Conheça a trajetória percorrida por mulheres no rock; na foto, Siste Rosetta Tharpe, Janis Joplin, Rita Lee, Stevie Nicks e Kathleen Hanna (Bikini Kill e Le Tigre)
Montagem
Conheça a trajetória percorrida por mulheres no rock; na foto, Siste Rosetta Tharpe, Janis Joplin, Rita Lee, Stevie Nicks e Kathleen Hanna (Bikini Kill e Le Tigre)




Em 1956, Elvis Presley recebia (e recusava) o título de Rei do Rock por seu grande sucesso com o gênero. No entanto, o “nascimento” do gênero e movimento de contracultura aconteceu antes do cantor e teve grandes contribuições feitas por mulheres. Além disso, o rock se tornou uma ferramenta importante de expressão musical e cultural para elas ao longo dos anos.

De acordo com a pesquisadora e produtora cultural, Giovana Suzin, as mulheres contribuíram com construção e estética musical; no entanto, a importância é ainda maior no quesito de representatividade. “Era importante para que mulheres se vissem e soubessem que poderiam estar lá”, diz.

A presença das mulheres no rock conseguiu ampliar as narrativas contadas nas canções, dando lugar às vozes e questões das mulheres, angústias de suas próprias existências e questões humanitárias. “Por mais que várias mulheres não falem exatamente sobre feminismo, machismo ou misoginia, elas falam de um ponto de vista que só chegou para o rock pelas vozes e composições dessas mulheres”, explica.


Para a radialista e locutora da 89 FM, Luka Salomão, o rock não é um gênero musical, mas vai além disso: é uma forma de contracultura que pode ser feita tanto por homens como por mulheres. “Eu não faço essa divisão, eu vejo homens e mulheres que são extremamente e igualmente importantes. São pessoas fazendo música e arte por uma cena fora da curva. Vejo muitas pessoas importantes fazendo uma contra cultura que transforma vidas”, diz a radialista.

O rock é derivado das comunidades negras dos Estados Unidos, principalmente por parte de cantores de blues, country, gospel e soul. Bill Halley, Jimi Hendrix e Chuck Berry foram alguns dos grandes artistas que estouraram com canções como “Rock Around The Clock”, “Tutti Frutti” e “Johnny B. Goode”, respectivamente.

Mas antes da existência desses artistas, ao menos outras três mulheres negras já faziam rock e sem saber, trabalhavam para dar às origens ao à estética musical que marcaria o ritmo. “Elas foram extremamente importantes porque foram mulheres fora da curva e quebraram barreiras. Elas fazem parte da história mundial e cultural”, diz Luka.

Tharpe, Minnie e Cotten

O termo
Acervo
O termo "rock and roll" surgiu em 1942 para descrever uma performance de Sister Rosetta Tharpe


A revista Billboard dos Estados Unidos foi a primeira publicação a utilizar o termo “rock and roll” no contexto conhecido hoje, em 1942. O termo foi usado para descrever a apresentação de uma cantora e instrumentista do Arkansas. Seu nome era Sister Rosetta Tharpe.

A cantora e musicista foi a primeira pessoa a utilizar guitarras elétricas em suas canções. O instrumento musical, que ao longo da história já foi considerado como subversivo e rebelde, era utilizado em músicas gospel. “Era uma mistura do que era o blues, só que um pouco mais acelerado, com gospel e country. Essa mistura toda foi justamente o que a Sister Rosetta fez e que, depois, outros homens fizeram e foram mais reconhecidos”, explica Suzin.

Rosetta se apresentava desde os 4 anos em igrejas ao lado da mãe, Katie Bell Nubin, que tocava bandolim, e antes dos 20 já fazia experimentações similares aos que são feitos no rock, como dedilhados e uso de riffs. Também é de Sister Rosetta a chamada primeira música de rock, chamada "Strange Things Happening Every Day", de 1944.


Por essa mistura, Tharpe ficou conhecida como A Madrinha do Rock -- ou mesmo Mãe do Rock. “Sister Rosetta é considerada por muitos como a precursora do rock e concordo com isso. Grandes nomes a citam como referência, como Eric Clapton, Jeff Beck e Keith Richard, que são nomes de extrema importância para o rock”, explica Luka. Aretha Franklin, Johnny Cash e até o próprio Elvis já revelaram que a musicista influenciou suas carreiras e sonoridades.

