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"Não dá para não discutir política agora com as crianças", alerta pedagoga ao Delas; entenda como

Há alguns meses, diariamente, jornais, programas de televisão e rodas de conversa vêm sendo invadidos por notícias sobre corrupção . Além disso, manifestações nas ruas  das principais cidades do país, faixas nas janelas das casas, dos apartamentos e panelaços na hora do jantar também passaram a fazer parte da vida dos brasileiros. 

Política,  corrupção e manifestações são assuntos de criança?
Peter Leone/Futura Press - 13.03.2016
Política, corrupção e manifestações são assuntos de criança?


As vivências desse cotidiano não atingem apenas adultos; é preciso notar que as crianças não estão alheias aos acontecimentos. "Não dá para não discutir política com as crianças agora, não dá para ignorar o potencial instrutivo deste momento", analisa a pedagoga Silvia Suardi Camargo.

Silvia Suardi com a família durante manifestações em São Paulo: filho de 10 anos também participa
Arquivo pessoal
Silvia Suardi com a família durante manifestações em São Paulo: filho de 10 anos também participa

Há 33 anos, Silvia pesquisa sobre educação, dá aulas para crianças e participa de muitas situações de rodas de discussão com alunos maiores. Segundo ela, tanto escândalo sobre roubo deixa muito adulto perplexo e isso é sentido por quem está a sua volta.

"Na segunda-feira (14), logo após o domingo de manifestações, na escola onde dou aula, as crianças estavam agitadas e agressivas. Uma delas, inclusive, chacoalhava um bonequinho inflável da Dilma (Rousseff, presidente do Brasil), batendo contra a mesa, gritando palavras como 'tem que prender', 'ladrão'. Os pais e os professores devem explicar o que está acontecendo para essa criança entender que podemos e devemos protestar pelos nossos direitos e por um país melhor, mas é preciso ter respeito com a pessoa que está na liderança do país, com as instituições e com as opiniões de todos. Expressar a opinião é importante e existem meios adequados, sem agressividade", alerta a pedagoga.

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E, de onde vem tanta indignação?. "Toda vez que existe um descontentamento ou uma revolta com uma pessoa ou situação, é porque há alí um conflito de valores. Valores governam nossas decisões. Valor é tudo aquilo pelo qual você mataria ou morreria. É algo não negociável", explica o life coach Fabricio Sagi. 

A partir de que idade temas sobre política podem ser abordados com as crianças?

De acordo com a professora, existe um momento em que a criança se abre para o conhecimento e assimila melhor o que acontece ao redor. "A partir dos 7 anos, as crianças já entendem o que é o bem comum. De uns tempos para cá, elas estão mais informadas, têm mais acesso a tudo e, essa geração, não vai esquecer o que está acontecendo porque está vivendo o dia a dia da política intensamente".

Como falar com as crianças sobre corrupção?

"Os pais podem explicar sobre ética, sobre o respeito com o que é do outro. É um ensinamento de valores. Dizer: 'olha, não roubamos, não pegamos o que não é nosso. Tem que pedir emprestado e devolver o que não é seu'. Também podemos mostrar que não devemos nos acomodar com o que está aí e com as coisas como elas são; a mobilização pacífica pelos nossos direitos é algo a ser ensinado também", diz Silvia.

A empresária Roberta da Rocha, mãe de Luiza, de 11 anos, vive sendo questionada sobre os noticiários políticos pela filha. "Quando ela pergunta, sinto que a informação chega muito pronta para ela: o que passa na TV, o nome da pessoa, o partido. O que tento passar é sobre o princípio da corrupção, por que as pessoas que estão sendo acusadas estão erradas? Digo que errado é se apropriar de algo que não é seu, aproveitar um direito que não é seu, como, por exemplo, estacionar em uma vaga de deficiente, ou não pagar por algo que você consumiu", conta Roberta.

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Silvia Suardi com filhos e alunos na manifestação da avenida Paulista, em São Paulo
Arquivo pessoal
Silvia Suardi com filhos e alunos na manifestação da avenida Paulista, em São Paulo

Crianças devem participar de manifestações e atos políticos?

A dúvida de muitos pais é se manifestação de rua é lugar de criança. "Percebo que minha filha sente o que a gente acompanha pela televisão, que está todo mundo querendo mudança e protestando. Porém, perguntei se ela queria ir à manifestação comigo e ela não quis. Não sei se ela é muito nova, mas a levaria se ela quisesse, acho saudável", opina Roberta.

Para a pedagoga, a iniciativa de participar deve partir da criança e não existe idade adequada para acompanhar os pais em protestos pacíficos. "Tenho um filho de 10 anos, ele se mostrou interessado em participar das manifestações e o levei. Acho saudável porque o movimento é pacífico e demonstra que as pessoas estão protestando pelo país, contra o que está errado e, acima de tudo, sem violência", explica Silvia.

Marcar um ponto de encontro com outros pais e crianças pode ser uma boa ideia para deixar os pequenos à vontade. "Tiramos fotos, conversamos e mostramos que nos preocupamos com o país. Se a criança não demonstra interesse, não tem problema. Mas se ela pergunta, questiona e parece querer participar, por que não deixar?", completa a pedagoga.

Helena, aos 2 anos, com amiguinha nas manifestações
Arquivo pessoal
Helena, aos 2 anos, com amiguinha nas manifestações

Crianças na rua

Conversar sobre esses temas com João Lucas, de 12 anos, não é novidade para a jornalista Cinthia Braga, mas, segundo a mãe, os acontecimentos criam o momento ideal para ensinar cidadania ao menino. A irmã dele, Helena, de apenas 2 anos, também vai às ruas com os pais.

"Nunca foi tão pertinente falar sobre ética com as crianças. Em casa, falo sobre tudo com ele e, inclusive, sobre a força que as pessoas têm para mudar as circunstâncias a partir do momento que elas têm conhecimento sobre um assunto. As ruas estão ensinando muito para as crianças, principalmente se os pais souberem abordar o assunto da indignação, do poder que as pessoas têm quando sabem que estão sendo enganadas e reconhecem os seus direitos e seus deveres", analisa a mãe.

Mãos à obra

Fabricio Sagi ainda indica como os pais devem agir e se tornar exemplo para as crianças: "Culturalmente não temos alta pontuação no que se refere a posicionamento e ação. Sempre acreditamos que as coisas vão melhorar, é a 'política do Zeca Pagodinho', do 'deixa a vida me levar, vida leva eu...' Por isso, é preciso seguir três passos para agir e se tornar exemplo. O primeiro passo é o entendimento do que realmente se está sentindo. Na sequência, é indicado elencar possibilidades do que poderia ser feito para gerar mudança. Depois, é importante propor a troca de pontos de vista e a união a grupos de pessoas com a mesma ideologia. Após esses três passos, mãos à obra”.

Helena, aos 2 anos, nas manifestações
Arquivo pessoal
Helena, aos 2 anos, nas manifestações


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