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Com instruções de como cometer suicídio, vídeo da personagem está circulando no WhatsApp; psicóloga orienta o que fazer diante do caso

Nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas por relatos de pais assustados com a Boneca Momo . Vídeos da personagem com mensagens suicidas estão sendo compartilhado em grupos de WhatsApp, redes sociais e circula a informação de que também tenha aparecido em vídeos do YouTube Kids, plataforma com conteúdo exclusivamente infantil. 

Acredita-se que a Boneca Momo apareça rapidamente em momentos aleatórios de vídeos como
Reprodução/Twitter
Acredita-se que a Boneca Momo apareça rapidamente em momentos aleatórios de vídeos como "slime" e "baby shark"

Segundo os pais, a Boneca Momo aparece no meio de vídeos como os tutoriais de slime ou a famosa música “Baby Shark”. A personagem dá instruções de como cometer suicídio com imagens demonstrando o ato. Além disso, a boneca faz ameaças, prometendo voltar à noite para pegar a criança caso não cumpra as ordens.

Conhecido como “ Desafio Momo”, o caso é parecido com o “ Desafio da Baleia Azul ”, que surgiu em 2017, onde mensagens incentivavam crianças e adolescentes a realizar uma série de tarefas que tinha como desafio final o suicídio.

Diante do caso, o YouTube divulgou um esclarecimento:

"Muitos de vocês compartilharam suas preocupações conosco nos últimos dias sobre o Desafio Momo - prestamos muita atenção nisso. Depois de muita análise, não vimos nenhuma evidência recente de vídeos promovendo o Desafio Momo no YouTube.

Vídeos incentivando desafios prejudiciais e perigosos são claramente contra nossas políticas, incluindo o desafio Momo. Apesar dos relatos da imprensa sobre esse desafio, não tivemos links recentes sinalizados ou compartilhados conosco do YouTube que violem nossas Diretrizes da comunidade.

É importante notar que permitimos que os criadores discutam, denunciem ou instruam as pessoas sobre o desafio / personagem Momo no YouTube. Vimos capturas de tela de vídeos e / ou miniaturas com eles [...] Essa imagem não é permitida na aplicação YouTube Kids e disponibilizamos garantias para a excluir do conteúdo no YouTube Kids."

Apesar de o YouTube garantir a segurança da plataforma, muitos pais estão assustados com o caso e relatam que os filhos tiveram, sim, contato com a personagem. Afinal, os vídeos estão chegando às crianças independente da plataforma, seja por WhatsApp ou redes sociais.

Jaqueline Kierdeika, mãe de Laura, oito anos, e Marcos, três, ficou sabendo da Boneca Momo no Twitter e foi conversar com as crianças para prevenir.

Ao Delas , a mãe fala que os filhos ainda não viram a personagem no YouTube, mas Laura já conhecia e ficou sabendo do fato por uma colega de escola. “Ela comentou que ‘a Momo tem coxa de galinha e sabe tudo sobre a gente, a nossa idade e quando a gente faz aniversário’”, diz.

Laura ainda falou para mãe que a colega conversava com a personagem pelo WhatsApp. Apesar de os filhos não terem visto a boneca nos vídeos, ela se preocupa com a possibilidade.  “Ficamos apavorados, porque é algo no meio de um vídeo comum que eles assistem”, fala.

Assustada com o caso, Jaqueline comenta que pretende ir à escola dos filhos para falar com a diretora sobre isso. “Não sei se os pais das coleguinhas sabem, mandei para todas as mães que conheço”, conta.

A história da Boneca Momo não é de hoje. Acredita-se que o desafio tenha surgido em 2018, assim como a conta no WhatsApp que ameaçava crianças e descobria informações pessoais. Na época, a narrativa se espalhou por diversos países e autoridades policiais reforçaram dicas sobre a segurança das crianças na internet.

O que os pais podem fazer diante da Boneca Momo?

Os pais devem acolher o impacto da Boneca Momo nas crianças, abordando o assunto da forma mais tranquila possível
Reprodução/Twitter
Os pais devem acolher o impacto da Boneca Momo nas crianças, abordando o assunto da forma mais tranquila possível

Embora os pais tenham se desesperado com a volta da Boneca Momo, é importante não se deixar levar pela histeria coletiva das redes sociais. O momento é ideal para construir um diálogo com os filhos e reavaliar o uso da internet.

Deborah Moss, neuropsicóloga e mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo, aconselha os pais a abordarem o assunto com os filhos da forma mais tranquila possível, acolhendo o impacto dessa personagem na criança. “É preciso um meio termo. Nem hipervalorizar, nem desvalorizar o medo”, fala.

A profissional ainda comenta que os pais devem acolher o medo que a criança está sentindo da personagem e pensar em recursos também da ordem do imaginário para se livrar desse sentimento. Os pais podem, por exemplo, criar um “pó mágico” e passar no quarto para “proteger” a criança. “Pense em algum recurso lúdico para tirar o medo”, aconselha.

Deborah Moss fala que algumas crianças ainda não conseguem entender o significado do que a Momo está dizendo. Por isso, os pais devem ensinar o discernimento entre certo e errado. Dessa forma, elas terão referências para procurar os pais quando identificarem algo de diferente.

Jaqueline conta que abordou o assunto com os filhos de forma diferente. Como Marcos tem apenas três anos, ela usou uma linguagem mais simples, apresentando o “monstro” e instruindo ele a contar se visse na tela do computador. Já no caso de Laura, ela explicou o que era, listou os perigos e reforçou que é preciso sempre falar com os pais sobre isso.

Por fim, é fundamental que os pais se mostrem interessados no universo da criança e do adolescente. Dessa forma, conseguem estabelecer um diálogo e um vínculo de confiança. "É preciso entrar nesse mundo para entendê-los e, aí sim, levar orientações para educar", diz Deborah Moss.

Leia também: 5 passos para garantir a segurança das crianças na internet

Acesso à internet

Para evitar contato com conteúdos como o da Boneca Momo, os pais devem sempre monitorar o que os filhos acessam
shutterstock
Para evitar contato com conteúdos como o da Boneca Momo, os pais devem sempre monitorar o que os filhos acessam

Também é interessante repensar a forma como as crianças usam as redes sociais, o WhatsApp e quanto tempo passam na internet. De acordo com a Academia Americana de Pediatria (AAP), o indicado é no máximo uma hora de tela dos 18 meses aos cinco anos de idade, período que deve ser fracionado ao longo do dia e com conteúdo pedagogicamente responsável.

Já a partir dos seis anos de idade, cabe aos responsáveis estabelecer esse limite. Esse tempo deve ser pensado apenas para o entretenimento e lazer. Atividades escolares no computador ficam fora dessa conta.

No caso de Jaqueline, ela costuma controlar o acesso dos filhos de acordo com a idade. Além disso, sempre checa o histórico de pesquisa e navegação, para garantir que não tenham contato com conteúdos impróprios.

 "Os pais devem controlar o uso das redes sociais estabelecendo limites de horários. Além de oferecer outras possibilidades para aproveitar o tempo livre", recomenda a neuropsicóloga.

Apesar de o YouTube ter garantido a segurança do YouTube Kids, os pais devem sempre monitorar o conteúdo que os filhos consomem na internet e com quem conversam no WhatsApp, já que o vídeo da Boneca Momo está chegando a eles por outros meios. 

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