Se ter uma mulher negra nos holofotes naquela época nos Estados Unidos já é um grande feito, a sensação é maior ainda ao pensar em suas antecessoras. A maneira de tocar de Tharpe foi inspirada na forma como Memphis Minnie, uma cantora e compositora de blues do Mississipi, tocava.

Luka conta que a história de vida de Cotten é sofrida, relembrando a trajetória pessoal da cantora de jazz Billie Holiday. “As duas saíram de casa super novinhas, entre dez e onze anos de idade e se prostituíam”, diz Luka. Aos 7, Minnie ganhou o primeiro violão. Aprendeu banjo aos 10. Um ano depois, era vista tocando em festas. Aos 13, fugiu de casa para morar em Beale Street, rua considerada “a casa do blues”.

Minnie morreu em condições financeiras ruins, como Holiday, mas viveu até os 76 anos. Dois anos antes de seu falecimento, em 1973, ela recebeu reconhecimento ao ter sua composição mais famosa, “When the Levee Breaks”, regravada pela banda de hard rock britânica Led Zeppelin. A letra da música não foi alterada. A faixa está presente no álbum “Led Zeppelin IV”.


A genialidade ao tocar os instrumentos de cordas também foi atribuída a Elizabeth Cotten. “Ela era praticamente o Jimmy Hendrix de sua época”, diz Luka. Cotten era canhota e tocava violão até de cabeça para baixo. No entanto, ela não conseguiu viver apenas do talento como musicista. Cotten foi faxineira até os anos 1970, quando finalmente ganhou reconhecimento e tocou ao lado de nomes como John Lee Hooker e Muddy Waters.

Tardiamente, as três se tornaram mais conhecidas do grande público, mas não puderam ver isso em vida. Apenas no ano de 2018 Sister Rosetta Tharpe ganhou um espaço no Hall da Fama. Apesar do sucesso e da importância da obra e da vida dessas artistas, Luka diz que ainda não sabemos quem elas são.

“Ninguém sabe nada sobre elas. A gente não conhece nenhuma música delas, não sabe da história, estamos patinando demais. Elas deveriam ser muito mais faladas”, diz.

Racismo estrutural e machismo apagaram mulheres

O motivo pelo qual basicamente não se sabe nada sobre Tharpe, Cotten ou Minnie é devido à organização da indústria fonográfica e da sociedade naquele momento. “O motivo pelo qual muitas pessoas pensam que Elvis é o pai do rock até hoje é por uma questão racial e de gênero. A indústria fonográfica como um todo está totalmente ligada aos homens brancos”, afirma Suzin.

De acordo com a pesquisadora, o impacto para a pouca visibilidade de mulheres, principalmente negras, no início do rock veio da falta de engajamento das mulheres não apenas na cadeira criativa, mas na indústria como um todo. “Nenhuma mulher era dona de selos e empresas que estavam lançando fonogramas e discos. Isso refletia também no que as mulheres tocavam”, afirma.

As raízes do rock, seja como expressão musical como cultural, sempre esteve ligada a um gênero de rebeldia. Suzin explica que essas posturas eram vistas como inadequadas para as mulheres e muito mais ligadas aos instintos masculinos, no ponto de vista do senso comum. “As mulheres foram invisibilizadas justamente por esse olhar. Os donos dos selos acabavam dando preferência para homens porque achavam que eles iam vender mais ou porque aquela postura estava mais relacionada com a questão masculina”, diz.

Por outro lado, se esperava das mulheres um tipo de postura completamente contrária ao que era sugerido pelo rock. Suzin explica que, até hoje, a indústria musical está ligada à estética. Naquele caso, a estética a se manter era a masculinidade conquistadora e rebelde. Por outro lado, mulheres que queriam fazer sucesso precisavam parecer de uma determinada forma e agir de maneira “recatada”. “Naquela época, elas tinham que exercer papéis como a maternidade ou serem donas de casa. Isso tudo contribuiu para que elas fossem desconhecidas até pouco tempo atrás”.

