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Parar de comer carne não precisa ser um processo difícil. Com dicas simples para ir tirando derivados animais da dieta aos poucos, é possível mudar os hábitos alimentares sem sofrer e sem abrir mão do que se gosta de comer

Existem diversos estudos que afirmam que o consumo excessivo de carne e derivados de animais não é bom para a saúde e nem para o meio ambiente. Este é um dos motivos pelos quais muitas pessoas estão optando por passar um ou mais dias da semana sem carne ou por adotar o vegetarianismo e o veganismo . Esse processo de "transição alimentar", porém, não é a coisa mais fácil do mundo, e é preciso seguir alguns passos para parar de comer carne com saúde e sem sofrer. 

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Parar de comer carne não significa abrir mão das coisas de que gosta, apenas adaptar a dieta
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Parar de comer carne não significa abrir mão das coisas de que gosta, apenas adaptar a dieta


De acordo com a nutricionista vegana Renata Victoratti, apesar de estudos mostrarem que tanto a alimentação vegetariana quanto a vegetariana estrita podem trazer benefícios à saúde – como a redução dos riscos de câncer, doenças cardiovasculares e diabetes –, é importante que, antes de fazer qualquer mudança na dieta (e mesmo que não seja para parar de comer carne ), as pessoas busquem acompanhamento nutricional e façam exames periódicos.

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"Durante a transição, a principal preocupação que percebo das pessoas são as deficiências de proteínas, vitamina B12, ferro, cálcio, entre outros. Ambas as dietas podem ser opções seguras, saudáveis e capazes de oferecer todos os nutrientes necessários. No caso do vegetariano estrito, só não contempla a vitamina B12 que, quando necessário, deve ser suplementada", reforça. Sabendo disso, confira as dicas da nutricionista e da ativista vegana Luisa Mell para quem quer parar de comer carne.

5 passos para parar de comer carne:

Segunda sem carne

Quem é mais antenado em assuntos relacionados a alimentação provavelmente já ouviu falar na dica da "segunda sem carne", ou seja, um dia da semana em que não se consome carne animal, seja ela de vaca, porco, frango ou peixe. De acordo com Renata, esse é um ótimo começo, mas Luisa alerta que, para quem opta por isso, "o pensamento tem de acompanhar a ação".

"Junto a isso, [é preciso] começar a prestar atenção na quantidade de carne e derivados que consome e lembrar que aquilo vem de um animal. As propagandas são ótimas em dissociar um animal morto daquilo que está no nosso prato; as pessoas não falam que vão comer um boi, falam que vão comer uma 'carninha'".

Mudança na rotina

O passo seguinte é, em vez de não comer carne apenas em um dia da semana, aumentar a frequência desse hábito. Luisa Mell sugere eliminar o consumo de carne animal das segundas e quintas, além de restringir o alimento nos dias em que ele está "liberado". Nesse caso, nas terças, quartas, sextas e finais de semana, a carne pode, por exemplo, entrar em apenas uma refeição no dia. "Segunda e quinta, por exemplo, e reduzir o número de refeições em que come carne nos dias em que 'está liberado'", propõe.

A ideia, com isso, é começar a mudar a rotina alimentar aos poucos. Para evitar estranhamento e para não parecer que há uma restrição no cardápio, a ativista recomenda começar a explorar outros sabores, algo que, segundo ela, torna essa mudança mais interessante e gostosa.

"Em vez de pensar no que você não vai comer, pense no que vai comer! Conheça novos sabores, dê oportunidades, pense no alimento como um todo, procure montar pratos mais coloridos. Isso é legal até para as crianças", diz Luisa.

Nesse momento, é importante lembrar que não é preciso abrir mão dos sabores preferidos. Para quem não quer passar vontade, uma ideia é buscar sites de receitas e influenciadores veganos ou vegetarianos – como o Presunto Vegetariano, Vegetarirango, Tá na Mesa Vegg e Maternidade Vegana – que ensinam a reproduzir pratos e alimentos que todo mundo curte, mas sem qualquer derivado animal.

