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Motivada pelo crescente número de mulheres que apelam para cirurgias íntimas ou abdicam da vida sexual por se preocuparem com a aparência das partes íntimas, artista cria ilustrações para mostrar que vulvas são únicas

Apesar de a pornografia mostrar o contrário, nem toda vulva é pequena, discreta, branquinha e sem pelos. Constantemente confundida com a vagina – que é uma das partes internas do sistema reprodutor feminino – a vulva engloba o clitóris, a entrada da uretra, os grandes e pequenos lábios, algumas glândulas e mais uma série de outras partes que compõem a região externa da genitália feminina. 

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Motivada pelo crescente número de mulheres que apelam para cirurgias na vulva ou abdicam da vida sexual por se preocuparem com a aparência das partes íntimas, a artista cria e posta ilustrações de todos os tipos de genitália feminina
Reprodução/Instagram @the.vulva.gallery
Motivada pelo crescente número de mulheres que apelam para cirurgias na vulva ou abdicam da vida sexual por se preocuparem com a aparência das partes íntimas, a artista cria e posta ilustrações de todos os tipos de genitália feminina

Buscando mostrar a diversidade de formatos, tamanhos, texturas e cores que a região íntima feminina pode ter, a ilustradora Hilde Atalanta criou o “The Vulva Gallery”, projeto que traz toneladas de ilustrações de vulvas. A artista, que costuma trabalhar questões de gênero e sexualidade em suas ilustrações, afirma ter criado o projeto para tentar aliviar a pressão que as mulheres sofrem acerca do próprio corpo.

Na descrição do projeto, Hilde lamenta a crescente procura de mulheres por procedimentos estéticos íntimos. “Nenhum indivíduo que tem uma vagina deveria precisar passar por isso porque querem que ela seja como as que vemos na internet ou como outras pessoas esperam que elas sejam. É difícil compreender que isso está acontecendo com tanta frequência”, diz a artista.

Padrões de beleza, pornografia e bullying

Além do Instagram – que já concentra mais de 86 mil seguidores –, o projeto de Hilde também reúne desabafos de pessoas que foram influenciadas positivamente por ele. Grande parte deles cita a pornografia como o "pivô" do ódio contra o próprio corpo, já que a maioria dos filmes expõe um tipo de padrão para a aparência do órgão genital feminino. Enquanto alguns relatos falam em superação, outros mostram o quão triste é não gostar do próprio corpo pelo costume de ter contato apenas o que se enquadra em padrões de beleza.

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Além de criar ilustrações, a artista publica relatos anônimos de mulheres que passaram a se amar após vê-las
Reprodução/Instagram @the.vulva.gallery
Além de criar ilustrações, a artista publica relatos anônimos de mulheres que passaram a se amar após vê-las

“Quando eu era mais nova tinha vergonha da minha vulva, principalmente por causa da pornografia e de um ex-namorado que fez um comentário asqueroso. Depois disso, eu sempre manipulava situações sexuais para fazer com que as luzes fossem apagadas. Eu não queria deixar meu próprio parceiro me ver, nem mesmo após anos. Conforme fiquei mais velha, valente e passei a sair com homens de qualidade, meu amor próprio também cresceu. Ver esse tipo de arte também me fez perceber quanta variedade existe e o quão bonita cada uma delas é”, relata uma das mulheres.

Ficar de luz apagada durante o sexo , porém, é apenas uma das dificuldades relatadas pelas fãs do projeto. Algumas delas chegaram a sofrer bullying em razão do formato da vulva - que muitas vezes pode aparecer mesmo quando a mulher está usando roupas, e não há problema algum nisso -, e chegaram até a fazer cirurgias para mudar a aparência do órgão.

“Eu tinha 14 anos quando fiz a labioplastia. Eu sentia que havia algo errado comigo e que os garotos nunca iam querer me tocar. Minha mãe também endoidou, então eu definitivamente achei que havia algo de errado comigo. Apesar de eu não poder voltar no tempo e reverter a cirurgia, fico feliz que outras garotas têm esse projeto”, afirma outra moça.

Apesar de relatarem problemas relacionados à autoestima, muitas mulheres falam sobre o quão libertadora é a realização de que cada mulher é de um jeito "lá embaixo". "Eu acho que imagens realistas do corpo humano com essas deveriam ser parte da educação - não apenas para garotas, mas para garotos também, que estão vendo montanhas de imagens distorcidas na pornografia online", afirma um dos comentários.

O projeto também toca em outro assunto que é um pesadelo para muitas mulheres: pelos pubianos. Apesar de ser algo natural para ambos os sexos, as mulheres são retratadas como seres que não possuem pelos até em propagandas de produtos depilatórios, em que, antes de removerem os cabelinhos das pernas ou axilas, já não há nenhum.

Em uma de suas postagens no Instagram, Hilde comenta o assunto: "Pelos púbicos podem crescer de muitas formas diferentes; às vezes são enrolados, às vezes são lisos. Eles podem ser ralos ou formar um arbusto que cresce até o interior das coxas. Não há nada anti-higiênico ou 'sujo' neles. Além de serem uma barreira natural para manter tudo limpo, eles também protegem a pele debaixo deles e ajudam a controlar a hidratação do local. Lembre-se: a decisão do que fazer com os pelos pubianos é e sempre será sua".

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O “boom” das cirurgias íntimas

Não é raro encontrar mulheres insatisfeitas com o formato, cor e até o tamanho a genitália . Algumas delas guardam a questão para si, mas cada vez mais as mulheres estão recorrendo a procedimentos como a labioplastia e o rejuvenescimento vaginal, responsáveis por remodelar a aparência dos lábios vaginais e até tornar a vagina mais “apertada”.

De acordo com dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, 138 mil labioplastias foram realizadas no mundo durante 2016, representando um aumento de 45% no número de procedimentos feitos em 2015. No Brasil, o número de labioplastias praticamente duplicou; em 2015, foram realizados 12,8 mil procedimentos que remodelam a vulva, enquanto em 2016, a quantidade passou para 23,1 mil.

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