Rainhas do Iê, Iê, Iê


Nos anos 1960, os Beatles e os Rolling Stones chegaram a um patamar mundial similar ao que Elvis tinha alcançado na década passada. Os garotos de Liverpool conseguiram emplacar diversas músicas nas paradas, reinventaram o rock e são lembrados até hoje como uma das bandas mais importantes de todos os tempos.

Ao olhar para trás, nomear girlbands com um impacto similar é mais difícil. Mesmo que em uma proporção pouco parecida com a dos Beatles, Luka afirma que as girlbands existiram e foram importantes naquele período para representar a visão das mulheres.

Naquele período, era comum ver mulheres negras neste tipo de formação, casos como Martha and the Vandellas, The Supremes e The Shirelles. O trio estadunidense The Ronettes é outro exemplo de sucesso dos grupos de mulheres. Aliás, a canção “Be My Baby” é lembrada como a primeira das 100 mais populares gravadas por um grupo de mulheres de todos os tempos.


“A verdade é que existiam muitas bandas. Algumas realmente não fizeram tanto sucesso porque eram bandas medianas. Outras foram um negócio avassalador, fizeram shows impressionantes e tocaram com grandes bandas”, diz.

Foi ao longo deste período de transformação na indústria fonográfica europeia e norte-americana que o rock veio para o Brasil. Em 1955, Iracema de Sousa Ferreira, mais conhecida como Nora Ney, lançou “Ronda das Horas”, sua versão para a música “Rock Around the Clock”, de Bill Haley. “Isso tem uma importância grande. Foi aí que começou a tocar para caramba na era do rádio e impressionou todo mundo”, explica Luka.

Quatro anos depois, foi a vez de Celly Campello lançar “Estúpido Cupido”, que no Brasil ultrapassou a versão original de Connie Francis e se tornou uma das grandes canções do imaginário brasileiro. Com essa canção, além de sucessos como “Banho de Lua” e “Broto Legal”, Celly ficou conhecida como a grande precursora do rock no Brasil.


“Celly é bem lembrada por artistas que vieram depois influenciados pela jovem guarda e pelo tropicalismo, tanto que ela é citada pelo Caetano”, diz Suzin. Além da importância para o gênero, Celly foi importante também em termos de representatividade e de incentivo a outras mulheres a se lançarem no ramo musical. Essa representação é mais nítida na própria jovem guarda, que introduziu nomes como Vanusa, Waldirene, Wanderléa e Sylvinha Araújo.

Apesar de reconhecer as transformações que Celly causou na cena musical brasileira, Luka diz que a grande precursora do rock no país é Rita Lee. “Ela cravou de vez a importância do gênero e do lifestyle da cena. Isso é nítido na música ‘Esse tal de Roque Enrow’ em que fala de uma versão feminina do rock”, afirma a radialista.


Antes de ser parte de Os Mutantes, trio tropicalista de rock psicodélico que integrou com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias nos anos 1960, Rita integrou outros dois grupos porque sabia que queria ter uma banda. Na época, o país enfrentava o período de ditadura militar. Por isso, a cantora lidou em diversos momentos com a censura imposta pelo regime.

“Na autobiografia, ela fala muito sobre como era burlar a ditadura. Ela conta que tinha uma censora que ela sabia até o nome, e ela sabia mais ou menos o que aquela mulher ia censurar. Ela fala que era uma forma de exercitar a criatividade”, conta Suzin.

Para além da inventividade das letras e de seu posicionamento cheio de atitude, Suzin explica que Rita Lee ainda é uma das poucas cantoras dentro do rock brasileiro a escrever sobre sexualidade feminina. “Rita fez isso em uma época que ninguém estava falando sobre isso. Era muito mais tabu do que é hoje, e ela já estava lá falando sobre isso. Ela sempre teve a língua muito afiada, o que transparecia também nas composições”, afirma.

Existem muitas rainhas do rock


Ainda nos anos 1960, uma garota de cabelos esvoaçantes, muita atitude e voz rouca chamava atenção e ganhava espaço no rock. Ao transpor trações do blues, como poesia e voz visceral, às guitarras elétricas e letras dilacerantes sobre coração partido, Janis Joplin impressionou e se tornou importante para o rock. Por isso, foi a primeira mulher a ser considerada a Rainha do Rock and Roll.

