Alex Franulovic descobriu que lugar de homem é na cozinha, na faxina e no escritório. “É a revolução masculina necessária para os dias atuais”, diz

Alex Franulovic, mais velho de três irmãos, cresceu em uma casa onde as tarefas domésticas não eram divididas. No trono, a rainha mãe era absoluta, responsável única por lavar, passar, limpar e deixar comida pronta na hora do almoço ou jantar. Até que chegou a hora do príncipe sair do ninho e descobrir que roupa colorida não pode ser misturada à branca na máquina de lavar, papel higiênico não é reposto automaticamente no banheiro e não há mágica para fazer os pratos sujos desaparecerem da pia.

O gato borralheiro dividiu as funções com a rainha e então virou rei do lar
Celso Pupo/Fotoarena
O gato borralheiro dividiu as funções com a rainha e então virou rei do lar

Com diploma de geógrafo em mãos, Alex deixou São Paulo aos 28 anos para trabalhar no Rio de Janeiro. Descobriu – aos trancos e barrancos – que naquele torcedor corintiano e fã de rock habitava um gato borralheiro adormecido pelo conforto de nunca ter precisado varrer um chão.

Assista ao Papo na Redação: as vantagens de ser um dono de casa

“Há 9 anos descobri que o meu lugar, além do escritório, também é na cozinha e na faxina”, diz ele. Aos 37 de idade, adaptou-se tanto ao papel de dono de casa que formou, ao lado de dois amigos também adeptos da jornada “casa, comida e roupa lavada”, o grupo Donos de Casa.

Situação econômica

O nascimento do “Alex Franulovic dono de casa” foi simultâneo ao do “Alex Franulovic desempregado”. “Eu cheguei ao Rio de Janeiro, casei e, meses depois, fui demitido. Minha mulher dava um duro danado na profissão e eu tinha tempo livre para ser ocupado”, lembra.

“A grana estava curta para ter empregada doméstica ou levar roupas na lavanderia. Comecei me aventurando na cozinha, depois cuidando da limpeza. Óbvio que manchei algumas peças de roupa, mas aprendi a ser dono de casa rapidinho.”

A situação econômica da época fez com que o desemprego fosse assunto predominante na rodinha dos amigos de Alex. “Alguns deles, também movidos pelo desemprego, começaram a pegar no batente dentro de casa. Daí, como brincadeira, fizemos camisetas com dizeres sobre a nossa nova profissão: ‘sou dono de casa’”, conta. “Depois criamos aventais para homens, panos de prato masculinos. Montamos um site para vender os produtos e discutir a necessidade do homem assumir este posto dentro dos lares. Mais do que um negócio, ser dono de casa é uma demanda social”, acredita.

Alex e a filha de cinco anos: enquanto um trabalha, o outro
Celso Pupo/Fotoarena
Alex e a filha de cinco anos: enquanto um trabalha, o outro "segura as pontas"

Mais do que um negócio, ser dono de casa é uma demanda social”, acredita Alex

Revolução

Alex arrumou novo emprego, mas não deixou as tarefas domésticas para escanteio. A dupla jornada, acredita, só não ficou pesada porque ele dividiu as funções com a esposa. “Eu divido, não ajudo”, faz questão de ressaltar.

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A divisão foi fundamental para três pilares principais: renda familiar, dar conta da chegada da primeira filha (há cinco anos) e fazer com que o tempo sobre também para os jogos do Corinthians, cervejinha com os amigos e shows de rock.

“Minha mulher fica tranquila em fazer hora extra no trabalho, pois sabe que eu pego minha filha na escola e faço jantar. Quando eu preciso passar mais tempo no escritório, ela também segura as pontas. Tudo é compartilhado, o que deixa nossa estrutura sólida para o trabalho, lazer e educação da nossa filha”, diz Alex, concordando que a revolução feminina consistiu na saída delas para o mercado de trabalho e a revolução masculina necessária para os dias atuais “é a entrada dos homens para as funções domésticas”.

E, segundo indicam as pesquisas mais recentes, esse será um longo caminho. Nas casas brasileiras, a maior parte da população feminina permanece solitária na função de lavar, passar, limpar e cuidar dos filhos. Pesquisa feita pelo Instituto DataPopular identificou que 71% das mulheres casadas não conta com nenhuma ajuda dos companheiros para o trabalho caseiro , o que compromete a remuneração delas no mercado formal, afirmam os especialistas.

Para reverter o cenário, Alex convida os homens a ligarem o som no último volume e partirem para a ação. “As músicas do Ramones são ótimas para fazer faxina. Ajudam a combater o estresse. E para quem é solteiro, fica a dica: ganha pontos o homem que sabe cuidar da casa e não é um peso para mulher.”

Quatro passos para virar dono de casa, por Alex Franulovic

1. Pare de se enganar. Quem não faz trabalho de casa tem mais trabalho para ter uma boa relação em casa.

2. Procure a área com que você mais se identifica: cozinhar, arrumar, lavar, passar. Assuma como tarefa obrigatória e tenha em mente que não é ajuda à companheira. É divisão, portanto você faz sempre, e não só quando recebe um pedido para fazer.

3. Peça dicas para quem sabe fazer, mas descubra seu próprio jeito de executar as tarefas. Lembre sempre sua companheira que você é executor das tarefas, e não um auxiliar.

4. Saiba que no início você vai errar. Acidentes acontecem, mas não são desculpa para não fazer mais.

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