Divórcios, relações virtuais e muita dedicação ao trabalho aumentam a solidão, segundo estudo britânico

Tema solidão: pintura de Rodrigo Cunha
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Tema solidão: pintura de Rodrigo Cunha
Cientistas da Mental Health Foundation , na Inglaterra, chegaram à conclusão de que uma em cada dez pessoas da população britânica sofre de solidão frequentemente. De acordo com o estudo “The Lonely Society?”, que fez uma enquete com 2256 britânicos adultos, a mudança no estilo de vida da sociedade contribui para o aumento da solidão. Na Inglaterra, o número de divórcios quase dobrou nos últimos 50 anos, assim como o percentual de casas ocupadas por apenas uma pessoa - de 6% em 1972 para 12% em 2008. No Brasil, estim a-se, segundo números do IBGE, que mais de seis milhões de pessoas vivam sozinhas.

Outros dados da pesquisa revelam que as mulheres (38%) são mais propensas do que os homens (30%) a se sentirem solitárias e procuram mais ajuda quando isso acontece (13% em comparação a 10% dos homens). O estudo aponta que a pressão em ser produtivo e alcançar o sucesso no trabalho faz com que as pessoas acabem negligenciando as relações afetivas. As redes sociais, ao contrário do que se imagina, também prejudicam as relações pessoais verdadeiras, segundo os especialistas. Uma em cada cinco pessoas diz gastar muito tempo se comunicando com amigos on-line, quando deveria vê-los pessoalmente.

Sentir solidão por muito tempo pode levar a problemas de saúde, como estresse, depressão, problemas cardiovasculares e no sistema imunológico, além de aumentar o uso de substâncias como álcool e outras drogas, segundo o estudo. Os mais atingidos pela solidão são os idosos, desempregados, pessoas com deficiência e quem está na meia-idade (devido à saíde de casa dos filhos, divórcio e luto). Admitir a solidão é complicado para a maioria das pessoas: uma em cada três declarou ter vergonha de admitir a solidão.

O psicólogo Raymundo de Lima, professor da área de Metodologia da Pesquisa da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná, explica que a solidão não acontece necessariamente quando se está fisicamente sozinho. “É um sentimento de estar distante dos outros ou os outros distantes de você. Como se você estivesse numa bolha, e isso pode acontecer em um elevador lotado de pessoas”, diz. Mesmo sendo um sentimento natural do ser humano, Lima percebe um aumento da discussão sobre o tema em obras acadêmicas na atualidade. “Nos escritos gregos, por exemplo, os filósofos não falavam de solidão. Pelo contrário, falavam de amizade”, diz.

Homem sozinho na pintura do artista Rodrigo Cunha
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Homem sozinho na pintura do artista Rodrigo Cunha
A pesquisa inglesa mostra também que uma em cada três pessoas gostaria de morar mais perto de suas famílias e em cidades menores. Segundo Lima, a superpopulação nas cidades faz com que as pessoas desenvolvam uma proteção para preservar a sua própria identidade, uma espécie de “pele psicológica”. O psicólogo explica que, apesar desta pele ser necessária para a autopreservação, ela pode acabar se tornando uma couraça, uma blindagem e aumentar o isolamento.

Mesmo sendo uma das principais causas de depressão (42% na Inglaterra), a solidão também pode, em alguns casos, ser frutífera. O artista plástico Rodrigo Cunha, de São Paulo, por exemplo, usa-a como tema principal de suas telas. Ele explica que, por ser uma condição inerente ao ser humano, a solidão se transforma em algo fascinante. “Quando mostro aquela figura solitária, coloco dentro dela uma questão sublime: a de como é maravilhoso estar vivo”, completa o pintor.

Raymundo de Lima pontua que nem sempre a solidão precisa vir acompanhada de angústia e desamparo. Ainda assim, se estes sentimentos aparecerem, o psicólogo recomenda tentar aumentar a dose de convivência social e, em casos mais graves, procurar ajuda especializada.

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