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"Tudo começa lá em março de 2020, quando tive o primeiro contato com a equipe que iria assistir meu parto. Eu e meu companheiro decidimos que seria domiciliar. Estava estudando muito para dar um  parto humanizado e planejado para minha filha porque a maternidade da minha cidade é um verdadeiro caos. Minha gestação era de risco habitual, exames todos dentro da normalidade, tudo certo. Quando falei minha idade – na época, 21 anos -, elas começaram a colocar empecilhos e achar que eu não seria capaz de parir.

No dia 9 de outubro de 2020, às 41 semanas de gravidez, as duas enfermeiras obstétricas apareceram na minha casa de surpresa. A reunião estava marcada às 13h, elas chegaram às 9h, sem avisar. Até então, eu achava que seria uma reunião para entender quais as possibilidades de indução, não que a indução iria ocorrer naquele dia. Elas me disseram que havia outra mulher parindo em uma cidade bem longe da minha e que não havia equipe backup. Por este motivo, eu teria de fazer a indução naquele dia ou elas me encaminhariam para o hospital sem equipe.

Minha indução foi feita por meio do descolamento de membranas. O trabalho de parto foi evoluindo lindamente, tudo indicava um parto rápido, a jato. Às 20h, a fase ativa começou e veio como um furacão. Uma hora depois eu estava com oito centímetros de dilatação, indo para a fase de transição. Senti que, de alguma forma, minha filha tinha descido ao canal de forma desfavorável, então doía demais. As contrações que antes eram dolorosas, mas incrivelmente prazerosas, agora eram sofridas demais, beiravam o insuportável.

A equipe decidiu me colocar na banqueta e fazer puxos dirigidos. Eu sabia que não estava na hora dos puxos, sequer senti a Maria Flor coroar, mas a equipe dizia: 'Faça força de xixi, Duda!' e eu tentava e não conseguia nada. Não conseguia sair dali, nem verbalizar o que eu queria. Só me lembro de me jogar no chão e elas me colocarem de novo na banqueta. Ficamos assim por três horas.

A dor era imensa e cheguei a desmaiar algumas vezes. Eu queria analgesia e pedi a transferência para o hospital, mas a equipe não me apoiou, disse que não era necessário. Às 5h30 da manhã, a equipe finalmente me levou. Fomos com o carro delas e meu companheiro e eu não tínhamos nem como voltar para casa depois. Meu sentimento era que tínhamos sido despejados no hospital. 


Quando chegamos ao local, eu mal conseguia andar, não queria estar lá, mas estava com fé de que eu conseguiria a analgesia e poderia parir minha filha da forma que sonhei. Negaram acompanhante. Deram a desculpa de que estávamos em pandemia e eu não poderia ter alguém, o que é mentira. Existe uma lei e ela deve ser cumprida, portanto, a infringiram. Quando percebi que meu acompanhante não vinha, eu comecei a gritar mais ainda, eu exigi que chamassem ele, enquanto me deixavam na sala de pré-parto.

Lembro deles tirando minha roupa, não permitiam que eu me movimentasse, eu tinha de ficar deitada na maca e era insuportável não poder se mexer. Enquanto tudo isso acontecia, eu dizia: 'Cadê meu marido? Eu quero ele agora! É lei! Vocês estão infringindo a lei', mas todos na sala ignoravam.

Depois de despida, a enfermeira veio fazer o toque. Por conta de já ter sido estuprada, tudo o que gira entorno à penetração é um tabu enorme para mim. A enfermeira exigiu fazer o exame de toque no meio das contrações e não consenti. Eu estava desmaiando, a dor era insuportável, mas ela fez mesmo assim.

Assim que a enfermeira terminou o exame, o médico chegou. Ele não olhou para mim, não perguntou meu nome, nada. Ele entrou e simplesmente enfiou dois dedos na minha vagina. Ali eu me senti estuprada! Acho que se eu dissesse 'ele enfiou dois dedos na minha vagina sem consentimento' e não contasse o contexto, as pessoas ficariam horrorizadas, mas como foi durante o parto, ninguém se chocou. 'É assim mesmo', 'acontece com todo mundo', foi tudo o que ouvi.

