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De acordo com um estudo feito por pesquisadores da Newcastle University, no Reino Unido, é possível que a permissividade dessa tecnologia gere distorções no conceito de consenso e crie vícios mais intensos

Já faz algum tempo que a pornografia deixou de ser um material restrito a filmes e contos. O mercado de bonecas sexuais está crescendo e se tornando cada vez mais diverso e realista, com tecnologias que prometem mais prazer e até uma espécie de relação emocional com o usuário. Outro recurso que também vem sido explorado é o do pornô com realidade virtual, que permite interação entre o espectador e o filme que está sendo exibido.

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Segundo o estudo, a permissividade da pornografia com realidade virtual pode gera distorções no conceito de consenso
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Segundo o estudo, a permissividade da pornografia com realidade virtual pode gera distorções no conceito de consenso

Apesar de esse recurso soar inovador, pesquisadores da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, afirmam que a crescente popularidade de tecnologias desse tipo pode gerar problemas que envolvem a ideia de consenso e abuso sexual . A equipe da universidade apresentou o estudo na CHI (Conference on Human Factors in Computing Systems) deste ano em forma de alerta tanto para consumidores quanto para a comunidade digital responsável pelo desenvolvimento dessas tecnologias de pornografia com realidade virtual.

De acordo com Madeline Balaam, co-aturoa do estudo, além de a indústria pornô trazer consigo um viés sexista que incentiva a exploração de mulheres, ela também intensifica a busca por um corpo perfeito. “Nós já somos obcecados com imagem corporal e na indústria digital não é diferente. Da criação de uma mulher virtual perfeita até robôs sexuais, o pornô com realidade virtual tem potencial para fazer isso crescer”, afirma.

O ponto principal da pesquisa, porém, é como o consumo do pornô com realidade virtual pode bagunçar os conceitos e até os relacionamentos de quem faz uso da tecnologia. “Algumas das nossas descobertas destacam o potencial de criar modelos de pessoas reais em 3D, levantando perguntas sobre o que o consenso significa em experiências de realidade virtual. Se um usuário criasse uma versão da própria namorada no programa, por exemplo, eles fariam com ela coisas que sabem que ela recusaria no mundo real?”, questiona a pesquisadora.

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O time de pesquisadores também levanta a questão do “revenge porn”, ou seja, a divulgação de imagens íntimas alheias como forma de vingança. De acordo com eles, os casos envolvendo esse tipo de crime entre jovens vêm crescendo, principalmente após o surgimento de aplicativos como o Snapchat, que permite o compartilhamento de imagens que se auto destroem. A possibilidade de criar versões virtuais de pessoas reais pode indicar um futuro ainda mais perverso para o “revenge porn”.

As questões do vício e da violência também foram levantadas pelos pesquisadores. A realidade virtual possibilita a criação de situações “perfeitas” que nunca poderiam ser superadas por experiências reais, o que, segundo o estudo, tem potencial para criar vícios extremos. Para algumas pessoas, o uso da realidade virtual se resume em forçar limites, dando espaço para a criação de situações violentas.

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Possibilidades positivas

De acordo com Madeline, porém, há como conduzir essas inovações por um caminho mais positivo. “A pornografia está conosco desde sempre e não irá embora, mas talvez a realidade virtual nos dê a oportunidade de influenciar a pornografia e introduzir algumas novas regras. Imagine um cenário em que, por exemplo, o participante do sexo masculino assume o papel do feminino no jogo virtual”, sugere a pesquisadora. Pode ser uma inversão saudável de papéis. 

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