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No vídeo, a mulher deixa claro que não quer fazer sexo, mas o rapaz ignora as vontades da parceira. Afinal, estabelecer que há um relacionamento é suficiente para haja consenso? Sexóloga explica e mulheres dão depoimentos

Nas últimas semanas, um curta francês publicado pela atriz e roteirista Chloé Fontaine virou assunto pelo mundo ao retratar um tema que, até hoje, é um tabu: o estupro em relacionamentos. Estabelecido como violação dos direitos humanos pela ONU em 1993, o estupro marital (como é chamado o ato sexual sem consentimento na relação entre marido e mulher) ainda não é considerado crime em muitos países e, no Brasil, não possui uma legislação específica. 

Estabelecer que há uma relação é suficiente para dizer que o consenso existe em todas as situações
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Estabelecer que há uma relação é suficiente para dizer que o consenso existe em todas as situações

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No vídeo, um casal de jovens aparece deitado em uma cama, debatendo sobre assistir ou não a “Irreversível”. Protagonizado por Monica Belluci, o filme em questão contém uma cena de estupro explícito que deu o que falar em 2002, quando foi lançado. Em meio à conversa, o rapaz começa a beijar e acariciar a moça, que deixa claro muitas vezes que não está disposta a ter uma relação sexual naquele momento. Ignorando-a, o rapaz volta a beijá-la e transa com ela mesmo assim. A moça, por sua vez, fica estática esperando aquilo acabar.

Depoimentos

O vídeo pode chocar, mas a situação é mais comum do que se imagina. Entre cinco mulheres consultadas pelo Delas, apenas uma não passou por uma experiência em que tenha feito coisas de cunho sexual sem ter vontade. Duas delas, porém, encararam uma situação assim dentro de um relacionamento, e falaram sobre o que ocorreu.

Aos 17 anos – e, segundo ela, ainda muito insegura sobre o próprio corpo, as vontades e os limites –, Camila* (nome fictício) conta que durante um momento em que não tinha disposição para nada por ter depressão e não estava com vontade de fazer sexo, foi coagida a isso pelo então namorado. “No momento, me senti usada, fraca e nem um pouco à vontade com a situação, comigo mesma ou com meu corpo”, comenta.

Bianca* passou por algo parecido também aos 17 anos. “Estávamos deitados para dormir e ele começou a me acariciar. Eu disse que não estava a fim porque estava com muito sono e não sei até hoje se ele achou que era apenas charme ou se forçou a barra porque achou que poderia me convencer”, afirma. Assim como Camila, Bianca afirma que o ato foi horrível e que, depois, ela não se sentiu nada bem.

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Relacionamento não pressupõe consenso

Um denominador comum em casos como estes parece ser a dificuldade em perceber o quão errada a situação é. “Isso foi antes de eu me envolver com a militância feminista e só depois de muito tempo fui entender o que tinha acontecido. Depois do término do namoro, só fui transar com outro homem oito meses depois”, conta Bianca.

De acordo com a sexóloga Priscila Junqueira, casos assim podem ser algo muito frequente em relacionamentos abusivos . “Temos, muitas vezes, mulheres deprimidas, com autoestima baixa que não se sentem seguras para expor sua vontade”, afirma. Em outro momento do vídeo, enquanto está insistindo no ato, o rapaz pergunta à moça se ela já não gosta mais dele. Segundo Priscila, "topar" o ato mesmo sem vontade pode ser reflexo do pensamento de "se ele não se satisfizer comigo, vai se satisfazer com outra".

A demora em perceber que o ato foi errado, segundo ela, tem diversas motivações. Apesar de ser algo relacionado a séculos passados, a quantidade de casos de estupros no País (mais de cinco por hora, de acordo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, publicados em 2016) denuncia a vulnerabilidade da mulher e a indiferença quanto as vontades delas. A ideia de que a mulher deve satisfazer o homem em um relacionamento, segundo Priscila, pode acabar gerando situações como as descritas por Camila e Bianca.

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Ela afirma, porém, que estabelecer que um relacionamento existe, seja um namoro, um casamento ou algo mais casual, não é suficiente para dizer que há consenso implícito para se fazer qualquer coisa. “Fazer algo que o outro não concorda é uma questão de falta de limite e falta de respeito”, afirma ela.

O conteúdo do vídeo pode ser perturbador para pessoas sensíveis ou que tenham passado por algo parecido em uma relação e não é indicado para menores de 18 anos.



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