No livro Novos Velhos, jornalista aponta a nova realidade da velhice no Brasil, seus problemas e perspectivas

Os brasileiros estão envelhecendo melhor e ainda ajudam no orçamento familiar
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Os brasileiros estão envelhecendo melhor e ainda ajudam no orçamento familiar
O tempo em que as vovós ficavam em casa fazendo crochê enquanto os vovôs jogavam dominó ou batiam papo nos bancos das praças ficou para trás. Um estudo feito pela jornalista Léa Maria Reis, do Rio de Janeiro, revela que os idosos brasileiros estão mais ativos, produtivos e ajudam a movimentar a economia do País.

"A população está envelhecendo melhor nas últimas décadas e os velhos ainda colaboram no orçamento familiar", ela conta no livro Novos Velhos.

Mas também constata que a mídia trata do assunto superficialmente, abusando de imagens clichês de velhos fazendo exercícios, dançando, com os netinhos ou fazendo plásticas.

“O envelhecimento da população brasileira, em médio prazo, será um imenso problema sócio-político-econômico para o País se não for analisado e atacado hoje”, destaca.

A autora se surpreendeu com os resultados da pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Os dados mostraram que os idosos, de modo geral, auxiliam mais os jovens, do ponto de vista financeiro, que o contrário. Nas classes populares, com as suas pensões (quase sempre da mulher, da avó ou bisavó) e nas classes médias, ajudam na manutenção de planos de saúde de netos, noras, e nos estudos e viagens das crianças, adolescentes e jovens adultos.

Hoje, os novos velhos têm um "extra de vida" de mais 20 ou até 25 anos, como diz a professora de Psicologia Social da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica) Teresa Creuza Negreiros, entrevistada no livro. Considerando a expectativa média de vida atual do brasileiro, que hoje está em pelo menos 73 anos e a idade da aposentadoria, aos 55 anos em média, existem quase duas décadas que representam a possibilidade de uma segunda vida para eles.

“Podem criar novos projetos de vida ativa porque tem maior chance de longevidade e procuram qualidade de vida. Esses novos velhos votam, representam, consomem (muito), agem, participam, circulam e produzem. Por isso, o mercado de consumo e os políticos estão de olho neste novo segmento. Uma geração atrás, esses indivíduos estavam retirando-se para os seus aposentos, de pijama, chinelos, em casa, vendo novela e TV o dia inteiro”, afirma a autora.

Embora a pesquisa tenha demonstrado um novo perfil do idoso brasileiro, há diferenças entre velhinhos e velhinhas.

Os homens velhos, em geral, são mais passivos e deprimidos. As mulheres, mais enérgicas e participantes.

Para Léa, são resultados benéficos para elas e ecos dos movimentos feministas do passado.

No aspecto sexual, os homens idosos são mais ativos e contam com os estímulos médicos. As mulheres têm mais vergonha do corpo, do físico decadente e temem o olhar do parceiro para ele. Reticentes, pouco falam sobre o assunto.

No mundo do aperta-botão-e-passa-cartão e da dependência de senhas, ainda há velhos que se confundem e se mostram nervosos com as tecnologias da informática que regem nossa vida hoje. Mas a maior parte deles se esforça para entrar no universo da tecnologia.

“Entendem que deste conhecimento vai depender sua autoestima e sua força. E são muitos os que usam a tecnologia da informática para se comunicarem e não se sentirem sós, para se informarem e se divertirem”, descreve a jornalista.

Apesar das mudanças e avanços no processo de envelhecimento da população, patinamos em um ponto crucial e básico: a sociedade das grandes cidades brasileiras ainda não mostra respeito pelos mais velhos.

“Há muito que caminhar”, diz Léa. “A responsabilidade pelo idoso em primeiro lugar é do próprio indivíduo, em segundo, é da família e da sociedade e e em terceiro é dever do estado. A sociedade que acolhe devidamente sua população envelhecida - assim como suas crianças - pode ser chamada de realmente civilizada.”

A jornalista insiste na necessidade urgente de elaboração de políticas sociais fortes focadas no envelhecimento da população nas áreas da saúde, da assistência social e na revisão das aposentadorias. Sem providências enérgicas em relação ao envelhecimento acelerado, se colocará uma complicada escolha para os governos: investir em educação para as crianças ou investir em bem-estar para os velhos. “Não haverá dinheiro para investimento nas duas pontas. E isto começa a ocorrer já, aqui e lá fora”, diz Léa.

E como, afinal, estamos envelhecendo? Para a jornalista, de uma forma positiva.

“Acho que estamos envelhecendo bem melhor que há uma, duas gerações. Mas há ainda muito a fazer na área da saúde, da assistência e, em especial, nos reajustes das magras aposentadorias do INSS e na reformulação paralela de muitas das gordas aposentadorias do funcionalismo público.”

Novos Velhos é resultado do primeiro curso que a jornalista ministrou na Casa do Saber do Rio de Janeiro, no verão de 2010, sobre o mesmo assunto. O curso teve uma nova edição no verão deste ano e os dois acabaram sendo a inspiração para fazer o livro.

O trabalho de pesquisa levou um ano. Outros três volumes publicados nos últimos dez anos - Maturidade, Além da idade do lobo e Cada um envelhece como quer (e como pode) - também serviram de base para esse lançamento.

Durante a pesquisa para o livro foram ouvidos idosos de ambos os sexos, com 70 anos em média, moradores de várias regiões do Rio de Janeiro e pertencentes à classes sócio-econômicas diversas. A grande maioria dos entrevistados exerce alguma atividade profissional e auxiliam de vários modos a família, inclusive financeiramente.

Novos Velhos
Léa Maria Reis
Grupo Editorial Record / Editora Record

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