Joplin viveu uma carreira curta, consequência de sua morte aos 27 anos em 1970. Mesmo assim, ela fez parte de uma época de transformação cultural de extrema importância e foi uma das convidadas para tocar no festival Woodstock, ao lado de Hendrix, Santana e The Who.

O legado que deixou para a música passou a ser questionado com o passar dos anos, já que Janis se inspirou em artistas negras do blues e do jazz para criar seu estilo, como Bessie Smith, Etta James e a própria Billie Holiday. No entanto, Suzin explica que, no caso dela, não se trata de uma apropriação, já que Janis nunca negou suas inspirações. “Ela sempre citava suas referências e dava crédito às artistas que a inspiraram”, afirma.

Na década seguinte, foi a vez de Tina Turner ganhar o título de Rainha do Rock and Roll. Voz de hits como “The Best” e “Private Dancer”, Tina é uma ídola importante para o gênero, além de ser considerada como uma das maiores cantoras vivas. Além da glória, ela passou por problemas na vida pessoal, principalmente nas mãos do ex-marido, Ike Turner, com quem ela teve um duo nos anos 1966.

“Tina Turner apanhava do marido. Ela tinha o nome dele e entrou em uma briga judicial para mantê-lo após a separação, porque era como uma identidade para ela. Ela não queria nada, não queria dinheiro, só queria o nome”, explica Luka. Todas as questões sobre o casamento com Ike foram narrados em uma autobiografia chamada “Eu, Tina: A História da Minha Vida”, publicada em 1986.

Você viu?

Depois de ter conseguido o divórcio, Tina refez sua carreira no final dos anos 1970 e se alçou para o mundo com a imagem que conquistou nos dias de hoje. “Ela conseguiu ter o nome, o sucesso e a fama dela depois daquilo. Apavorou com a carreira solo. É uma mulher incrível”, diz a radialista.

Na mesma década, outra Rainha do Rock and Roll foi Joan Jett. A artista rebelde teve reconhecimento primeiro com o The Runaways, grupo formado apenas por mulheres. Além dos hits em conjunto, ela manteve uma sólida carreira solo e consagrou canções como “I Love Rock and Roll” e “I Hate Myself For Loving You” como algumas das faixas mais importantes do rock, considerada a 67ª melhor guitarrista de todos os tempos pela Rolling Stone.


As contribuições de Jett na música vão além da música: sua postura destemida e desafiadora diante da sociedade também fez diferença. Jett sempre foi engajada em incentivar mulheres a fazerem música -- tanto que, para promovê-las, ela criou a Blackheart Records, seu próprio selo, ao lado de Kenny Laguna.


Punk rock e new wave explodem


Nos anos 1970, o punk rock começou a surgir na Inglaterra como uma linguagem de contestação mais incisiva, tornando-se um subgênero do rock bastante cultuado. Suzin explica que o estilo facilitou que mulheres se sentissem mais confortáveis para expressarem “suas rebeldias", assim como os homens.

“Várias mulheres surgiram nesse ramo pelas contestações e pela estética faça você mesma [ou do it yourself]. Era uma forma de dar voz para angústias e conflitos que estavam acontecendo e colocar experiências para fora”, diz Suzin. O gênero, aliás, foi onde o próprio The Runaways surgiu para falar sobre rebeldia e empoderamento feminino.

Dentro do gênero, a cantora, poetisa e fotógrafa Patti Smith também inovou. “O som dela é considerado punk rock, mas não é exatamente isso. Patti está ali juntando poesia com música, e os temas sobre os quais ela vai falar são os que poucas pessoas estão falando. Por exemplo, ela incentiva as pessoas a cuidar do mundo com mais carinho e a se unirem para fazer a diferença”, explica.

A pesquisadora afirma que muito da postura empunhada pelas artistas do Riot Grrrl, movimento musical feminista dos anos 1990, já estava em Patti Smith naquela época. Patti renegou uma vida normativa e se devotou à arte desde muito cedo: largou o interior para se aventurar em Nova York e viveu no Hotel Chelsea, em Nova York, em uma época em que lá estava a verve artística underground.

