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Para Maria Paula Vieira, a melhor parte está sendo receber mensagens de meninas que também são deficientes e estão se vendo representadas no clipe

Geralmente, quem aparece nos clipes de música, além do próprio artista, são mulheres que estão dentro "do padrão de beleza", e é bastante raro ver uma uma pessoa com deficiência  ou uma bailarina gorda ,  por exemplo. Quando Kevinho e MC Kekel lançaram o clipe em parceria da canção "O Bebê", porém, o destaque foi para a representatividade, com Maria Paula Vieira. 

O clipe 'O Bebê', de Kevinho e MC Kekel, abre espaço para debater representatividade pela participação de Maria Paula
Reprodução/Youtube
O clipe 'O Bebê', de Kevinho e MC Kekel, abre espaço para debater representatividade pela participação de Maria Paula



Na produção audiovisual, Maria Paula faz par romântico com o funkeiro e, no fim do vídeo, os dois encontram MC Kekel, que tem uma filha com deficiência na trama. Além dessas cenas, também aparecem dançarinos cadeirantes fazendo a coreografia da música — algo que está sendo bastante elogiado pelos internautas, especialmente porque levanta debates sobre a importância da  representatividade  e inclusão. 

Em entrevista ao Delas , Maria Paula conta que foi uma experiência surpreendente. "A mídia e o meio musical são extremamente padronizados, com mulheres ditas perfeitas. Então é uma surpresa quando um artista ou um meio tão grande abre espaço para algo assim. E me encheu ainda mais de felicidade saber que a ideia partiu do próprio Kevinho."

Segundo ela, a participação em uma produção que já foi vista por mais de 5,4 milhões de pessoas em menos de dois dias foi uma conquista não apenas pessoal, mas também para muitas outras pessoas com deficiência. "Eu sempre batalhei pela inclusão, e poder ser uma das pessoas a fazer parte disso me deixou muito feliz." 

Para ela, a melhor parte, por enquanto, está sendo essa grande recepção por parte do público. "Eu estou recebendo muito carinho, tanto dos meus amigos, quanto fãs do Kevinho. Mas os comentários que mais têm me feito feliz e realizada são, justamente, de meninas deficientes, fãs dele, comentando sobre ter alguém como elas ali, se verem representadas. É isso que me faz sentir orgulho desse trabalho."

Por que a representatividade é tão importante?

Segundo Maria Paula, é importante falar sobre representatividade e mostrar que pessoas com deficiência são normais
Reprodução/Youtube
Segundo Maria Paula, é importante falar sobre representatividade e mostrar que pessoas com deficiência são normais

Além de atriz, Maria Paula também é jornalista, fotógrafa e modelo. Apesar de atuar em tantas áreas, ela conta que ainda são poucos os exemplos de inclusão e representatividade que viu por aí, mas acredita que é necessário ressaltar a importância disso.

"Eu sempre lembro da novela Viver a Vida, da Rede Globo, em que a atriz Aline Moraes fez o papel de uma cadeirante. Na época, eu era adolescente e era muito difícil aceitar que eu era diferente das outras meninas, até porque muitas me excluíam na escola. Quando eu vi aquela atriz linda, sendo igual a mim, percebi que eu também poderia ser linda, ter as minhas próprias qualidades, sem me preocupar com o que a sociedade fosse dizer." 

Por isso, ela afirma que o clipe de "O Bebê" está sendo muito importante, principalmente por quebrar estereótipos, como representar pessoas com deficiência sempre ligadas a histórias de superação, por exemplo. "Ali não houve nenhum exemplo de superação ou capacitismo. Mostrou uma jovem normal, saindo com seu namorado, curtindo a vida."

Algumas das cenas mostradas no clipe, entretanto, abordam problemas do cotidiano de uma pessoa com deficiência que necessita da cadeira de rodas para locomoção, como não conseguir pegar um ônibus porque o veículo não está adaptado.

"Existe  uma crítica na questão de acessibilidade, mas isso é realmente necessário ser mostrado, é necessário se falar da dificuldade que ainda se enfrenta por ter um país desestruturado. É  justamente isso que a mídia precisa fazer, mostrar a vida normal, criticar o necessário, mas sem colocar o ar de piedade. Até porque somos pessoas normais, com dias bons e ruins, alegrias e tristezas, como qualquer pessoa", complementa. 

Para a atriz, é a partir desses espaços que são abertos que as pessoas "fora do padrão" começam a se enxergar. "Representatividade importa muito, é necessário que a criança ou a jovem deficiente, negra, surda, se veja na mídia, lembre que ela existe, que é aceita, que existem muitas pessoas como ela e que ela não precisa seguir um padrão, pois ela é linda, especial, como qualquer pessoa pode ser."

Da mesma forma, é através dessa mesma representação que a sociedade também passa a ver essas pessoas com outros olhos. "É de extrema importância que a sociedade também enxergue que existem pessoas de inúmeros jeitos diferentes, que têm uma vida normal, que merecem ter seu espaço e não serem excluídas. Quanto mais a mídia abrir esse espaço, colocar as diferenças em pauta, com a informação, muita coisa tende a ser melhor, a mudar, a evoluirmos." 

Representavididade, preconceito e empatia

Apesar de existir um debate sobre representatividade, ainda há preconceito quando assunto é pessoas com deficiência
Reprodução/Youtube
Apesar de existir um debate sobre representatividade, ainda há preconceito quando assunto é pessoas com deficiência


De acordo com Maria Paula, essa visibilidade e representatividade é o que gera mais empatia entre as pessoas porque existem, sim, muitas dificuldades. "Sempre passo dificuldade nas ruas mal estruturadas, cheias de buracos, a dificuldade de achar banheiros acessíveis em locais públicos, fora a dificuldade de ter restaurantes e bares totalmente adaptados."

"Falta muita estrutura ainda para existir real acessibilidade no nosso país, tem muito projeto para ser feito para melhorar e realmente conseguirmos exercer nosso direito de ir e vir em qualquer lugar", afirma. 

Entretanto, ela acredita que também há ainda mais preconceito. "É um preconceito velado. Existe muito capacitismo em relação à pessoa com deficiência, ainda somos muito tratados como incapazes. Acham que não podemos trabalhar, frequentar escola, uma universidade, de amar, de ter relações sexuais... E quando fazemos algo comum, somos exemplo de superação, mas na verdade só estamos seguindo uma vida normal, como qualquer pessoa."

É por motivos como esses que uma produção como a de Kevinho e MC Kekel merece a visibilidade que está tendo. "É sobre como é importante ver essa representatividade e de uma forma positiva, sem os estereótipos que tanto nos é colocado. Significa validar a existência, lembrar que somos importantes, é sobre empoderamento. Quando vivemos em uma sociedade cheia de julgamento, é necessário dar espaço e voz na mídia para todos", finaliza. 

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