
Trombose, ganho de peso, câncer e até infertilidade. Esses são alguns dos medos que podem surgir quando o assunto é anticoncepcional hormonal.
Com relatos compartilhados nas redes sociais e informações nem sempre completas, dúvidas sobre os efeitos desses métodos no organismo se tornaram cada vez mais comuns.
Mas será que todos esses riscos são realmente iguais para todas as mulheres? A resposta passa por um ponto importante: não existe um único método contraceptivo que seja adequado para todas as pessoas. A escolha depende do histórico de saúde, da rotina, das expectativas e também da forma como o organismo reage.
Para a ginecologista Ilza Maria Urbano Monteiro, presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), parte dos receios nasce da falta de informação.
A especialista explica que os métodos hormonais são considerados seguros quando indicados de maneira adequada.
O medo vem principalmente do desconhecido e da desinformação. Muitas vezes, a informação que mais chega é que o anticoncepcional causa trombose, aumenta o peso ou está associado ao câncer. Esses mitos são muito difíceis de derrubar. Métodos contraceptivos hormonais são considerados seguros e podem trazer benefícios que muitas vezes são esquecidos Ilza Maria Urbano Monteiro
Afinal, qual é o risco de trombose?
A trombose é um dos principais pontos de preocupação entre as mulheres que utilizam anticoncepcionais hormonais. O risco, porém, não é igual em todos os métodos.
Os contraceptivos combinados possuem estrogênio e progestagênio. O estrogênio pode aumentar a tendência à formação de coágulos e, consequentemente, elevar a possibilidade de tromboembolismo. Apesar disso, o evento é considerado raro e a avaliação deve levar em conta as características individuais de cada paciente.
Segundo Ilza, entre mulheres que não utilizam hormônios, são registrados cerca de 3 a 4 casos de trombose a cada 10 mil mulheres por ano. Entre usuárias de contraceptivos hormonais combinados, esse número pode chegar a 16 casos por 10 mil mulheres ao ano.
Na gravidez, por outro lado, a estimativa chega a 25 a 30 casos a cada 10 mil mulheres por ano, e o risco aumenta ainda mais no primeiro mês após o parto.
“Mas quando colocamos na balança o risco de tomar a pílula e o risco da gravidez, percebemos que o risco de trombose associado à pílula é imensamente menor”, afirma a médica.
Ela ressalta ainda que existem opções sem estrogênio. DIUs hormonais e implantes, por exemplo, não possuem esse hormônio e não apresentam o mesmo aumento do risco de tromboembolismo observado nos métodos combinados.
E o medo de câncer?
A relação entre anticoncepcionais hormonais e câncer de mama também é alvo de dúvidas. De acordo com a especialista, alguns estudos encontraram um pequeno aumento do risco entre usuárias, mas os resultados não permitem afirmar que o uso do contraceptivo seja responsável pelo surgimento da doença.
Ou seja: usar anticoncepcional não significa que a mulher terá câncer de mama. Por outro lado, os métodos hormonais podem apresentar efeitos considerados benéficos.
Entre eles estão a redução do sangramento e das cólicas menstruais, além de uma associação com menor risco de câncer de ovário e de endométrio. Também existem evidências de redução do risco de câncer colorretal entre mulheres que utilizaram contraceptivos hormonais.
Sangramento irregular significa que algo está errado?
Nem sempre. Alterações no padrão menstrual são comuns principalmente nos primeiros meses de utilização de métodos que contêm apenas progestagênio, como algumas pílulas, o implante e o anticoncepcional injetável trimestral.
Pode ocorrer um sangramento de menor intensidade, mas que dura mais dias ou aparece de maneira irregular. Em muitas mulheres, esse padrão melhora com o passar do tempo.
Embora possa causar incômodo, a alteração não significa necessariamente que o método esteja prejudicando a saúde. Em alguns casos, a redução do fluxo pode até representar uma vantagem, especialmente para mulheres com menstruação intensa, cólicas fortes ou anemia.
Ainda assim, qualquer mudança que cause preocupação deve ser levada ao profissional que acompanha a paciente.
Anticoncepcional faz engordar?
O ganho de peso é outro assunto que costuma aparecer nas consultas e nas conversas entre mulheres.
Segundo a ginecologista, os estudos não apontam aumento significativo de peso associado à maioria dos métodos hormonais quando comparados ao DIU de cobre. Uma exceção é o anticoncepcional injetável trimestral, que pode provocar ganho de peso importante em parte das usuárias.
Outras queixas também podem aparecer durante o uso, como alterações na libido e no humor.
É preciso encorajar a paciente a falar sobre seus incômodos, como o ganho de peso, a perda de libido e as mudanças de humor Ilza Maria Urbano Monteiro
Qual método escolher?
A resposta não está apenas na eficácia do contraceptivo. Para algumas mulheres, lembrar diariamente de tomar uma pílula pode ser difícil. Para outras, a possibilidade de alterações no sangramento pode pesar mais na decisão.
Métodos de longa duração, como DIUs e implantes, podem ser considerados por quem prefere não depender de uma rotina diária. Já a pílula precisa ser tomada todos os dias, de preferência no mesmo horário, para manter sua eficácia.
Por isso, a escolha deve levar em conta muito mais do que o medo de um possível efeito colateral. Histórico de saúde, rotina, preferências, expectativas e possíveis benefícios precisam entrar na conversa.
“O mais importante é que a mulher tenha informação para sua escolha e seja acompanhada durante o uso”, conclui a médica.