No Reino Unido, berço do gênero, a cena era forte por nomes como The Clash e Sex Pistols. Neste mesmo período, a banda X-Ray Spex era liderada pela cantora Poly Styrene e buscava representar mulheres não brancas e suas experiências. “Ela era filha de um homem jamaicano, o que era um grande diferencial na cena que é majoritariamente branca”, diz.


As letras do X-Ray Spex fazem críticas ao capitalismo e, principalmente, ao consumismo desenfreado da sociedade britânica naquele momento. “O nome artístico dela, aliás, é para remeter a algo plástico, de consumo rápido”, explica a pesquisadora. Outro diferencial do X-Ray Spex é de que a banda tinha uma saxofonista em sua formação, chamada Lora Logic. A contribuição de Lora na sonoridade marca a entrada do saxofone no rock, que depois foi implementado por bandas como Tears For Fears, INXS, Dire Straits e Pink Floyd.

Na mesma época, o new wave surge com uma proposta inovadora de mesclar rock com estilos mais dançantes. O New Order é uma das bandas mais lembradas do período. Mas o destaque é muito maior para Debbie Harry, frontwoman do Blondie, que se destacou por seu pioneirismo no ritmo e pela maneira como se portava como uma estrela do rock.

Na mesma época, outras frontwomans relevantes em estilos distintos, como o pós-punk e o pop rock. São os casos de Siouxsie Sioux, do Siouxsie and the Banshees; Elizabeth Fraser, do Cocteau Twins; e Dolores O'Riordan, do The Cranberries

Faça Você Mesma

Nos anos 1980, Kim Gordon ficou conhecida por ser integrante da banda de rock alternativo Sonic Youth. Sua presença na banda tornou mais fácil que temáticas femininas fossem exploradas, o que fez com que ela ganhasse notoriedade. Por se aventurar em um novo estilo musical e fazer parte de uma estética de “garage band”, Gordon se tornou uma pioneira de sua época.

Com seu alcance, ela passou a se tornar inspiração para diversas mulheres que queriam criar novas sonoridades. Posteriormente, Gordon seguiu os passos de Jett e também criou um selo. “Ela fez um selo para incentivar outras bandas de mulheres. Talvez ela tenha sido uma das primeiras”, diz Suzin.

Na mesma época, a estética do grunge começava a se formar lentamente. A banda L7 surge no meio dos anos 80, antes mesmo do movimento, para realizar contestações sociais por meio de suas letras. “A música ‘Pretend We’re Dead’ é bem comercial e fala muito sobre como o cenário econômico excluía e marginalizava a mulher. Elas diziam que a solução era virar a mesa pela união das mulheres”, explica a radialista.


No Brasil, os anos 1980 e 1990 tiveram duas grandes bandas formadas por mulheres que usaram a música para abordar questões políticas e sociais enfrentadas não só por mulheres, mas por toda sociedade: As Mercenárias, considerada como a principal banda de punk rock brasileira formada por mulheres; e Dominatrix, formada no sul do Brasil e precursora do movimento Riot Grrrl no país.

Meninas na frente


Nos anos 1990, as questões de gênero, principalmente com a Terceira Onda do movimento feminista, começam a ganhar força dentro do rock. É então criado o movimento musical Riot Grrrl, que alinhava a sonoridade do punk rock a letras que faziam protestos contra estruturas patriarcais e, em alguns casos, capitalistas.

Suzin explica que, neste momento, grupos passaram a romper com padrões estéticos impostos tanto socialmente como pela indústria fonográfica, e passaram a celebrar e amplificar as experiências femininas. O principal grupo a fazer isso foi o Bikini Kill, liderado pela cantora e ativista Kathleen Hanna.

“A partir da Kathleen Hanna, a frase ‘Girls to the Front’ [Meninas na Frente], ganhou força e reverberou muito na cena musical. Com isso, o movimento Riot Grrrl ganhou nome e mais força e virou um movimento feminista da subcultura”, explica Luka.

O Girls to the Front tinha a ver com a postura de palco de Hanna durante as apresentações. Dentro do punk rock, é comum que grupos façam o mosh, um círculo em que as pessoas entram e chocam seus corpos uns nos outros. No entanto, esse espaço era mais ocupado por homens que acabavam machucando as mulheres. Por esse motivo, as garotas eram chamadas para a parte da frente do palco. “Nesse momento, Hanna fala ‘não, a gente quer as mulheres na frente do palco’. Esse é um espaço que as mulheres também queriam conquistar”, diz Suzin.


