seus olhos, em sua vida , porque Deus opera assim.
      Cristo também foi tentado para não seguir ao Pai, assim somos todos nós que estamos nos aproximando dEle.
      Bem que eu seria abençoada, ainda mais , se um de meus filhos seguisse seu caminho. Que Deus a abençoe e emcha de graça.
      Beijos mil

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    • EDU | 15/09/2010 15:12

      Querida AMANDA, NÃO FAÇA ISSO, as pessoas aqui se expõem para lhe ajudar, entenda que não é preciso ser freira para se comunicar , para ir a Deus. e sobre a igreja Católica, pesquise muito, e verá que a igreja é culpada de muitos males da vida humana no passado, presente , e espero não no futuro.

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      Padre Sandro | 15/09/2010 21:08

      EDU acredito o seu comentário será grande incentivo para a opção da jovem. Alguns tentam desqualificar a instituição e com isso desqualificam os seus seguidores. Infelizmente, a tática democrática não é a melhor quando se está implicada a felicidade, a individualidade, a singularidade do chamado de Deus. PAX

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    • Cláudia Tavares | 15/09/2010 15:08

      Garotas vocacionadas, que bela escolha!!!!
      Nós precisamos sim das orações das religiosas que se dedicam exclusivamente à causa da expansão o Reino de Deus nesta terra!!! Rezem também pelos que as criticam, para que consigam entender a grandeza da missão para a qual são chamadas... também o Nosso Senhor foi tão criticado e machucado, não é mesmo?!
      Vou rezar por vocês!!! E convidar a minha comunidade para fazê-lo comigo...
      Força, garotas!!! Em Cristo e Maria!!!

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    • IR. MARIA MARQUES | 15/09/2010 15:05

      Amigas, fico feliz em saber que ainda existem jovens CORAJOSAS, SEM MEDO DE SEGUIR JESUS COM RADICALIDADE. VÃO EM FRENTE! SEJAM FELIZES porque EU SOU MUITO FELIZ!
      Um beijão no coração de vocês !
      Com minhas orações!
      Ir. Maria Marques FMA

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