A ansiedade é um mal que atinge pelo menos 18,9 milhões de brasileiros , segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Os sintomas, decorrentes da liberação de noradrenalina e o cortisol (medo, apreensão e até dores físicas) são frequentes em mais de 9% da população brasileira.

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A ansiedade atinge 18,9 milhões de brasileiros


Por conta da pandemia do novo coronavírus, a  atenção para a saúde mental entrou em alerta por conta do isolamento e da falta de certeza sobre o que irá ocorrer no futuro próximo. Segundo a pesquisa realizada pelo Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), 70% dos jovens entre 15 e 29 anos relataram piora no estado emocional e 62% destacaram a ansiedade como um sintoma recorrente. Este problema tende a ser duas vezes mais comum entre mulheres , conforme dados da Sociedade Americana de Ansiedade e Depressão.

Maria Luiza Lopes, de 24 anos, estudante de Publicidade e Propaganda, é uma das pessoas que passou pelo agravamento de seu quadro mental durante a pandemia. Estagiária de um grande banco, ela conta que teve uma grande piora na ansiedade e até um quadro depressivo. "Tenho ansiedade diagnosticada desde 2017, mas entrei em 2020 melhorando minha saúde como um todo. Quando a pandemia chegou não consegui cuidar do meu corpo e meu trabalho voltou sem o mínimo prepraro, o que me trouxe um gatilho de ansiedade".

Ela contou ao Delas que teve uma pequena quarentena e não pôde fazer home office porque o banco não tinha estrutura para que os estagiários trabalhassem de casa. Em razão dessa falta de estrutura Maria Luiza se contaminou com coronavírus. "Tive a pior crise de ansiedade durante a quarentena, quando meu chefe me ligou na sexta à noite, fora do expediente para me avisar que segunda eu deveria estar no banco. Não tive tempo hábil para digerir a notícia, entrei em estado de choque e até consulta de emergência com minha psicóloga marquei. Estava em um estado de fobia por voltar ao trabalho e pouco tempo depois me infectei".

Ela não foi ao hospital mas teve os sintomas de cansaço, perda de olfato e paladar. Pelo menos uma semana ela teve perda total dos dois sentidos e posteriormente dor no peito e falta de ar. "A falta de ar da Covid se misturava à falta de ar da ansiedade. Fiz uma quarentena dentro da quarentena, pois tive que me isolar dos meus pais dentro de casa. Falava com eles por vídeo do meu quarto e eles na sala. Foi complexo e minha ansiedade se agravou", conta.


Esse novo isolamento fez com que a universitária tivesse que enfrentar a solidão, já que não tinha contato algum com o mundo externo. "Me senti obrigada a lidar comigo mesma. Esse aspecto me deu um gatilho para mim, tive que lidar demais com isso. Me sinto em um novo anormal e me dá ansiedade de me sentir em uma realidade desconexa da minha", diz.

A professora de canto popular e cantora Thaíni Cavalcante também teve a ansiedade agravada por conta da pandemia e do isolamento. "Me isolar fez com que eu olhasse para os meus problemas, porque não tinha mais como fugir deles".

Apesar do isolamento a aproximar da família, também a aproximou de alguns problemas para a saúde mental. "A mudança brusca de rotina, as incertezas, perder 70% da minha renda de uma semana para outra, o medo da morte e as dificuldades financeiras tornaram-se grandes gatilhos para a ansiedade. Sentia palpitação, choro, dor no peito e até falta de ar", lembra.

Por causa destes sintomas agravados, Thaíni teve que procurar auxílio psicológico. Ela conseguiu encontrar no Projeto Reinserir, que apoia mulheres, LGBT's e pessoas negras que precisam ajuda nas mais diversas áreas. Uma das psicólogas responsáveis pelo projeto, Aline Carezatto explica que este isolamento compulsório afetou as pessoas de formas diferentes, mas todas negativas. 

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O Setembro Amarelo tem como objetivo incentivar discussões acerca do suicídio, fenômeno complexo e que demanda responsabilidade redobrada no seu manejo. Há quem defenda que este é um debate e compromisso apenas dos profissionais da saúde mental, visto que são formados para lidar com as demandas de pessoas em sofrimento. Há quem defende a ideia de incentivar uma grande rede de solidariedade, o conhecido “abrir o inbox para quem precisa desabafar”. É importante considerar que o suicídio diz menos sobre um desejo puro de morte, mas sim de interrupção da angústia, que por vezes ocupa um lugar muito maior na vida e psiquismo do que os momentos de felicidade e prazer. Em um modo de vida precarizado para boa parte da população, especialmente aquelas historicamente exploradas e marginalizadas, discutir a questão do suicídio implica também em discutir condições dignas de vida. Por melhores que sejam as intenções embutidas na escuta através das redes sociais, o melhor direcionamento é ampliar as redes de apoio que envolvem profissionais da saúde, familiares, amigos e instituições que proporcionem segurança e acolhimento efetivo. Aí vai uma leitura para continuar a reflexão, da psicanalista @ana_suy: https://www.instagram.com/p/B17w8phFb8o/?igshid=q48ad4s2sgcd #setembroamarelo #suicidio #rededesolidariedade #redesdeapoio #redesocial #lgbt #negritude #solidariedade #gruporeinserir

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"A pandemia veio sem avisos e a maioria das pessoas teve de procurar recursos psicológicos para lidar com esta situação tão atípica. Um dos fatores principais gerador de angústia e propulsor de sintomas de ansiedade é o de lidar com a espera, a dúvida e a falta de certezas, além é claro dos fatores sociais, como estar em grupos ainda mais vulneráveis, como as minorias", diz.

Ela explica que a crise sanitária em si já é um grande gatilho para pessoas que têm ansiedade e que uma retomada das atividades cotidianas sem garantias ou segurança pode ser ainda pior. "Ela já gera preocupações e estresse o suficiente, não ter as precauções e proteções garantidas, tanto para pessoas que estão tendo que retornar ao trabalho presencialmente, como aquelas que não puderam parar e se isolar pode aumentar as chances e ser fator de risco para o adoecimento psicólogico", aponta.

Aline afirma que espaços com escuta especializada podem garantir um processo de autoconhecimento e reconhecimento dos próprios limites, ajudando a superar este momento de incertezas. "Dividir o peso das inseguranças e medos com pessoas confiáveis ajuda na sensação de solidão. Trabalhar a autocrítica e exigência consigo, pois é um momento de aprendizado e incertezas para todos. Dar espaço ao erro também é importante", diz a psicóloga.

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