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Com cada vez mais crianças participando dos jogos de desafios que podem causar a morte, pais fazem apelo na internet e psicóloga afirma que é preciso monitorar as redes sociais de jovens e adolescentes para evitar problemas

O post de uma mãe do Reino Unido viralizou nas redes sociais nesta semana. Na publicação do Facebook, Jamie Prescott pede para os pais tomarem cuidado e começarem a investir tempo no monitoramento das redes sociais de seus filhos, pois sua herdeira de dez anos caiu nos jogos de desafios perigosos, que estão circulando na internet, e as consequências não foram nada positivas.

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Para a psicóloga, pais que participam da vida dos filhos na internet, pelos jogos de desafios ou não, ganham confiança
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Para a psicóloga, pais que participam da vida dos filhos na internet, pelos jogos de desafios ou não, ganham confiança


A brincadeira, que está sendo feita por vários youtubers, influenciam crianças a caírem na armadilha e se machucarem feio. Para você sentir o nível, a filha de Jamie Prescott, que nem desconfiava do que estava rolando nas redes sociais, foi uma das vítimas dos jogos de desafios , sofreu queimaduras graves com um desodorante e pode ser que precise até fazer um enxerto de pele.

Os jogos de desafios também estão a todo vapor no Brasil, e entre eles existem brincadeiras que mexem com fogo e agulhas, não apenas desodorantes. Desafiadas, as crianças arriscam suas próprias vidas e ainda filmam tudo. Preocupada com o número de pais que a procuram por enfrentarem problemas na relação dos filhos com a internet, a psicóloga Adriana Severine começou a fazer palestras para crianças e adolescentes em unidades de ensino e conta que esses desafios são muito comentados pelos jovens.

“Percebi que eles levam muito em consideração tudo o que tem na internet. Os jovens idolatram os youtubers e colocam tudo que escutam nos vídeos como verdade absoluta”, explica a especialista. Para ela, fica visível que quanto maior o número de seguidores do influenciador digital, mais poder ele tem sobre a vida dos jovens. “As crianças usam isso até como argumento para continuar assistindo os vídeos”, garante.

Nos colégios, Adriana diz que faz o possível para falar com a linguagem dos jovens e conseguir entender o que está acontecendo com essa geração. Um dos problemas, segundo a psicóloga, é que os pais ficam perdidos e não estão sabendo lidar com a tecnologia, assim como os filhos também não sabem até onde ir. Além de impor limites e conversar, Adriana afirma que é importante fazer parte da rotina das crianças.

Uma estratégia que ela utiliza, por exemplo, é pedir para os pais de seus pacientes assistir a alguns vídeos sozinhos, descobrir quais são os youtubers que têm uma linguagem bacana e um conteúdo positivo e incentivar os filhos a assistir também. Sentar para ver vídeos juntos e rir das piadas é uma alternativa: o jovem precisa se identificar com os pais, descobrir que é amado e tem gostos parecidos, para criar proximidade e confiança.

Os riscos de cair em armadilhas, como as dos jogos de desafios perigosos, diminui com essa participação mais ativa dos pais, já que eles estarão por dentro de tudo o que está rolando. “O legal não é brigar com a criança, mas conversar, explicar, assistir junto alguns vídeos, fazer companhia. Eu tive uma prova muito grande que as crianças recebem muita informação na internet e não sabem o que fazer com isso”, afirma Adriana.

A especialista diz ainda que ficou chocada quando foi fazer uma palestra em um colégio e acabou desistindo de tudo o que havia programado para fazer uma roda de conversa com as crianças. Lá, ela estava disposta a tirar dúvidas e percebeu que os jovens, ao contrário do que muitos imaginam, falam sobre assuntos complexos e são bem informados por causa da internet, mas ainda não adquiriram maturidade para interpretar e tomar decisões a partir das informações consumidas.

Leia também: Exposição dos filhos nas redes sociais nem sempre é ruim, afirma especialista

“Como eu fui disposta a falar sobre assuntos que eles gostam, fui muito bem-recebida e o meu tempo rendeu bastante lá. As crianças me fizeram várias perguntas, e eu percebi que essa idolatria que elas têm pelos youtubers também existe porque essa é a principal fonte de informação delas. Algumas dúvidas que os jovens não têm coragem de tirar com os pais, por exemplo, são tiradas pelos vídeos, e nem sempre da forma mais adequada”, argumenta.

Invasão de privacidade

Mesmo sem olhar o celular, é sempre bom estar perto dos filhos para saber o que eles estão fazendo ou assistindo na web
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Mesmo sem olhar o celular, é sempre bom estar perto dos filhos para saber o que eles estão fazendo ou assistindo na web


Enquanto alguns pais pegam pesado com os filhos e ficam de olho em todas as redes sociais que eles utilizam por conta dos jogos de desafios e outros problemas, alguns pais confundem o monitoramento com invasão de privacidade. Adriana acredita que se o seu filho ainda é menor de idade, ficar atento nunca é demais. O importante, porém, é saber como abordar e ditar as regras.

“Alguns pais são radicais e tiram o celular dos filhos de uma vez e isso não é uma boa alternativa. Assim, eles acham que cortarão o problema pela raiz, mas a criança continuará usando o celular do amigo escondido. Com a tecnologia em alta, não dá para afastar os jovens das mídias. O ideal é liberar, mas controlar os horários e participar ativamente. No fim de semana e no período da noite, quando os pais estão em casa, é uma boa”, aconselha a especialista.

Segundo ela, é melhor ter um pouquinho de trabalho e dor de cabeça aconselhando e participando do que deixar o tempo passar e não ter mais o que fazer. “Tem uma paciente minha que pegou uma infecção grave no braço depois que topou o desafio de fazer uma tatuagem com agulha. Ela não queria mais ir para a escola porque se achava feia, e isso a fez passar por muitos outros problemas”, conta Adriana.

Além de o fato ter mexido diretamente com a autoestima da garota, o acontecimento a fez perder segurança e confiança. Foi o primeiro contato dela com a decepção, pois a jovem confiava muito no youtuber que a incentivou a realizar os jogos de desafios . “Era alguém muito idealizado por ela, que não era real. Agora, os pais e essa garota precisam de tratamento para lidar com essas consequências”, lamenta.

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