Empresário foi agredido e ameaçado pela ex-companheira e buscou ajuda na legislação criada para proteger mulheres contra violência doméstica

O empresário C.B., do Mato Grosso, 35 anos, mantém sigilo sobre a identidade por cautela. Em 2008, ele foi orientado pelo advogado a acionar a Lei Maria da Penha para se proteger da ex-companheira, após um relacionamento de três anos. Ele passou a temer as ameaças de morte após ser agredido. “Ela apagou um cigarro no meu peito”, lembra.

Cinco anos depois de entrar para as estatísticas de homens protegidos pela legislação criada para beneficiar mulheres – os dados mostram que foram 140 mulheres detidas enquadradas na Lei Maria da Penha no período – ele foi surpreendido por um convite da ex-mulher no Facebook. “Acho inadmissível os homens que ainda agridem suas mulheres. Mas entendo que é preciso criar mecanismos para defender o gênero masculino também”. Leia a entrevista completa.

iG: Como era situação vivenciada no seu relacionamento em 2008 e quando você sentiu a necessidade de uma providência jurídica?

C.B.: Tínhamos uma boa relação. Porém, ela tinha uma relação conturbada com o "último" ex-marido. Depois percebi que ela mentia e me ludibriava dizendo que o ex a incomodava, quando na verdade era ela quem o perseguia. Foi quando descobri que ela estava me traindo com ele. Terminei a relação. Foi no dia do término que ela, irritada, apagou um cigarro no meu peito. Aí não tem volta né? Isso é imperdoável. Eu já havia saído de um casamento de quase vinte anos por ter sido traído, mas nunca havia passado por nenhuma agressão física. Foi a primeira vez.

Ela chegou ao ponto de se automutilar e dar queixa na delegacia da mulher dizendo que eu a espanquei

iG: Imaginava que a situação chegaria até esse ponto quando o relacionamento começou?

C.B.: Quem, em sã consciência poderia imaginar que chegaríamos a esse ponto? A única agressão física que sofri foi esta do cigarro. Mas ameaças sofri muitas, e de muitos modos diferentes. Por exemplo, ela dizia que inventaria um monte de mentiras a meu respeito como, de fato, fez. Escreveu cartas e mandou e-mails para minha mãe, meus filhos, meus parentes e amigos com conteúdo vergonhoso, mentiroso.

Ela driblava os porteiros e invadia o condomínio onde moro para me encontrar, riscar a pintura do meu veículo, quebrar vidros do carro. Quando os porteiros não a deixavam entrar, ela dava show na portaria: gritava, chorava, inventava que eu a tinha posto para fora de casa sem direito a nada. Os morados que viam me julgavam um crápula indecente. Houve condôminos que foram bater à minha porta se dizendo indignados com o modo como eu a tratava.

Ela chegou ao ponto de se automutilar e dar queixa na delegacia da mulher dizendo que eu a espanquei. Quando mesmo assim não cedi e disse que preferia ir para a cadeia a reatar o relacionamento, ela retirou a queixa. Não imaginava isso.

iG: Como surgiu a ideia de recorrer à Lei Maria da Penha? Você já conhecia a legislação?

C.B.: Quando ela começou a me ameaçar de morte, decidi procurar um advogado para me orientar. Nessa época, ela misturava antidepressivos e ansiolíticos com bebidas alcoólicas e eu passei a ter a certeza de que ela seria capaz de fazer algo mais grave. Depois de muito conversar e pesquisar com meu advogado, achamos que a única maneira de conseguirmos que um juiz determinasse uma medida protetiva a meu favor seria usando a própria lei. Entendemos que essa lei é específica para mulheres e crianças, porém, não pode jamais, como legislação, ser exclusiva.

Eu não estava ali procurando vingança, mas procurando paz, sossego

iG: O recurso surtiu efeito? A perseguição da sua ex-companheira cessou?

C.B.: Não. Ela continuou a me perseguir, a tentar entrar em contato de todas as maneiras, celular, internet, no meu escritório, no meu apartamento. Minha vida virou um inferno. Então, procurei o juiz que havia concedido a medida protetiva. Eu não estava ali procurando vingança, mas procurando paz, sossego.

O juiz determinou que ela se tratasse em um núcleo do Estado próprio para casos semelhantes e garantiu que acompanharia o tratamento de perto. Mesmo assim, ela não parou. Não havia mais como lidar com o incessante assédio que eu sofria. Então eu disse em juízo que ele tomasse a medida que achasse melhor. Sinceramente não sei o que ele determinou. Só sei que a partir desse momento, ela cessou. E por incrível que pareça, na semana passada recebi um convite dela para ser amigo no Faceboock. É demais! Não é?

iG: Algum amigo, conhecido ou parente já enfrentou uma situação semelhante à sua?

C.B.: É impressionante que em pleno século 21 os homens ainda continuem agredindo suas mulheres. E não acontece somente nas camadas mais pobres da sociedade. É que somente divulgam os casos dessa esfera. Respondendo à sua pergunta, tenho ouvido depoimentos do crescente comportamento violento por parte das mulheres e até de conhecidos que a gente nem imagina.

iG: Neste processo todo, de vida, jurídico e pessoal, você tem algum arrependimento?

C.B.: Não. Foi a única maneira racional que eu encontrei para me defender. Encontrei na própria lei Maria da Penha onde recorrer para preservar a minha identidade física e moral.


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