O médico mentiu e disse que eu estava com sete centímetros de dilatação e meu bebê estava em sofrimento e que se eu não colaborasse eu iria matar minha filha. Disse que eu já tinha sido irresponsável o bastante por tentar ter meu bebê em casa. Eu perguntei: 'Como você sabe que meu bebê está em sofrimento? Você examinou? Você me perguntou o que aconteceu? Se tem alguém irresponsável aqui, esse alguém é você!'. Nesse momento ele foi calmamente até a porta e a trancou. Ficou eu, nua, o médico e quatro enfermeiras.

No mesmo instante, eu senti meu trabalho de parto parar. Tinha contração, mas era quase que por reflexo pelos picos de hormônios, eu sabia que nada estava evoluindo. 'Se eu chamar seu acompanhante, você para de gritar?', perguntou a enfermeira. Eu menti e disse que sim. Só quando meu marido chegou é que destrancaram a porta.

O médico disse que não iria dar analgesia: ou eu terminava de ter meu bebê, ou eu iria para a cesárea. Com medo de que eu e a bebê sofrêssemos com alguma manobra errada ou tivesse sequelas por toda a vida por conta de uma episiotomia [um corte cirúrgico no períneo, a região entre o ânus e a vagina, que configura violência obstétrica], meu marido consentiu com a cesárea, mas impediram mais uma vez que ele me acompanhasse. Após dizer que iria chamar a polícia e a enfermeira-chefe me desafiar e falar baixinho: 'Chama, então, pode chamar', Gabriel conseguiu entrar na sala de cesárea.

Na hora de começar a cirurgia, amarraram meus braços e eu implorei para a enfermeira desamarrar, mas ela disse que era protocolo. Eu só me toquei do quanto aquilo era violento quando minha filha saiu de mim, fui tentar estender os braços para pegá-la e eu não conseguia porque estava presa. A sensação era de que eu estava sendo punida, que eu não era confiável o suficiente para estar livre para receber minha filha. Foi, de longe, a pior coisa que passei no meu parto, pior até mesmo do que os toques não consentidos.

Cometeram violência neonatal, fizeram procedimentos que não são mais recomendados, impediram a hora dourada [primeira hora de vida do bebê, valiosa para a saúde e bem estar da mãe e do recém-nascido], impediram que eu pegasse ela e ficasse em contato pele a pele, deram banho e, enquanto isso, eu estava sendo costurada. Minha única companhia era o anestesista. Ele era o único que conversava comigo, que me explicava tudo o que estava acontecendo, como seriam os processos e isso foi me tranquilizando, até que eu ouvi minha filha chorar por uma hora em um berço, sem poder pegar ela no meu colo.

Quando eu finalmente fui para o quarto, uma enfermeira entrou e disse que eu só poderia amamentar e pegar minha filha depois de 12h de cirurgia. Até hoje não sei de onde ela tirou essa informação, assim que cheguei no quarto e ela saiu, meu companheiro me trouxe Maria Flor. Quando finalmente peguei ela e vi seu rosto pela primeira vez, desabei. Eu a fiz e fui a última a vê-la, a tocá-la.

Até hoje não sei se minha cesárea foi eletiva ou não. Até hoje não sei o que poderia ter acontecido e o que, de fato, aconteceu no parto de Maria. A única coisa que ficou desse dia é mágoa, tristeza, rancor e sequelas dessa cirurgia que não sei dizer se é maldita ou bendita. Só sei que, independente da via de parto, eu só queria ter tido a oportunidade de ser respeitada, queria que minha filha conhecesse o mundo como um lugar bom e não com essa violência toda. 

Sei que minha história não é a pior, sei que minha história não é trágica do ponto de vista de perder um filho para a violência obstétrica e neonatal, mas aqui a gente trabalha com a sorte e com 'e se'. E se eu tivesse ouvido a equipe do parto domiciliar e ficado em casa? E se eu tivesse insistido em parir no hospital? A gente conta com a sorte sempre. Deu 'tudo certo' no final, mas e se não tivesse dado? E, nesse caso, o que é dar certo? É todo mundo estar vivo? Esse não deveria ser o mínimo esperado por uma equipe de saúde?"

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