Desafio dos 21 dias

Essa mudança na rotina - que, para alguns, pode ser bem impactante -, serve como preparação para o desafio dos 21 dias sem carne. Lançado pela ONG "Mercy for Animals" no Brasil em parceria com a Sociedade Vegetariana Brasileira, o desafio é exatamente o que parece: passar 21 dias seguidos sem comer nenhum tipo de carne (neste caso, derivados como leite e ovos ainda são liberados).

É possível fazer o desafio por conta própria, porém existe o site "Desafio 21 dias sem carne", que oferece apoio aos participantes. Para os interessados, basta inscrever o e-mail para passar a receber receitas diárias, contar com o apoio de nutricionistas, entrar em um grupo de Whatsapp com outros participantes e ter acesso a um guia com receitas e informações sobre o vegetarianismo.

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Mas, afinal, por que 21 dias? De acordo com alguns estudos, basta repetir uma ação durante 21 dias seguidos para que ela se transforme em hábito – ou deixe de ser um hábito quando eliminada durante esse período. Assim, a ideia é que, após o desafio realizado com as devidas informações e apoio, os participantes consigam de fato adotar o vegetarianismo e dar continuidade a esse estilo de vida sozinhos.

Informação e estudo

Se informar e assistir documentários sobre a indústria da carne pode ajudar quem quer largar a carne
Divulgação
Se informar e assistir documentários sobre a indústria da carne pode ajudar quem quer largar a carne


Para facilitar a trajetória, dar forças para quem quer parar de comer carne definitivamente e se manter vegetariano, mas ainda gosta muito de comer carne, Luisa recomenda se informar e estudar, não só sobre o veganismo e o vegetarianismo, mas sobre a indústria da carne e dos laticínios, além do impacto que o consumo de todos esses produtos tem no organismo humano.

"Existem vários documentários, até na Netflix, que valem a pena ser vistos. Ler livros e ver vídeos de matadouros também. Você fica indignado em saber que aquilo está acontecendo, que você está comendo um animal morto tão brutalmente, e isso ajuda na hora das 'recaídas'. Eu lembro que comi peixe duas vezes depois que virei vegetariana e foram experiências horrorosas. Você perde a vontade", explica.

Renata reforça o posicionamento da ativista e acredita que a maior dificuldade que as pessoas têm ao parar de comer carne ou qualquer alimento de origem animal é mudar o paladar e, por isso, conhecer bem a crueldade por trás da indústria da carne facilita na missão de "dominar" o paladar.

"O veganismo vai muito além da alimentação, é uma filosofia de vida. Além da exclusão dos alimentos de origem animal, ele fala sobre não utilizar produtos procedentes do reino animal para nenhum fim, seja cosmético, vestuário ou mesmo que seja testado em animais. A transição fica mais fácil partir do momento em que as pessoas enxergam o sofrimento animal que está por trás da indústria da carne e escolhem por não compactuar com nenhum tipo de exploração animal, deixando a compaixão ultrapassar o paladar", defende a nutricionista.

Entre os documentários recomendados estão: "Terráqueos", "Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade", "Troque a Faca pelo garfo", "Que raio de saúde" ("What the Health", nome em inglês pelo qual é mais conhecido), "A carne é fraca" e "Food matters".

Veganismo

Mais do que só parar de comer carne, o passo do vegetarianismo para o veganismo costuma ser o mais difícil, pois a maioria dos pratos e alimentos industrializados contém ovo, leite ou mesmo queijo. "É muito difícil porque a gente é viciado no sabor do leite e, por exemplo, acha estranho os leites vegetais. A gente também vê propaganda disso e todo o mundo toma, o que atrapalha", diz Luisa.

Mas a dificuldade em parar não vem apenas do hábito: de acordo com um estudo da Universidade de Michigan, nos EUA, a caseína (proteína presente principalmente em queijos, iogurtes e outros derivados do leite) é capaz de estimular partes do cérebro da mesma forma que algumas drogas, como a cocaína. Com isso, o cérebro fica praticamente viciado em comer esse tipo de alimento, algo que torna a mudança de hábitos ainda mais complicada.

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Para a ativista, a "força" para conseguir dar esse passo vem da informação. "A indústria de laticínios é, em vários aspectos, muito mais cruel do que a da carne", defende. Vale lembrar que o veganismo é um estilo de vida, não só uma forma de alimentação. Quem escolhe limitar seu veganismo apenas para a alimentação opta, na verdade, pelo vegetarianismo estrito, não pelo veganismo propriamente dito.

