Os padrões irreais: a luta para entrar e sair deles
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Os padrões irreais: a luta para entrar e sair deles

A vontade de mudar alguma coisa no próprio corpo nem sempre nasce da insatisfação. Em alguns casos, ela pode vir acompanhada da expectativa de receber mais elogios, conquistar aprovação ou até alcançar novas oportunidades.

O problema começa quando essa busca deixa de ser uma escolha pessoal e passa a determinar o quanto alguém se sente bonito, suficiente ou valorizado.

Esse limite ganhou atenção após relatos de pessoas famosas sobre procedimentos estéticos, como o caso de Anitta, que contou ter associado mudanças na aparência a novas oportunidades profissionais.

Mas, para além da experiência da cantora, a situação levanta uma questão que pode aparecer na vida de qualquer pessoa: até que ponto a opinião dos outros influencia a forma como enxergamos nosso próprio corpo?

Segundo a psicóloga Gil Jung, a resposta está menos no procedimento escolhido e mais na motivação por trás dele.

Quando a mudança deixa de ser uma escolha

Para a especialista, não há problema necessariamente em recorrer a uma cirurgia plástica ou a outro procedimento para modificar algo que incomoda. A decisão pode, inclusive, contribuir para que a pessoa se sinta melhor consigo mesma quando é tomada de maneira consciente.

Eu não acredito que o problema esteja em fazer uma cirurgia plástica ou um procedimento estético. A pessoa pode, sim, se permitir mudar algo que a incomoda, cuidar da aparência e se sentir melhor com o próprio corpo. Isso pode contribuir para a autoestima, desde que exista equilíbrio, consciência e expectativas realistas Gil Jung, psicóloga


A situação muda quando o desejo pessoal começa a dar espaço para a necessidade de corresponder ao olhar de outras pessoas. Nesse caso, a aprovação externa pode passar a influenciar diretamente a relação com o próprio corpo.

“O ponto de atenção está na motivação. Quando a cirurgia deixa de ser uma escolha pessoal e passa a ser feita para corresponder ao olhar do outro, ser aceita, conquistar aprovação ou se enquadrar em determinado padrão, essa relação pode se tornar prejudicial”, explica Gil.

O efeito dos elogios e do reconhecimento

A especialista também chama atenção para uma situação que pode reforçar esse comportamento: quando uma mudança na aparência é seguida por elogios, oportunidades ou reconhecimento.

Um exemplo citado recentemente foi o relato de Anitta sobre sua primeira cirurgia plástica. A cantora contou que foi incentivada por uma empresária a fazer a intervenção e, posteriormente, passou a perceber uma relação entre as mudanças no visual e novas oportunidades profissionais.

Para Gil, essa associação pode criar um ciclo difícil de interromper.

No relato da Anitta, chama atenção justamente o fato de a primeira cirurgia ter surgido a partir da insistência de outra pessoa e associada à ideia de que uma mudança na aparência poderia trazer mais sucesso. Quando depois dessa mudança vêm elogios, oportunidades e reconhecimento, isso pode reforçar psicologicamente a percepção de que é preciso continuar modificando o corpo para continuar sendo valorizada Gil Jung


Com isso, uma transformação que inicialmente poderia ser pontual corre o risco de se tornar uma busca constante. A pessoa pode começar a enxergar o próprio corpo como algo que precisa estar sempre sendo corrigido ou aperfeiçoado.

“Cirurgia plástica não é, por si só, um problema. O problema pode surgir quando a pessoa passa a acreditar que precisa mudar constantemente a própria aparência para se sentir suficiente, desejada ou aceita”, afirma.

A aprovação dos outros pode pesar na decisão

Outro ponto destacado pela psicóloga é a diferença entre mudar algo porque aquela característica incomoda a própria pessoa e buscar uma transformação para atender às expectativas de terceiros.

Essa distinção pode parecer pequena, mas ajuda a entender o que está por trás da decisão. Em uma situação, existe um desejo individual de mudança. Na outra, o procedimento pode ser encarado como uma espécie de requisito para receber aprovação.

“Para mim, uma relação saudável com a cirurgia plástica é aquela em que a pessoa faz uma escolha porque deseja aquilo para si, e não porque acredita que precisa se transformar para merecer aprovação.”

Redes sociais aumentam a pressão

A discussão também se torna mais complexa diante da exposição constante a padrões de beleza nas redes sociais, na publicidade e no entretenimento. Rostos, corpos e estilos que recebem grande visibilidade podem acabar sendo vistos como referências que deveriam ser seguidas.

Nesse cenário, a comparação pode influenciar a maneira como alguém percebe a própria aparência e aumentar a sensação de que sempre existe algo a ser melhorado.

Por isso, para Gil Jung, a questão não está em condenar procedimentos estéticos ou definir que mudar o corpo é errado. O principal é observar por que aquela mudança está sendo desejada.

Quando existe uma vontade genuína, expectativas realistas e uma decisão tomada para si, o procedimento pode fazer parte de uma relação saudável com a aparência.

Já quando a transformação passa a ser vista como condição para receber amor, aprovação, reconhecimento ou sucesso, é hora de olhar com mais atenção para essa relação com o próprio corpo.

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