Além disso, o Bikini Kill também passou a questionar a pressão estética imposta sobre bandas femininas e mulheres de modo geral. “O Bikini Kill dizia que não queria se enquadrar em nada do que estavam impondo a elas. Isso refletia nas músicas que elas passaram a compor, porque elas estavam fazendo letras voltadas para as mulheres”, afirma a pesquisadora.

Na mesma época, o grunge explodiu mundo afora e introduziu nomes como Nirvana, Soundgarden, Alice in Chains e Pearl Jam. Entre essas bandas estava o Hole, liderado por Courtney Love e com outras três mulheres na formação: Melissa Auf der Maur (que também tocou com o The Smashing Pumpkins) e Kristen Pfaff no baixo e Patty Schemel na bateria.

Todo trabalho do Hole acabou sendo ofuscado pelo relacionamento de Love e Kurt Cobain. Além disso, ela é apontada até hoje como uma possível responsável pelo suicídio do cantor. No entanto, a banda foi importante por sua sonoridade que mescla o punk rock com o rock alternativo. As composições sobre questões femininas também foram marcantes, principalmente por abordarem questões complexas ou até mesmo tabus por uma sonoridade inovadora.

Mulheres roqueiras também passaram a trazer o existencialismo a partir de um ponto de vista jovial nas canções, atraindo jovens meninas para o movimento. Artistas como Fiona Apple e Alanis Morissette faziam isso sem deixar de lado a língua afiada e o senso crítico, inspirando muitos nomes da próxima geração de artistas.

Ressurgimento e novos significados

Em meio à pandemia do novo coronavírus, um vídeo de um skatista tomando suco de frutas vermelhas se tornou viral no Tik Tok. O vídeo era embalado pela canção “Dreams”, lançada em 1977 pelo Fleetwood Mac no polêmico álbum “Rumours”. O vídeo passou a ser compartilhado e replicado pela internet, o que chegou a fazer com que a faixa, cantada por Stevie Nicks, voltasse para as paradas de sucesso no mundo todo.

Nicks é um dos maiores nomes de sua época para o rock e também para o pop. No entanto, acabou se tornando mais desconhecida para as gerações mais recentes. Com “Dreams”, jovens da Geração Z passaram a conhecer e se interessar não apenas pela canção, mas pelo trabalho do Fleetwood Mac e de Stevie Nicks.


Os conteúdos virais podem ser maneiras importantes de relembrar artistas, movimentos e músicas que são de extrema importância para o contexto em que estão inseridas. Além de manter a memória daquela obra viva, é uma forma de mostrar para outras pessoas que vieram depois daquele tempo o que era feito, aumentando tanto o repertório musical como os créditos para determinados artistas.

Esse impacto pode não ser tão sentido em relação a Nicks, que certamente tem seu nome grafado para sempre na história da música. No entanto, pode fazer toda diferença quando se trata de grupos musicais que não fizeram todo sucesso que deveriam, principalmente pelas questões estruturais que regiam as gravadoras.

Como exemplo, Suzin cita o curta documentário “The Ace of Cups, The Ace of Cups, the Haight's (Almost) Forgotten All-Girl Band”, que conta a história da The Ace of Cups, primeira banda formada inteiramente por mulheres a atingir as paradas de sucesso. “A gente ainda estava na era Facebook quando surgiu esse documentário. Depois dele, elas ganharam uma projeção e voltaram a tocar hoje em dia”, explica Suzin.

Os documentários também podem ser uma maneira eficaz de se reviver e reintroduzir artistas do passado ao público atual. No último Festival In-Edit, foram exibidos “Fanny: The Right To Rock”, que conta a história da banda Fanny, formada por mulheres filipinas, algumas lésbicas, em 1969; e “Suzi Q”, que relembra a história da baixista Suzi Quatro.

No Brasil, a cantora Vanusa está sendo bastante revivida pelo público, principalmente após seu falecimento, em novembro de 2020 . Em junho deste ano, a cantora foi homenageada no seriado “Manhãs de Setembro”, estrelado por Liniker  e disponível no Prime Video. Os cinco episódios revivem o legado de Vanusa e a inserem em um novo contexto, atualizando sua obra e sua persona.

