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Apesar de haver muitos exemplos de por que não se deve confiar em pessoas pelo papo virtual antes de conhecê-las pessoalmente, não são raros os casos de quem se vê nessa situação, não consegue evitar e acaba se machucando

Em junho deste ano, o Delas conversou com três mulheres a respeito das experiências delas com relacionamentos à distância . Na época, Juliana, uma das entrevistadas, mantinha conversas há três anos com um rapaz que mora na Índia e afirmava ter uma ligação especial com ele. Porém, conforme os planos de visitá-lo no fim do ano – e quem sabe engatar um relacionamento - se concretizavam, Juliana descobriu que estava sendo enganada.  

Sim, ter um relacionamento virtual é possível, mas e quando você descobre que não está falando com quem imaginava?
Shutterstock
Sim, ter um relacionamento virtual é possível, mas e quando você descobre que não está falando com quem imaginava?

Após alguns dias sem conseguir se comunicar com o rapaz, Juliana afirma que uma pessoa entrou em contato com ela pelo chat do Instagram dele, mas que, pelo jeito de falar, não era ele. A possibilidade de os dois terem um relacionamento no futuro foi por água abaixo quando, investigando melhor, a moça descobriu que quem estava conversando com ela era a namorada do rapaz, de quem ela não sabia da existência até então.

Infelizmente, histórias como a de Juliana não são nada raras. Lançado em 2010, o documentário “Catfish” abordou o assunto de forma sensível mostrando a história de Nev Schulman, um rapaz norte-americano que havia iniciado um relacionamento amoroso com uma jovem sem conhecê-la pessoalmente.

Inspirados na história de um dos apresentadores, a série
Reprodução/MTV
Inspirados na história de um dos apresentadores, a série "Catfish" busca ajudar pessoas que estão em um relacionamento virtual duvidoso

Ao final, Nev descobre que nem a moça nem as outras pessoas da família dela com quem ele se comunicava eram reais; todos eles não passavam de uma complexa rede de perfis falsos controlados por uma só pessoa.

O filme inspirou o surgimento da série de mesmo nome e, nela, Nev e Max (um amigo do rapaz) ajudam outras pessoas em situações parecidas a solucionar os mistérios nos quais inesperadamente se envolveram.

Na série, alguns casos já levaram Nev e Max ao Alasca, ao Canadá e até a Londres, mas não é preciso ir tão longe assim para encontrar situações em que uma pessoa se apaixona por alguém que tem algo sobre si a esconder. Hoje, Juliana afirma que não se deixa afetar pelo ocorrido e que não interage mais com o rapaz  – apesar de ele ter tentado se explicar algumas vezes –, mas, para outras pessoas, experiências como essas podem se tornar verdadeiros desastres.

Do sonho ao pesadelo

Em outubro de 2015, Avana decidiu embarcar uma aventura: até o mesmo mês do ano seguinte, ela estaria nos Estados Unidos para um intercâmbio. Animada para conhecer gente interessante em Los Angeles, a moça conta que baixou alguns aplicativos de relacionamento, e foi pelo “OkCupid” que conheceu Ryan* (nome fictício).

Avana fala que, a princípio, não se interessou pelo rapaz, mas acabou dando uma chance mesmo assim. “Pela foto, ele não era o estereótipo que eu curtia e, além disso, era muito novo. Tinha 20 e eu 24. Conversei durante um tempo com ele por mensagem até que, em dezembro, resolvemos sair e nos encontramos em um café. Lá eu já mudei totalmente minha opinião em relação a ele”, relata a jovem. Bom, Ryan realmente era a pessoa que mostrava ser nas fotos que havia colocado no perfil do aplicativo, sinal de que tudo ficaria bem, certo? Errado.

