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Segundo endocrinologista, cerca de 10% da população feminina sofre com o problema sem saber que ele tem várias possibilidades de tratamento

Se você nunca passou pela situação de perceber a própria libido indo embora pelo ralo, com certeza conhece alguém que se queixa de não ter vontade de fazer sexo. Ao mesmo tempo em que mulheres não costumam ser incentivadas a descobrir a própria sexualidade, não é difícil encontrar pessoas que acreditam na ideia de que a mulher precisa “servir” o parceiro e, quando notam a ausência de desejo sexual, acabam se culpando por sentirem que não estão atendendo às expectativas.

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Libido em baixa? Segundo especialistas, isso pode não ser apenas uma preguiça de fazer sexo
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Libido em baixa? Segundo especialistas, isso pode não ser apenas uma preguiça de fazer sexo

A queda na libido pode afetar mulheres por motivos diversos, mas, conforme explica o endocrinologista Danilo Höfling, para 10% da população feminina, essa diminuição no desejo sexual é um distúrbio. Chamado de transtorno da excitação sexual feminina, o problema é caracterizado, segundo o especialista, pela diminuição ou ausência de vontade de fazer sexo por um período de ao menos seis meses.

Outro fator determinante é o nível de incômodo da pessoa com a questão. “Às vezes, a mulher ou o homem pode estar com uma disfunção na libido, mas não ligar muito para isso. Podem estar ocupados, correndo muito na vida, não se incomodando com a questão”, explica Danilo, afirmando que o diagnóstico desse transtorno ocorre quando, além de o problema persistir, a pessoa fica aflita com a questão.

É o caso, por exemplo, da advogada Cristina Calheiros. “Eu não estava entendendo o que estava acontecendo. Eu não queria manter o relacionamento, não queria ter relações sexuais, achava que eu simplesmente tinha perdido a vontade e estava começando a culpar meu parceiro”, relembra. Segundo ela, o problema foi descoberto em uma consulta de rotina com o endocrinologista.

O que causa o problema?

De acordo com Danilo, os fatores que levam mulheres a desenvolver esse tipo de transtorno podem ser tanto físicos quanto psicológicos. No caso de Cristina, a causa do transtorno foi o fato de que, aos 44 anos, ela entrou na menopausa. “Fazia um ano que minha menstruação não estava vindo e eu sempre fui muito regulada. Como eu estava sofrendo muitos estresses, a gente nem cogitava menopausa nessa idade”, conta a advogada.

Durante a menopausa, a produção de hormônios no corpo da mulher entra em desequilíbrio, fazendo com que ela possa ter alterações no formato do corpo, o fim do período menstrual e diminuição do apetite sexual. De acordo com um estudo recente, além de a bagunça hormonal já gerar essa queda no desejo de fazer sexo, a perda da lubrificação da vagina que normalmente acomete as mulheres na menopausa faz com que elas evitem as relações sexuais por medo de elas serem dolorosas.

De acordo com Danilo, outra possível causa física para esse distúrbio é o uso de determinados medicamentos como antidepressivos, ansiolíticos e até a própria pílula anticoncepcional. “As pílulas, mesmo as de baixa dosagem, podem suprimir a produção de testosterona, deixando-a indetectável, isso acontece com boa parte das mulheres que usam contraceptivos hormonais”, comenta o endocrinologista.

Porém, nem sempre as causas do desejo sexual hipoativo são físicas. Carla Cecarello, sexóloga do site “C-Date”, explica que, enquanto mulheres de mais idade costumam desenvolver o distúrbio em razão dos fatores citados, mulheres mais jovens normalmente o desenvolvem por questões psicológicas. Segundo a especialista, algumas vezes o problema está no próprio relacionamento, como a presença de uma rotina na relação do casal, a falta de novidades no sexo , conflitos conjugais frequentes e até preliminares inadequadas.

Questões educacionais e sociais também podem ter uma parcela de culpa, afetando inclusive pessoas que não estão em um relacionamento. “As mulheres que cresceram em um ambiente em que o sexo sempre foi visto com sujo, ruim e pecaminoso podem ter dificuldades em se expressar sexualmente, comprometendo o desejo sexual”, conta.

