
A violência doméstica não fica restrita ao ambiente familiar. Cada vez mais, seus impactos aparecem também no trabalho, seja na queda de rendimento, em mudanças de comportamento ou em sinais que passam despercebidos na rotina corporativa.
E os números reforçam a urgência do tema.
Em 2025, o Brasil registrou 780 mil processos relacionados à violência doméstica e familiar contra a mulher, o maior número desde o início da série histórica, em 2016. Os dados são de um levantamento da Predictus, empresa especializada em dados judiciais.
Ao longo da última década, o crescimento foi de 64%, evidenciando tanto o aumento das denúncias quanto a maior judicialização dos casos.
Quando a violência ultrapassa a vida pessoal
Embora aconteça dentro de casa, a violência costuma deixar marcas visíveis na vida profissional.
Faltas frequentes, dificuldade de concentração, ansiedade e mudanças bruscas de comportamento são alguns dos reflexos mais comuns.
Para a psicóloga Fatima Macedo, especialista em saúde mental corporativa, é fundamental entender que o ambiente de trabalho também pode ser um espaço de acolhimento.
Quando as empresas se engajam em temas como a prevenção da violência, elas assumem um papel importante na proteção das colaboradoras. Muitas mulheres passam a reconhecer o ciclo de violência e encontram apoio para buscar ajuda Fatima Macedo, psicóloga
Nos últimos anos, algumas empresas passaram a estruturar iniciativas específicas para lidar com esse tipo de situação.
Um exemplo é o Núcleo de Enfrentamento à Violência (NEV), criado em 2017, que oferece apoio psicológico e orientação a colaboradores em situação de vulnerabilidade.
Em nove anos de atuação, o núcleo já realizou mais de 1,8 mil atendimentos, sendo 95% voltados para mulheres, sem registro de feminicídio entre as colaboradoras acompanhadas.
Segundo Fatima Macedo, a iniciativa surgiu após um caso de feminicídio envolvendo uma gerente do Magazine Luiza, o que levou a empresa a criar um canal específico de apoio.
“A Magalu foi uma das pioneiras no Brasil ao implantar um canal de denúncias voltado para mulheres, o ‘Canal da Mulher’. Esse tipo de iniciativa mostra como o ambiente corporativo pode ser um aliado importante”, afirma.
O atendimento pode acontecer de forma online ou presencial, dependendo da gravidade do caso, e envolve acolhimento psicológico, orientação e acompanhamento contínuo.
Sinais de alerta no ambiente de trabalho
Nem sempre a violência é visível, mas existem indícios que podem ajudar a identificar situações de risco.
Entre os sinais mais comuns estão:
- faltas frequentes ou justificativas recorrentes
- choro constante ou mudanças emocionais bruscas
- queda de desempenho no trabalho
- isolamento ou afastamento de colegas
- ligações e mensagens insistentes do parceiro durante o expediente
- hematomas ou queixas físicas sem explicação clara
A psicóloga , responsável pelo NEV, reforça a importância de não ignorar esses sinais.
Demonstrar disponibilidade para ouvir e criar um espaço de acolhimento pode ser o primeiro passo para que a vítima se sinta segura para pedir ajuda Viviane Luz, psicóloga
Diante de suspeitas, o mais importante é agir com cuidado, sem julgamento.
Conversas discretas, escuta ativa e encaminhamento para áreas como Recursos Humanos ou saúde corporativa podem fazer diferença.
O apoio não precisa ser complexo, mas precisa existir.
Um problema coletivo
A violência doméstica é uma questão social e, cada vez mais, também uma questão corporativa.
Reconhecer seus impactos no ambiente de trabalho é um passo importante para ampliar redes de apoio e criar espaços mais seguros para mulheres.
Porque, muitas vezes, é no trabalho que começa o caminho para sair de uma situação de violência.