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Kiki, de 42 anos, tem cinco empregos e cuida sozinha de Renato, de 7, que tem paralisia cerebral e sofre com remédios; há uma semana, ela foi cercada e julgada publicamente após tentar conter ataque do filho

A vida da mãe de uma criança com paralisia cerebral com certeza não é fácil - e não é só pela deficiência. É também pelos efeitos colaterais fortes de remédios e, entre outras coisas, pelo julgamento de algumas pessoas que não imaginam o que aquela mãe passa.

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Esse é o caso de Kiki Marinho, mãe de Renato, de 7 anos, que sofre da paralisia. Na sexta-feira (19), ela usou seu perfil em uma rede social para relatar uma situação que viveu em um shopping de Recife, onde ela vive com o garoto. 

Kiki e o filho, Renato
Arquivo pessoal
Kiki e o filho, Renato


Efeitos colaterais

Durante o passeio, a criança pediu para brincar em uma piscina de bolinhas; o problema começou quando teve que tirar o filho do brinquedo. "Na hora de ir embora, ele não quis sair. Pedi várias vezes e ele começou a ficar histérico", relatou a mãe. Em entrevista ao Delas , Kiki explica a reação de seu filho. "Ele toma uma medicação, um psicoestimulante para ajudar no aprendizado, a ritalina. A Ritalina tem um tempo de ação no organismo de 4 horas e, depois disso, ele volta a ser o que ele é, e ainda pode apresentar os efeitos colaterais". Ainda segundo a mãe, esses efeitos são agressividade, insônia, transpiração e até alucinações.

Sozinha

Kiki, além de ter o desafio de cuidar sozinha de uma criança com paralisia cerebral, ainda é obrigada a ser julgada por outras pessoas. "Ele berrava, esperneando no chão, enquanto as pessoas me olhavam com ar de reprovação, que não me incomodam, já que estou acostumada a esses olhares". Mas o pior ainda estava por vir. A mãe se trancou no banheiro com o filho, que não parava de berrar. "Quando saí do banheiro havia uma pequena multidão. Nos cercaram, a mim e ao meu filho. Me agrediram verbalmente, botaram dedos na minha cara, me acusando de estar espancando o menino", relatou a mãe. Para os hematomas, também existe uma explicação. "Ele é estabanado, digamos assim. Cai muito, tropeça, bate nos cantos".

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A difícil situação de Kiki não é algo que melhore com o tempo, pelo contrário. Isso porque, quando Renato era mais novo, era mais fácil controlar suas crises. Hoje, com 7 anos, o garoto se acha dono de si e acha que não deve receber ordens. Quanto à paralisia, ela diz que "o quadro não evolui".

O caso do shopping não é isolodo, Kiki conta que o episódio já aconteceu muitas vezes. Seu sentimento quanto a isso? "Impotência, desânimo, vergonha, raiva. Depende muito de como ele reage. Mas não é sempre. Já fomos outras vezes ao shopping e ele foi fofo", relata. Se a crise em um lugar público acontece com frequência, o envolvimento de terceiros em sua relação com o filho nunca tinha acontecido. "Hoje, uma semana depois, penso que, de um jeito errado, as pessoas queriam ajudar porque achavam que eu estava espancando o Renato".  

Renato e a avó, mãe de Kiki
Arquivo pessoal
Renato e a avó, mãe de Kiki


Relação de mãe e filho

Com crises ou sem crises de Renato, Kiki conta que a relação entre os dois é ótima. "Tento manter uma relação de confiança e respeito, porque ele ao mesmo tempo que é ousado, é medroso e se sente inseguro por conta do desiquilíbrio físico. Ele é minha vida, é uma benção, mas, por vezes, pesa muito por sermos só nós dois". 

Pai ausente

Kiki nunca foi casada com o pai da criança. Quando ela descobriu que estava grávida, os dois não mantinham um relacionamento. Mesmo em Natal, no Rio Grande do Norte, onde mora, o pai foi muito presente nos dois primeiros anos de Renato. "Depois foi diminuindo até que parou".

"Não foi por conta do casamento dele, porque eu e a mulher dele (agora ex) ficamos amigas e ela até o estimulava a ver o menino. Depois, ela teve uma filha (irmã de Renato) e, mesmo depois da separação, nos encontrávamos para as crianças se verem".

Preconceito 

O preconceito existe na vida do pequeno Renato. Segundo sua mãe, as crianças não brincam com ele e acabam se afastando, então, o garoto chora e fica agressivo. "Isso me massacra por dentro". Com o tempo, Kiki aprendeu a lidar com a situação. "Esse estágio de maturidade pra mim foi um longo caminho". 

"Não sou anjo nem demônio. Acerto e erro mil vezes por dia, mas faço tudo com amor e dando o melhor pelo meu menino. Disso eu tenho certeza, talvez seja minha única certeza. Sempre que me perguntam como consigo levar isso tudo, respondo assim:
'nem sempre é fácil, nem sempre é brisa. Mas sempre é amor'", finaliza.

Não gosto de textão, mas aconteceu comigo e gostaria de compartilhar.Sexta-feira (19) saí para um passeio no shopping...

Publicado por Kiki Marinho em  Sábado, 20 de fevereiro de 2016