
Dormir pouco ou ter noites de sono de má qualidade pode trazer consequências que vão muito além do cansaço. Dados do Vigitel 2006–2024, divulgados pelo Ministério da Saúde e repercutidos pelo Jornal da USP, mostram que 20% dos brasileiros dormem menos de seis horas por noite e 31,7% apresentam sintomas de insônia. A pesquisa também permite observar diferenças entre homens e mulheres no cenário nacional.
Para as mulheres, a qualidade do sono merece atenção especial por sua relação com o metabolismo, a regulação hormonal e a saúde sexual. Quando o descanso insuficiente se torna frequente, podem surgir alterações no apetite, na disposição e no humor, além de possíveis repercussões sobre o ciclo menstrual e a libido.
De acordo com Gaby Esteves, nutricionista da Clínica Ginelife, é importante considerar o sono na rotina de quem busca melhorar a alimentação e cuidar do peso. Uma mulher pode praticar exercícios físicos e manter uma alimentação equilibrada, mas ainda assim negligenciar a qualidade do descanso.
Dormir mal não é apenas acordar cansada. A qualidade e a regularidade do sono estão relacionadas à saúde cardiometabólica, ao controle do apetite, à regulação hormonal e ao comportamento alimentar. Às vezes, o que está faltando na sua dieta não está no prato. Está na cama Gaby Esteves
Sono ruim também pode interferir na saúde ginecológica
A relação entre sono e metabolismo envolve mecanismos que regulam a fome, a saciedade e a sensibilidade à insulina. Segundo a ginecologista da Clínica Ginelife, Dra. Ana Carolina Romanini, noites mal dormidas de forma recorrente podem favorecer mudanças nesses processos, aumentando o apetite e a vontade de consumir alimentos mais calóricos. Com o tempo, esse cenário pode dificultar o controle do peso.
O sono tem um papel muito importante na saúde da mulher, porque está relacionado à regulação metabólica, ao funcionamento do sistema hormonal e também à saúde sexual. Quando a mulher dorme mal com frequência, podem ocorrer alterações nos mecanismos que regulam a fome e a saciedade, além de mudanças na sensibilidade à insulina e no metabolismo. Isso pode favorecer o aumento do apetite e dificultar o controle do peso Dra. Ana Carolina Romanini
Os efeitos não se restringem ao comportamento alimentar. A privação de sono também pode representar um fator de estresse para o organismo e interferir na regulação hormonal, que envolve a comunicação entre o cérebro e os ovários. Em situações persistentes, alterações relacionadas ao estresse e ao aumento do cortisol podem estar associadas a irregularidades menstruais e a outros desequilíbrios metabólicos.
A saúde sexual também pode ser afetada. O cansaço acumulado, as mudanças de humor e a redução da disposição podem diminuir o interesse sexual. Por isso, a libido não deve ser analisada apenas sob a perspectiva dos hormônios sexuais: o bem-estar físico e emocional e a qualidade do sono também fazem parte desse contexto.
“Quando a mulher apresenta ganho de peso sem uma explicação aparente, alterações menstruais ou diminuição da libido, precisamos avaliar o contexto como um todo, incluindo a qualidade do sono. Nem sempre a causa está exclusivamente nos hormônios. É importante investigar se existem problemas como insônia ou apneia do sono, que também podem comprometer o descanso”, destaca a Dra. Ana Carolina.
O que significa ter um sono reparador?
Dormir bem não depende apenas do número de horas passadas na cama. A regularidade dos horários, a continuidade do descanso e a qualidade das diferentes fases do sono também são aspectos relevantes para a saúde.
Na saúde feminina, observar mudanças no sono também pode ajudar a identificar aspectos que merecem investigação durante uma consulta. Quando alterações menstruais, mudanças de peso ou redução da libido aparecem junto a noites mal dormidas, uma avaliação individualizada permite considerar diferentes fatores envolvidos e orientar os cuidados de acordo com as necessidades de cada mulher.