Avana conta que tudo com ele parecia um sonho. “Ele parecia um ator de Hollywood e eu já fiquei balançada desde o primeiro ‘date’. Saímos por alguns meses e eu me sentia dentro de um filme, ele tinha um Camaro conversível e a gente vivia indo tomar vinho nas montanhas de Santa Mônica”, lembra. O que ela não sabia, porém, é que o conto de fadas viraria um verdadeiro pesadelo.

Apesar dos passeios maravilhosos, Avana afirma que o jeito um tanto seco do rapaz estava começando a desagradá-la, mas ela não esperava que, além disso, ele tivesse uma namorada. Na época, o casal estava dando um tempo, mas não se deram ao trabalho de deletar as fotos do Facebook e Ryan não se importou em contar esse pequeno detalhe para Avana. Segundo a moça, os dois acabaram brigando pelo primeiro motivo, já que ela resolveu guardar a descoberta que fez para si.

Ryan chegou a bloquear Avana no Facebook. Eventualmente, ele e a namorada reataram a relação e, mesmo assim, Ryan voltou a procurar Avana diversas vezes. A moça conta que, quando estava com ele, pensou em estender o intercâmbio por mais um ano além do período que ela originalmente ficaria em Los Angeles, mas a situação angustiante fez com que tudo o que ela quisesse fosse voltar logo para o Brasil. “Foi o cara que eu mais gostei na vida, mas o jeito e a imaturidade dele me fazem mal”, lamenta. 

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Sem ponto final

Se confiar em uma pessoa que conheceu pela internet apenas para descobrir algo desagradável sobre ela depois de algum tempo já é difícil de engolir, imagine descobrir que, na verdade, você nem sabe com quem está falando? O caso da jovem Carolina segue essa linha e se parece, de certa forma, com o de Nev. Em março deste ano, uma pessoa que Carolina não conhecia a seguiu no Instagram. Esse foi o primeiro contato que ela teve com Luiz, rapaz com quem ela conversou durante meses e que, até hoje, não sabe quem é.

Carolina seguiu a conta (que era trancada, ou seja, apenas seguidores autorizados por Luiz podiam ver o que ele postava) por curiosidade e, segundo ela, vários vídeos e fotos faziam com que o perfil parecesse legítimo, e não “fake”. A jovem conta que a comunicação entre os dois começou antes da Páscoa quando, já atraída fisicamente por ele, ela respondeu a uma das história (fotos ou vídeos que ficam disponíveis no Instagram por 24 horas) que Luiz havia postado. Eles começaram a bater papo pelo chat do aplicativo e mantiveram os papos por meses.

Já no início da conversa, Luiz sugeriu que Carolina o adicionasse também no Facebook, e assim ela o fez, pedindo o contato do WhatsApp dele. Logo aí, as coisas já começaram a ficar estranhas. “Ele falou que só usava o WhatsApp para trabalho. Achei estranho, mas pensei ‘ok, não vou julgar’”, conta a moça. A partir do primeiro contato, Carolina fala que os dias eram cheios de mensagens de “bom dia”, de papo e de histórias sobre a família dele. Pouco a pouco, a moça foi se apaixonado e eles conversavam sobre se conhecer e, eventualmente, ter um relacionamento.

As conversas, porém, nunca saíram da internet. Quando marcaram de se encontrar pela primeira vez, Carolina conta que, um dia, ele estava com amigos e havia combinado de ir para a casa dela mais tarde. Às 23h e já preocupada com a demora, a moça recebeu uma mensagem de Luiz, mas quem estava falando disse ser um amigo dele. “Um amigo dele veio me chamar pelo celular e disse: ‘ele perdeu o celular comigo, eu não sei o que está acontecendo porque ele está passando mal, tem diabetes’”, detalha.

Situações parecidas aconteceram várias outras vezes e, apesar de ainda nutrir sentimentos pelo rapaz, Carolina ficava cada vez mais angustiada. “A gente conversava todos os dias, todas as horas, todo segundo. Eu mandava fotos minhas íntimas, não ‘nudes’, mas coisas que eu não mandaria para qualquer cara. Passei até meu endereço para ele”, conta a jovem. O pior, porém, ainda estava por vir.