Nesse momento, Renata refoça mais uma vez a importância de buscar um nutricionista, mas afirma que isso não é algo exclusivo de quem opta por parar de comer carne e outros produtos de origem animal. "Todas as pessoas estão sujeitas a apresentar deficiências nutricionais, independentemente do tipo de alimentação escolhida. Embora vegetarianos estritos não tenham a vitamina B12 contemplada em sua dieta, há vários estudos que mostram a deficiência dela em onívoros também", comenta a especialista.

Luisa Mell e o ativismo vegano

Desde a segunda sem carne até o ativismo vegano: Luisa Mell dá dicas para reduzir consumo
Reprodução/Facebook
Desde a segunda sem carne até o ativismo vegano: Luisa Mell dá dicas para reduzir consumo


Vegana há anos, a ativista e protetora dos animais relembra sua trajetória e reforça a necessidade de as pessoas repensarem seus hábitos alimentares. "Eu parei de comer carne vermelha muito cedo, mas não era por causa dos animais. Ainda não tinha essa consciência, era porque eu achava nojento mesmo. Logo que comecei a me envolver com os animais, a resgatar cachorros e galinhas, vi toda aquela situação da criação e 'produção' do frango, e aí parei de comer frango. O peixe foi o último", relembra.

A transição para o veganismo veio quando ela leu a notícia sobre uma fazenda nos Estados Unidos em que os donos estavam tirando os bezerros das vacas – processo da indústria de laticínios realizado para impedir que os bezerros mamem o leite, coletado para ser comercializado. Segundo ela, a gritaria dos animais era tão alta que os vizinhos chegaram a chamar a polícia achando que pessoas estavam sendo maltratadas.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer, no EUA, o consumo de carne vermelha está associado ao desenvolvimento de doenças como câncer, diabetes e problemas cardíacos. Já segundo um levantamento de 2017 do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), a pecuária para a criação de gado é a que mais contribui para o desmatamento da Amazônia, ocupando 65% da área desmatada.

"Eu lembro que na matéria dizia que a polícia chegou, o fazendeiro explicou o motivo e disse que era normal. Isso não é normal. Eu vi que a indústria de laticínios estupra as vacas para engravidá-las continuamente, e depois tira seus bezerros para pegar o leite - isso por uns sete anos, que é o quanto elas aguentam. Tudo isso só para a gente tomar o leite que é para outro animal. Não dava para continuar compactuando com isso", afirma.

Mais do que apenas adotar o estilo de vida vegano, Luisa é ativista vegana, o que significa que ela tenta conscientizar outras pessoas. Ela teve uma gravidez e cria seu filho de acordo com veganismo, isto é, sem permitir que ele consuma produtos e alimentos de origem animal ou com derivados animais, e, hoje, dá palestras a respeito do assunto. Seu livro "Como os animais salvaram a minha vida" também aborda o tema.

"Eu quero que as pessoas entendam que parar de comer carne faz diferença. Elas acham que não muda nada, isso é mentira, muda sim! Você não precisa ir até a África fazer trabalho voluntário para mudar o mundo, você pode fazer em casa, a cada decisão, a cada escolha de produto que você consome. A cada decisão, você pode escolher não contribuir com o desmatamento, com a matança desnecessária de animais, ou só pensar em si mesmo e no seu gosto".

O ativismo vegano, para muitos adeptos do estilo de vida, seria a última "etapa" do "parar de comer carne", pois, para essas pessoas, como Luisa, não basta apenas virar vegano e ser indiferente ao consumo das pessoas ao redor, sem tentar conscientizá-las.

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"Eu passei muito tempo sofrendo porque ninguém queria saber desse assunto e de parar de comer carne . Então virei a chata que ia na casa das pessoas e via problema em tudo. Hoje em dia, todo o mundo sabe, mas ainda é difícil lidar com quem não quer ouvir, quer continuar levando o estilo de vida que tem, mesmo com todas as informações disponíveis, e não ser grosseira. Mas não posso ser grossa, porque isso afasta as pessoas. A nossa guerra é com amor, é pela paz e com paz. É isso que eu tento passar para as pessoas e acredito que elas possam mudar", conclui Luisa.

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