
Desde pequenos, vivemos em um estado de desamparo que precisa ser acolhido e bem adaptado na relação mãe e filho. A mãe desenvolve a capacidade de decodificar as mais tênues necessidades e, segundo Winnicott (psicanalista que desenvolveu teorias sobre as relações infantis), deve ser "suficientemente boa" na contenção das angústias e necessidades do filho.
Conforme a criança vai crescendo e desenvolvendo suas habilidades, ela necessita de outros estímulos e relações para tornar-se saudável. A mãe, então, precisa aprender a lidar com as necessidades do filho, que se torna mais independente. Este seria um desenvolvimento harmônico e saudável, no qual ambos, filho e mãe, têm suas próprias necessidades. Mas, o que muitas vezes ocorre, é que muitas mulheres ficam totalmente aderidas a esta função e isso pode virar algo doentio, mães que não conseguem amadurecer e entender que seus filhos devem fazer voos solos.
Não é fácil este momento, mas ele vai sendo criado por meio de uma história entre mãe e filho, no qual saímos do lugar de protagonista para vivermos um novo papel. Não menos importante se soubermos, claro, colocar os nossos desejos e cuidados em torno de um mundo que não necessariamente seja a vida de nossos filhos.
Escolhas certas ou erradas, amores que trazem dores, empregos perdidos, estes são alguns dos caminhos que os filhos precisam trilhar para se perceberem como homens e mulheres completos. Algumas mães que amam demais precisam aprender a construir o seu próprio lugar. Este não é um lugar do vazio, mas o da transformação. Necessitamos nos rever e observar também a nossa trajetória para aceitarmos, de uma forma menos sofrida, que as relações precisam se basear no respeito, na confiança e nos limites.
Dorli Kamkhagi - dkamkhagi@ig.com.br - é doutora em Psicologia Clinica, mestre em Gerontologia e pesquisadora Do Lim 27- Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.
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