Imagens de câmeras de segurança revelaram mais um episódio alarmante de violência doméstica no país. No registro, feito dentro do elevador de um prédio no Guará II, Distrito Federal, o empresário Cleber Lúcio Borges agride brutalmente a companheira com socos e cotoveladas . A sequência de ataques, ocorrida na madrugada de 1º de agosto, é investigada pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) como lesão corporal no contexto de violência doméstica .
As imagens mostram a vítima chamando o elevador. Assim que as portas se abrem, ela é surpreendida pelo agressor, que inicia a violência com um soco. Após empurrões e discussão, Cleber desfere novos golpes, derrubando a mulher no chão. Ela tenta se proteger, mas a série de agressões só é interrompida quando o homem cessa por conta própria.
Cinco dias após o episódio, a Seção de Atendimento à Mulher (SAM) da 4ª Delegacia de Polícia do Guará prendeu Cleber em flagrante, também por posse irregular de arma de fogo . Durante cumprimento de mandados de busca, a polícia encontrou duas armas – uma pistola calibre .22 e um modelo antigo não identificado – além de 518 munições de diferentes calibres. Apesar de ter pago fiança pela posse ilegal, ele segue preso preventivamente pelo crime de violência doméstica .
A defesa do empresário informou que não se manifestará publicamente além do que já foi registrado nos autos, afirmando confiar no trabalho da Justiça. A vítima, cujo nome segue em sigilo, está internada para tratamento psiquiátrico, abalada emocionalmente e com crises de ansiedade, de acordo com informações apuradas pelo iG Delas.
Delegado descarta tentativa de feminicídio
Em entrevista ao Portal iG, o delegado Marcos Paulo Loures Meneses explicou por que o caso não foi enquadrado como tentativa de feminicídio. Segundo ele, a análise das circunstâncias e do comportamento do agressor não indica intenção de matar.
“Em momento algum cogitei o indiciamento por tentativa de feminicídio. O caso foi indiciado como lesão corporal qualificada por violência doméstica e isso não será alterado, pois ficou bem claro que o autor não teve a intenção de matar a vítima, até porque se ele tivesse essa intenção, já estando no andar do seu apartamento e ali havendo arma de fogo, ele simplesmente pegaria a arma e dispararia contra a vítima” , pontuou o delegado.
A autoridade policial fez referência a um episódio recente ocorrido em Natal (RN) , quando Igor Cabral foi preso em flagrante após golpear a namorada Juliana Garcia com 61 socos, todos concentrados na região da cabeça, mesmo após ela estar no chão.
“ O caso difere em muito do ocorrido em outro Estado, em que o autor desferiu 61 socos todos na região da cabeça da vítima. No caso destes autos, o autor cessou as agressões após a vítima estar caída. Apesar da violência das agressões, não há como se afirmar que ele tinha intenção de tirar a vida da vítima ”, concluiu.
Entre as próximas etapas da investigação no DF estão a obtenção do boletim registrado pela Polícia Militar, a solicitação do prontuário hospitalar da vítima para encaminhamento ao Instituto Médico Legal e oitiva de novas testemunhas . O prazo inicial para conclusão do inquérito é de dez dias, podendo ser prorrogado.
O retrato de um problema crescente
Os dois casos – no DF e no RN – jogam luz sobre um cenário preocupante. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que, em 2024, o país registrou 1.492 feminicídios, o maior número desde o início da série histórica, em 2015. Isso significa quatro mulheres assassinadas por dia, sendo a maioria (63,6%) negras e mortas dentro de casa (64,3%).
As tentativas de feminicídio também cresceram: foram 3.870 casos no último ano, alta de 19% em relação a 2023. Para especialistas, a violência é muitas vezes precedida por agressões físicas e psicológicas, que podem evoluir para ataques fatais.
Obstáculos e desafios
Além da subnotificação, o Brasil enfrenta desigualdade no acesso a mecanismos de proteção. Levantamento do Ministério da Justiça mostra que existem 488 delegacias especializadas no país, mas menos da metade (204) atendem exclusivamente mulheres, com forte concentração no Sudeste.
No Rio Grande do Norte, por exemplo, há apenas 12 delegacias especializadas para mais de 160 municípios.
Como buscar ajuda
Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados pelo Ligue 180, que funciona 24 horas por dia e oferece orientação sobre direitos e serviços da rede de atendimento. Situações de emergência devem ser reportadas imediatamente à Polícia Militar pelo 190. Também é possível acionar o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos via WhatsApp, no número (61) 99656-5008.