Tamanho do texto

Contemplação da identidade brasileira e transição política atual do país inspiram ambiente Hall Biblioteca, na Casa Cor

Hall Biblioteca
Divulgação
Hall Biblioteca


Seguindo pelo jardim, no caminho das árvores de Pau-brasil instalado em pleno Jóquei Clube de São Paulo, aquela típica garoa paulistana convida para entrar.

O que vem a seguir é o aconchegante Hall Biblioteca, ambiente concebido por Roberto Cimino e Nelson Amorim, que abre a mostra Casa Cor 2016.

Hall Biblioteca de Roberto Cimino e Nelson Amorim na Casa Cor 2016
Divulgação
Hall Biblioteca de Roberto Cimino e Nelson Amorim na Casa Cor 2016

Entre, contemple Tarsila do Amaral, tome nas mãos um exemplar único de escritos de Oswald de Andrade para ler, sente-se em uma das poltronas library. Respire. Tudo o que está ao redor exalta - e exala - a identidade nacional em detalhes: da arte tribal xingu exposta em estantes e paredes aos modernistas da Semana de Arte Moderna de 1922. 

Um espaço assim, com alma e história, poderia demorar décadas para ser concebido, mas a parceira de cinco anos da dupla de designers de interiores, acostumada a imprimir pesquisas culturais e artísticas em seu trabalho, levou a criar, em apenas um dia, o projeto que daria vida aos 72m² até então vazios, sem vida e sem função.

Processo criativo

Quase que ao mesmo tempo, a dupla concebeu um dos objetos mais interessantes da decoração: um lustre de folhas em chapas moldáveis, desenvolvido pela Scatto. "O processo criativo é muito instigante e pode acontecer em fração de segundos ou fazer você ficar perseguindo até encontrar. No geral, as pessoas acreditam que têm o domínio da coisa, mas isso acontece até certo ponto. Muitas vezes você é dominado pela coisa", conta Cimino, que tem papel e caneta ao lado da cama para ideias fora do horário comercial. "Às vezes, você não teve a ideia, foi a ideia que passou e você estava pronto para pegar. E é assim que a parceria faz tudo acontecer", continua Amorim.

Lustre de folhas em chapas moldáveis, criada pela dupla e desenvolvido pela Scatto
Divulgação
Lustre de folhas em chapas moldáveis, criada pela dupla e desenvolvido pela Scatto


Sensação de Brasil

"Nossos ambientes têm um acolhimento natural que faz parte da minha natureza. E essa sensação de aconchego vem da arte tribal xingu, da arte concreta feita pelos índios, que inspirou os concretistas e modernistas. A gente quis fazer um hall biblioteca com essa sensação de Brasil, com toda essa influência da nossa origem tupiniquim", explica Cimino.

Itens da arte tribal em fibra do Alto Xingu se misturam aos objetos garimpados
Divulgação
Itens da arte tribal em fibra do Alto Xingu se misturam aos objetos garimpados


Ambiente habitado por cultura

"Alguns itens de grande valor, como um livro fantástico de Oswald de Andrade, uma peça única com diários do cotidiano dele em um apartamento que era sua garçonniere , com relatos deixados, por exemplo, por Pagu, fazem com que o ambiente pareça ser habitado", diz Amorim.

Estantes ebanizadas, projetadas por eles e desenvolvidas pela Marcenaria Bregannó, emolduram pilares seculares pré-existentes da construção original do Jóquei Clube
Divulgação
Estantes ebanizadas, projetadas por eles e desenvolvidas pela Marcenaria Bregannó, emolduram pilares seculares pré-existentes da construção original do Jóquei Clube


A transformação impressionante do espaço (veja nas imagens de antes e depois na galeria abaixo) se confunde com o momento de transição política do país na visão dos profissionais.


Transição do país

"O ponto é esse: a gente está tão triste com a situação atual do país que se esquece do que a gente tem de muito bom, de valor. Somos um país jovem, mas com uma história para ser conhecida minimamente. Talvez seja inocência da minha parte, mas imagino que esse espaço pode permitir que as pessoas percebam nossa própria identidade", analisa Cimino. Inspirado pelo cinema, Cimino busca o cenário perfeito com luzes e quadros próprios, obras resultantes de suas aventuras como artista plástico.

"Fazemos uma homenagem ao Brasil sem ser óbvia e caricata - como o carnaval. É uma homenagem a esse momento de transição política pelo qual muita gente lutou. Cada brasileiro tem suas ferramentas para apresentar o que o Brasil tem de bacana, essa é a nossa ferramenta, é pequena, mas a que sabemos usar", finaliza Amorim.

Nelson Amorim e Roberto Cimino
Patrícia Moraes/iG
Nelson Amorim e Roberto Cimino


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.