“Ele disse que ia se formar e me convidou para ir. Eu fui até o shopping, comprei roupa para ir à formatura dele, estava até fazendo regime para isso. No dia, eu estava pronta, me maquiei e tudo mais, mas chegando na hora, ele falou que não conseguiria me buscar porque tinha passado mal e porque tinham feito algo de errado no cabelo dele”, lembra Carolina, explicando que, quando ele fez esse contato, disse já estar no espaço onde a formatura seria realizada.  Depois disso – e com muito esforço –, Carolina brigou com Luiz e acabou se afastando do rapaz, que continuou curtindo e comentando em diversas das fotos que ela postava.

No início deste mês – e bem no dia de seu aniversário – a jovem teve ainda outra surpresa desagradável. Segundo ela, outro rapaz entrou em contato com ela para falar sobre Luiz. “Um cara veio me chamar e perguntou se eu conhecia o Luiz e o Rafael [teoricamente, irmão de Luiz], porque nós tínhamos os dois como amigos em comum. Aí ele me avisou que os dois eram ‘fake’ e que o Luiz usava as fotos dele”, relembra.

Carolina conta que, desde julho, tem saído com outra pessoa e não se sente mais emocionalmente afetada por Luiz, mas afirma que ficou muito chocada e decepcionada com o que aconteceu. Hoje, ela e o rapaz que entrou em contato com ela para esclarecer a história conversam para decidir o que fazer a respeito de tudo. “Eu quero, sim, tentar solucionar isso porque esse cara me machucou muito. Não sei quem é que está falando pelo Facebook dele, mas me machucou muito, acabei me apegando demais a ele”, relata.

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Fantasia sedutora

Em “ Catfish ”, uma das frases mais ditas pelas pessoas que acabam enganadas em um relacionamento é: “Eu nunca pensei que isso fosse acontecer comigo”. O mesmo aconteceu com Carolina, que classifica a experiência como algo muito surreal e diz que, hoje, fica extremamente desconfiada toda vez que usa um aplicativo como o Tinder .

Mas afinal, o que leva as pessoas a ficarem tão presas a situações como essas mesmo com tantos sinais de que há algo errado? De acordo com o psicólogo Oswaldo Rodrigues Jr., a “fantasia” que esse tipo de paixão proporciona pode ser mesmo algo muito irresistível. De acordo com o profissional, o desejo de que aquilo tudo seja real faz com que qualquer outra possibilidade – mesmo que mais plausível – acabe em segundo plano. “Se queremos acreditar, não será uma ‘mentira’ que nos impedirá de continuar a acreditar no outro”, explica o psicólogo.

Cuidados a tomar nos "amores virtuais"

Ao mesmo tempo, é, sim, possível que um relacionamento virtual improvável seja transportado para a "vida real" com sucesso, e há diversos casos que provam isso. Não há problemas em acreditar, mas é preciso manter os pés bem firmes no chão. Conhece aquele papo de “esperar o pior para não se decepcionar”? Segundo Rodrigues, é quase isso. “O questionamento deve ser: ‘estou preparado para algo ruim?’. Precisamos ter alternativas antes de tomar decisões, e então podemos ponderar se o outro fala uma verdade ou uma mentira”, comenta.

Outra orientação que o psicólogo dá para o caso de surgir uma situação muito mirabolante em um relacionamento virtual como os das histórias citadas é a de não confrontar a pessoa diretamente. “Questionar de modo direto nem sempre funcionará, pois no mundo virtual a mentira pode ser sustentada de modo muito simples e uma mentira repetida sempre será repetida como verdade”, explica. A dica aqui é sempre desconfiar e tentar não se entregar de uma vez para o incerto. Entre no modo "detetive" (sem entrar em situações arriscadas, é claro) e tome decisões se colocando em primeiro lugar!

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