Por vezes, até traumas adquiridos em relações passadas podem mandar a libido para o espaço. “Às vezes, essa mulher é alguém que já teve um relacionamento, mas que, por uma decepção amorosa muito grande, fica com medo de entrar em uma nova relação e bloqueie o desejo sexual dela”, explica a especialista.

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Não confunda

Apesar de as causas do problema serem diversas, tanto Danilo quanto Carla afirmam que cada caso deve ser avaliado cuidadosamente.  “Muita mulher não tem vontade de fazer sexo com o marido, mas, se olha outro homem na rua, ela fica excitada, tem certo desejo”, comenta Carla. Segundo a sexóloga, situações como essa não indicam esse distúrbio específico da libido.

Danilo também explica que o diagnóstico do transtorno também não cabe em um quadro em que a pessoa tem um declínio no desejo sexual, mas também está enfrentando outras doenças, tanto mentais quanto físicas. Segundo ele, a diminuição da vontade de fazer sexo, quando relacionada a, por exemplo, uma depressão ou uma condição grave que deixa a pessoa internada, não pode ser classificada dessa forma.

Esse fator, somado ao fato de que, segundo Danilo, muitas mulheres enfrentam a condição caladas, reforça a importância de não omitir detalhe algum na consulta médica, seja ela com um ginecologista, um endocrinologista ou qualquer outro especialista. “As mulheres normalmente vão cuidar de hormônios, obesidade, mas apenas uma ou outra fala sobre isso [queda do desejo sexual]. Eu sempre pergunto de maneira delicada, e aí é impressionante o número de casos que a gente acaba detectando”, afirma o médico.

Cristina também aconselha que mulheres busquem especialistas de confiança caso sentirem esse sintoma. “Precisa procurar ajuda mesmo, porque, se não, a gente acaba colocando a culpa na outra pessoa, sendo que o problema pode estar dentro de nós”, afirma.

Tratamentos

Da mesma forma que as causas para o problema são variadas, há uma gama extensa de tratamentos e formas de livrar a mulher desse distúrbio. Danilo afirma que, fora do Brasil, o medicamento usado para resolver a situação é o “viagra feminino” (flibanserina). Aqui, porém, grande parte dos casos requer a reposição da testosterona em forma de adesivos, cremes ou géis e na dosagem mais baixa possível. Foi caso de Cristina, que afirma ter resolvido o problema realizando a reposição hormonal.

Nos casos em que a mulher sofre com a queda da libido pelo uso da pílula anticoncepcional, o médico explica que a descontinuação do medicamento resolve na maior parte das vezes. “Elas podem deixar de usar esse método contraceptivo e procurar aqueles que não são hormonais, com o DIU de cobre”, afirma o endocrinologista.

Já quando o problema vem de questões sociais ou psicológicas, a abordagem é outra. Segundo Carla, a pessoa deve, em primeiro lugar, conversar com o parceiro ou parceira e deixar claro que não está se sentindo bem com a vida sexual, mas, independentemente desse papo, ela precisa procurar um especialista. “Ela precisa entender o porquê de estar se sentindo tão desmotivada para o sexo. Essas coisas precisam ser trabalhadas com um profissional da área de psicologia especializado em sexualidade”, esclarece a sexóloga.

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Não se force

É comum a ideia de que, se a mulher não for sexualmente ativa em um relacionamento, o parceiro vai buscar sexo com outra pessoa (o que não deveria acontecer, afinal, o papel do parceiro ou parceira é tentar entender e ajudar a outra pessoa). Mesmo acreditando nisso, segundo Carla, a mulher não deve se forçar a fazer algo quando está com a libido em baixa. “A mulher precisa fazer sexo porque tem vontade. Ela faz sexo, sobretudo, por causa dela, é uma forma de ela satisfazer uma vontade dela. Vontade que ela pode aprender a desenvolver caso tenha perdido por algum motivo”.

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