No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, discussões sobre segurança feminina e autonomia ganham ainda mais destaque.
Em um cenário marcado por índices alarmantes de violência de gênero, iniciativas voltadas ao fortalecimento e à proteção das mulheres têm se tornado cada vez mais relevantes.
Dados recentes mostram a dimensão do problema. Em 2025, o Brasil registrou quase 7 mil casos de feminicídio, entre consumados e tentados, um aumento de 34% em relação ao ano anterior. Na prática, isso representa uma média de quatro mulheres mortas por dia.
Outro levantamento do Senado indica que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica em 2025, sendo que 81,3% das agressões ocorreram dentro de casa.
Diante desse cenário, cresce o interesse por cursos e treinamentos de defesa pessoal feminina. Mais do que ensinar técnicas de combate, esse tipo de treinamento busca desenvolver percepção de risco, confiança e capacidade de reação em situações de ameaça.
Um dos principais pontos abordados nos cursos é que a defesa pessoal começa antes mesmo de qualquer confronto físico. Estar atento ao ambiente, perceber comportamentos suspeitos e agir com antecedência pode evitar situações perigosas.
“A percepção de risco é fundamental. A defesa pessoal feminina começa muito antes da agressão acontecer”,
explica ao iG
o professor de educação física e treinador Carlos Eduardo Haar Flores,
que trabalha com defesa pessoal voltada para mulheres.
Segundo ele, aprender a observar o ambiente e confiar na própria intuição pode fazer toda a diferença no dia a dia. Situações aparentemente simples, como notar alguém se aproximando de forma suspeita ou perceber algo estranho ao entrar em um carro por aplicativo, podem ser sinais importantes.
“Quanto mais cedo a pessoa reage e se afasta de uma situação de risco, maiores são as chances de evitar um problema”, afirma.
Técnica acima da força
“As técnicas não dependem apenas de força física. A ideia da defesa pessoal é justamente utilizar estratégia, técnica e treinamento para que qualquer mulher consiga aplicar os movimentos”.
Outro mito comum sobre defesa pessoal é a ideia de que as técnicas dependem de força física. Na prática, o treinamento é baseado em estratégia, posicionamento e repetição de movimentos.
As técnicas são pensadas justamente para que qualquer mulher possa aplicá-las, independentemente de porte físico. Além disso, o treinamento traz benefícios semelhantes aos de outras atividades físicas, como melhora da concentração, aumento do foco e sensação de bem-estar.
Como educador físico com formação em fisiologia, Carlos Eduardo destaca que a prática também contribui para a saúde.
“O treinamento de defesa pessoal traz várias vantagens, como liberação de endorfina, sensação de prazer e bem-estar, além de ajudar na regulação da glicemia e da pressão arterial”, explica.
Situações mais comuns
Entre as experiências relatadas por alunas, algumas situações aparecem com frequência. Muitas envolvem episódios de aproximação forçada em ambientes de lazer, como festas e eventos.
Abraços indesejados, mãos bobas e tentativas de beijo à força estão entre os casos citados pelas participantes dos treinamentos. Nessas situações, aprender a impor limites e reagir rapidamente pode ajudar a interromper o comportamento antes que ele evolua.
“Muita gente acha que nesses ambientes tudo é permitido, mas não é assim. Por isso é importante que a mulher saiba se posicionar, mostrar que não aceita esse tipo de atitude e, se necessário, se defender.”
A defesa pessoal, nesse contexto, funciona não apenas como uma técnica física, mas também como uma ferramenta de fortalecimento psicológico e de postura.
A história por trás do treinamento
A dedicação de Carlos Eduardo às artes marciais começou cedo. Ele iniciou no judô ainda criança e, ao longo das décadas, passou por modalidades como capoeira, jiu-jitsu e aikido.
O contato mais direto com a defesa pessoal surgiu justamente durante os treinamentos de aikido, modalidade conhecida por técnicas de imobilização e neutralização de ataques.
Com o tempo, ele passou a perceber o impacto real que o treinamento poderia ter na vida das pessoas. Alguns relatos de alunos marcaram sua trajetória.
“Já tive casos de mulheres que conseguiram se defender de tentativas de abuso e também alunos que escaparam de assaltos. Saber que algo treinado em aula ajudou alguém a sair de uma situação dessas é extremamente gratificante. Isso não tem preço” , conta.
O interesse em direcionar parte do trabalho especificamente para mulheres ganhou ainda mais força após o nascimento de sua filha, em 2022.
Preparação pode fazer diferença
Para quem deseja começar a aprender defesa pessoal, o professor reforça que o primeiro passo é buscar informação e treinamento adequado.
“A defesa pessoal não é sobre sorte, é sobre estar preparada. É preciso treinar bastante. Então o conselho é: comece hoje, não espere para amanhã”, afirma.
Segundo ele, repetir técnicas e treinar cenários ajuda a automatizar reações, algo essencial em situações de estresse ou perigo.
Em um país onde milhões de mulheres ainda enfrentam diferentes formas de violência, a defesa pessoal surge como mais uma ferramenta de proteção, aliando conhecimento, confiança e capacidade de reação.