Depois do dia 14 de março de 2018, a arquiteta Monica Benicio teve que aceitar a alcunha de “viúva de Marielle Franco” querendo ou não. Em meio a uma situação tão delicada de luto e de luta por justiça, Monica conseguiu abraçar a posição com força e orgulho. Se tornou um exemplo e trilhou um caminho próprio, inspirada pelas ideias e trajetórias da vereadora e esposa, hoje também é ativista da luta pelos direitos de mulheres faveladas e LBTs.

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monica benicio
Instagram/@monicaterezabenicio
Monica é ativista do movimento LGBT no Rio de Janeiro




Nascida e criada no Complexo da Maré, se descobriu lésbica após conhecer Marielle Franco, com 19 anos. “No início, foi difícil. A gente não tinha relação de amizade com muitos LGBTs na época (em 2005). Tínhamos alguns amigos gays, mas pouquíssimas amigas lésbicas. Então, não tínhamos muitas referências. Eu e Marielle tínhamos muito medo de andar de mãos dadas na favela”, conta a arquiteta.

As famílias também não aceitaram bem o relacionamento, especialmente a de Marielle, que era muito católica, então -- como para grande parte dos LGBTs -- a fase de se descobrir e se assumir foi muito dolorosa para o casal, segundo Monica. Mas diz que, apesar disso, também houve espaço para o prazer do autoconhecimento e de um novo relacionamento de muito carinho e afeto.

“Ao longo da relação, eu e Marielle acabamos terminando e voltando muitas vezes. Nas vezes que a gente terminava, a Marielle tinha relacionamentos com outros homens, mas eu fui entendendo que aquilo ali era de fato minha identidade, que eu era uma mulher lésbica, que gostava de mulheres. Uma mulher amando mulheres."

Ao se afirmar como uma mulher lésbica, sofreu ainda mais preconceito da família, incluindo os próprios pais, mas conta que, com o tempo, conseguiu mudar essa realidade. “Hoje, tenho não só apoio, mas respeito dos meus pais e da minha família. Minha mãe vai na parada LGBT comigo todos os anos. Teve ano que eu não pude ir e ela foi”, diz Mônica.

“Eu sentia que de alguma forma estava traindo a Marielle”

Após quase 14 anos de um relacionamento intenso que teve um fim tão trágico e repentino, Mônica diz que não foi fácil seguir em frente, especialmente por ser uma das principais pessoas a cobrar uma resolução para o caso do assassinato de Marielle e Anderson Gomes. Se abrir para uma nova experiência amorosa, ela conta, parecia difícil, mas, há sei meses, ela e a cantora Marina Íris começaram a namorar.

monica e marina
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Monica afirma que Marina (à esq) é muito parceira na luta por justiça por Marielle e isso é muito importante

“Quando eu comecei a namorar a Marina, era muito difícil de lidar, porque tem uma questão do luto que traz culpa. A culpa de quem ficou, a culpa de seguir e eu sentia que, de alguma forma, estava traindo a Marielle”, afirma. “Mas a Marina é muito parceira na luta por justiça para Marielle, que não é uma luta individual, personalista. Pelo contrário: é uma luta pela democracia, por justiça. Alguns dias são mais difíceis do que outros, mas a Marielle ainda é uma figura que é muito central na minha vida, seja por essa questão da luta por justiça ou por todo significado da nossa história de amor.”

Quando o relacionamento foi a público, por meio de uma nota sensacionalista, como Monica define, os comentários negativos foram muitos. “O machismo, a sociedade patriarcal, quer colocar a mulher de luto nesse lugar do abandono, como se a gente tivesse que viver em eterna solidão e sofrimento para justificar e legitimar nossa história de amor anterior. E estamos falando de um momento muito duro, porque uma mulher está em viuvez porque perdeu uma pessoa que amava”, explica Mônica.

Para a carioca, a lesbofobia amplia ainda mais esses preconceitos e faz uma comparação: “Lula, que teve a dona Marisa como companheira durante muitos anos, começou a namorar quando estava preso. Quando saiu, foi aclamado e todo mundo gritava 'beija! Beija!', [para que ele beijasse a namorada]. A gente tem que defender que isso seja o direito de todo mundo.”

Mas Monica diz que muitas pessoas ficaram felizes por esse novo capítulo na vida da ativista e compreendem que não é há desrespeito com a memória de Marielle. “A gente precisa falar sobre esses gestos de afeto que ressignificam nossas esperanças cotidianas, que são essenciais para a gente.”

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