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Muitos pensam que o veganismo na infância não é possível sob o risco de prejudicar a saúde dos pequenos, mas especialistas esclarecem esse mito

“Eu até acho o veganismo legal, mas para criança não dá, né?!” Quem nunca ouviu ou proferiu essa frase em algum momento da vida, sendo  vegano  ou não, que atire a primeira pedra. Existe a ideia de que crianças não podem seguir a dieta vegana por estarem em fase de crescimento, mas especialistas e mães que vivem essa realidade mostram que não é bem assim.

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Criar filhos no veganismo com saúde é possível desde que haja cuidado com consumo e suplementação de nutrientes
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Criar filhos no veganismo com saúde é possível desde que haja cuidado com consumo e suplementação de nutrientes


O nutricionista especializado em veganismo e vegetarianismo George Guimarães afirma que existe um mito, criado pela indústria alimentícia e propagado pela mídia, de que crianças precisam de uma série de nutrientes presentes na carne e em derivados animais que elas não conseguiriam de outra forma. “Mas isso não é verdade. Todos os nutrientes , com exceção da vitamina B12, que precisa ser suplementada, a criança consegue sem precisar de carne e derivados animais, tendo uma alimentação completa e balanceada.”

O pediatra e neutrologista infantil Clay Brites, do Instituto NeuroSaber, alerta, contudo, para a necessidade de um acompanhamento constante e os riscos do veganismo para os pequenos no caso de pais descuidados. “A criança deve ser monitorada a cada seis meses para observar se ela está se desenvolvendo, porque pode aumentar o risco de desenvolver anemia e déficit de nutrientes se ela não estiver bem alimentada”, afirma.

Mas ele reconhece que negligência pode acontecer de várias formas e não é uma exclusividade de pais veganos. Crianças com uma dieta tradicional também podem ter deficiências nutricionais e, inclusive, o consumo de carne as deixa mais sujeitas à obesidade infantil, de acordo com estudos de diversas universidades, como a Universidade de Adelaide, na Austrália, e a Universidade Duke, nos EUA.

“Para crianças a gente fica inseguro porque é mais fácil corrigir o exagero do que a restrição, mas é verdade que é uma insegurança que se for bem acompanhada, suplementada e cuidada de forma permitida pelo veganismo, tudo bem”, diz o pediatra.

Como cuidar da saúde de uma criança vegana

Para não correr nenhum risco, uma dieta completa é essencial. Como George disse, suplementação da vitamina B12 não pode faltar e deve começar a partir dos 6 meses, quando os pequenos deixam de depender exclusivamente do aleitamento materno e outros alimentos passam a ser introduzidos.

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Com relação à proteína, abuse de oleaginosas e comidas da família do feijão, “presentes em todas as refeições, pois a criança precisa de mais proteína do que o adulto por estar em fase de crescimento”.

Frutas e vegetais escuros em grandes quantidades também são importantes para fontes saudáveis de açúcar e ferro, respectivamente. Assim como cereais integrais, para fibras. Incluir o óleo de linhaça especificamente também é importante para garantir a obtenção de ômega 3.

"Uma criança que come tudo isso e é ativa, que brinca normalmente e vai bem na escola, conseguindo prestar atenção e participar das aulas de educação, é saudável. Porque a falta de ferro e B12 afeta o desempenho físico. Então é sempre prudente observar como ela está agindo. Diferenças no desempenho podem apontar para uma falha nutricional", explica o nutricionista.

Mas como é na prática?

Já existem muitas famílias e crianças adeptas do veganismo . Mulheres que criam os filhos dessa forma estão até criando blogs e comunidades para discutir a maternidade vegana, compartilhar experiências e até auxiliar outras mães que querem adotar esse estilo de vida.

Julia Harger, mãe da Domi, de três anos, e criadora da página de Facebook e Instagram “Vegana é a sua mãe”, é uma dessas mulheres. Julia é vegana há seis anos, mas foi vegetariana por muito tempo antes disso. Assim, quando engravidou, foi natural que ela optasse por dar continuidade ao estilo de vida vegano com a filha.

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“Eu sempre fui muito firme com essa escolha. Eu sei o que estou fazendo, tenho embasamento científico, não sou irresponsável - não só por ser vegana, mas porque alimentação é algo importante. Mas nada melhor do que a prova real: a Domi está com os exames de sangue em dia, sempre ótimos. É uma menina super saudável, com um desenvolvimento incrível. Só que as pessoas pegam no pé dos veganos. A mídia adora histórias de pais veganos negligentes, sendo que qualquer pai ou mãe pode ser negligente com a alimentação do filho”, defende ela.

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Sobre a dieta de Domi, Julia afirma que a pequena come de tudo e tem uma dieta muito variada: alimentos coloridos, grãos, fibras, feijão e ela faz sempre questão de colocar um fiozinho de óleo de linhaça nos pratos. “A alimentação vegana já é muito nutritiva em si mesma. O fato de ela não comer fast food, nem embutidos já é muito bom. O único suplemento que dou para ela, desde os seis meses, é vitamina B12 todos os dias - que eu tomo também”, ressalta.

E Domi absorveu o veganismo de forma natural, segundo a mãe. “Eu nunca precisei forçar nada, porque eu vivo isso, então ela absorveu. Não me lembro como ensinei, mas ela sabe. Quando entramos em um supermercado e ela vê os animais mortos e as pessoas comprando, ela acha triste. Quando alguém oferece comida pra ela, ela já pergunta se é vegano. Se não for, ela não vai querer comer.”

A questão de outras pessoas oferecerem comida - nem sempre vegana - para Domi, entretanto, já foi um problema.

Quando oferecem comida a um bebê, é instintivo muitas vezes que ele abra a boca e coma. O mesmo acontecia com Domi, quando Julia não estava por perto ou não via o que estavam oferecendo à pequena. Inevitavelmente, acidentes aconteceram.

É por isso que hoje ela ressalta a importância de as pessoas pedirem autorização para os pais antes de alimentar uma criança, algo que não serve só para veganos, mas também para alérgicos.

“As pessoas acham que estão agradando dando um doce, um chocolate, e realmente querem fazer uma coisinha legal para a criança, mas é preciso cuidado porque, quando a criança não está acostumada com algum alimento, ainda que ela não tenha alergias, ela pode passar mal - seja vegana ou não”, reforça.

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Lidar com as tentações do dia a dia também faz parte. “Mas isso é educar, né?”, diz Julia. “Não é porque a criança quer um salgadinho ou um chocolate que a gente permite. Uma criança alérgica a leite animal pode querer o chocolate que o amiguinho ofereceu, mas ela não pode comer. Se uma criança me pedir um gole de vinho, eu não vou dar, e isso não tem nada a ver com ser vegano - apesar de que com o veganismo é igual. Mas agora que a Domi está maior, eu não preciso proibir, porque ela mesma não quer nada que tenha origem animal.”

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