“Às vezes estas mulheres estão lá esquecidas mas, por algum motivo você vai lá e redescobre, traz isso de volta para a cena e isso ganha novas camadas de sentido. Pode ser algo que uma pesquisadora ou uma DJ encontrou ou que um documentário reviveu”, diz Suzin.

O rock morreu?


Da mesma maneira como Apple e Morissette, a geração dos anos 2000 também teve alguns de seus ícones juvenis do rock, casos principalmente de Avril Lavigne, considerada a Princesa do Pop-Punk, e Hayley Williams, que liderou o Paramore e se tornou um grande símbolo de emancipação e atitude para as mais jovens. No Brasil, Pitty explodia no Brasil com seu primeiro disco, “Admirável Chip Novo”, e emplacou sucessos em todo país.

No entanto, o rock começa a perder a força que tinha anteriormente e deixa de se tornar um gênero no mainstream. Isso não significa que o gênero tenha morrido. Artistas foram criando novas roupagens e se mantiveram mesmo que sem o status que as bandas de rock de antigamente atingiam com mais facilidade.

Nomes como Taylor Momsen, Brody Dalle e Dorothy Martin surgem entre os anos 2000 e 2010 com uma postura de rock muito similar com a feita nos anos 1990, tanto em postura de palco como sonoridades. No entanto, as três apresentam novas características ao som e o atualizam, fazendo grande sucesso dentro do movimento com suas bandas: The Pretty Reckless, Distillers e Dorothy.

Girlbands tem se tornado mais comuns no indie, que apresentou nomes como HAIM e Warpaint. Também foi no indie que Brittany Howard, vocalista do Alabama Shakes, chamou atenção por aperfeiçoar as técnicas de voz e de musicalidades dos blues e rock apresentadas nos anos 1960 por Joplin.

Suzin destaca ainda a cantora e guitarrista St. Vincent, reconhecida como uma das grandes artistas do rock atualmente. “Ela é a única mulher a ter uma linha de guitarras que ela mesma desenvolveu e assinou. Ela está super na crista”, diz Suzin.

No Brasil, bandas de mulheres continuam a surgir de forma mais diversas, principalmente no underground. Mulamba, Verônica Decide Morrer e Brunks são alguns dos casos. O Far From Alaska, que conta com Emmily Barreto e Cris Botarelli na formação, alcançou um bom patamar de visibilidade e entrou conseguiu entrar no radar.

Com as redes sociais, torna-se mais fácil que artistas se promovem por meio delas de forma gratuita, sem depender de selos ou gravadoras. No entanto, o apoio financeiro ainda é uma questão a ser resolvida. “Tem a chance de chegar em mais gente, mas é mais difícil de se manter financeiramente só disso. Espero que a gente consiga encontrar outras formas de ajudar essas meninas a se manterem na prática da música.

A linguagem de contestação, característica marcante desde o início do gênero, se mantém. No exterior, as mulheres do grupo russo Pussy Riot, as norte-americanas The Linda Lindas e a australiana Courtney Barnett mantêm as letras contestadoras a partir do momento em que as discussões sociais e políticas vão se aflorando.

Para Suzin, o futuro do rock é de se manter neste espaço de rebeldia e de protesto. “Espero que se reflita cada vez mais as questões colocadas hoje em dia e que isso signifique mover se mover em uma direção de olhar para essas questões de raça, de capacitismo, classe e gênero. Isso acaba refletindo bastante e que bom que a gente está nesse momento em que podemos questionar essas coisas”, diz.

Na visão de Luka, o que vai manter o rock vivo também está atrelado ao quanto as pessoas estarão dispostas a “sacrificar” pelo gênero. “O rock vai estar nas mãos de uma pessoa que vai arrebentar e vai fazer um negócio legal e visceral, sem frescura de fazer um som às três da manhã ou fazer um show que seja lá longe e não dê valor financeiro, porque o valor emocional vai agregar público. É isso que vai fazer o som rodar e fazer o artista crescer. É isso que eu acho que faz a diferença. Ser rock and roll é ir contra a correnteza.”

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