Desde que os protestos começaram, em abril, há denúncias de violência sexual contra mulheres cometida por policiais
JORGE CALLE
Desde que os protestos começaram, em abril, há denúncias de violência sexual contra mulheres cometida por policiais




Nas ruas desde abril,  após o presidente colombiano Ivan Duque propor ao Congresso reformas econômicas , manifestantes da Colômbia desde o começo dos protetos têm relatado violações contra os Direitos Humanos, entre eles  sumiço e tortura de 327 manifestantes na Colômbia  e pelo menos 113 denúncias de crimes sexuais registrados, segundo a ouvidoria oficial do governo daquele país.

A ONG Temblores, que monitora a violência policial, afirma ter recebido pelo menos 28 relatos de manifestantes vítimas de violência sexual por policiais. As mulheres estariam sendo forçadas a se despir diante de policiais, tendo seus corpos apalpados e sendo estupradas pelos agentes da segurança pública.

Apesar dos números, o Ministério Público está investigando somente sete denúncias de violência sexual por parte das forças de segurança. O caso que ficou mais conhecido na Colômbia é o da adolescente Alison Meléndez (17), que se suicidou em Popayán (Capital do departamento de Caucan), após ser estuprada por policiais durante uma manifestação.

Em entrevista ao BBC News, vítimas que não quiseram se identificar, revelam ameaças e violência verbal de gênero ao serem chamadas de vadias e outros termos pejorativos com demarcação de gênero. “Um grupo de cerca de oito policiais me cercou...Um deles disse: 'essa é boa para estuprar'”, relatou a vítima. 

A violência de gênero 

Para a professora universitária colombiana Angelita Lozano, da Universidade de Antioquia, também participante dos protestos, o abuso de gênero por parte da polícia tem se constituído como estratégia para afastar os manifestantes. "As manifestações são lideradas por jovens, mas nos últimos anos, 2018 a 2020, as mulheres ganharam muito destaque, principalmente nos protestos artísticos", comenta Angelita.

Ela salienta que durante os protestos, todas as pessoas correm o risco de serem feridas pela polícia com gases, jactos de água, chutes, armas, entre outras violências. Mas quando se trata de mulheres, as violências sexuais também são métodos de coerção política.

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O suicídio de Alison Meléndez marcou um novo ponto de indignação entre os manifestantes que impulsionam a greve nacional, que ocorre na Colômbia desde 28 de abril passado. Tudo indica que a jovem tentava gravar com seu celular o confronto entre os manifestantes e a polícia, levando a fúria de quatro agentes de segurança pública, que teriam dado um soco no estômago dela e arrastado para longe. 

Há um vídeo (abaixo) que relata o momento deste episódio em que a jovem é vista sendo levada à força por quatro homens da polícia. Conforme relatado pela Casa da Mulher, um coletivo feminista que zela pelos direitos humanos das mulheres, Alison Meléndez cometeu suicídio após sofrer atos de violência sexual por policiais. 


Como tudo começou?

protesto colombiano
EFE/ Carlos Ortega
protesto colombiano


A proposta sugerida pelo presidente Iván Duque para a arrecadação de bilhões de dólares até 2031, por meio de impostos sobre serviços essenciais e mercadorias, gerou uma forte explosão social.

Tais medidas, já suspensas, impactariam principalmente os setores mais pobres. Até esta quinta-feira (6), o número de mortes já somavam 24 vidas perdidas, de acordo com a Defensoria do Povo da Colômbia. Os protestos começaram em Bogotá, Medelín e Cali no último dia 29 e vários grupos ameaçam entrar em greve, como caminhoneiros e taxistas.


Para a professora universitária Luanda Sito, da Universidade de Antioquia, em Medellín, a agenda do protesto iniciou marcada por temas de juventude, que é uma parcela da população que se dispôs a ir às ruas mesmo diante do risco da pandemia, e também porque é um dos setores que mais sofre com a falta de trabalho. 

“As manifestações iniciaram pelo dia 27 de abril em comemoração ao dia do trabalho, tendo como pauta principal a falta de trabalho. Logo o Estado colombiano intercedeu com fortes violências, fazendo com que outros coletivos se somassem contra o tema da violência policial", explica a professora.

Para o coletivo de colombianas no Brasil, “Catarinas”, esta explosão social é resultado também de desconfortos históricos, relacionados às desigualdades sociais. “A explosão social é resultado de desconfortos acumulados, relacionados àquilo que prejudica o povo colombiano há décadas, e chega como uma manifestação consciente e pacífica por parte da população que, simplesmente, não concorda com as propostas”, divulgou o coletivo.

Portanto, embora a faísca que desencadeou os protestos em 28 de abril foi uma reforma tributária, com o passar dos dias outras reivindicações foram sendo acrescentadas. O confronto entre homens armados e grupos indígenas em Cali colocou em cena uma violência histórica que o país ainda não leva em consideração, o conflito racial. 

Cali, com 2,2 milhões de habitantes, a terceira maior cidade da Colômbia, foi a protagonista dos protestos contra o Governo. Nesta região, a presença indígena e afrocolombianas é alta. Muitos destes grupos têm bloqueado ruas e instalado acampamentos urbanos.

Apesar de Líderes dos protestos na Colômbia anunciarem a suspensão temporária das mobilizações para evitar mais mortes de jovens e mulheres pela polícia, o que tudo indica é que as manifestações e os problemas estruturais da Colômbia estão longe de chegarem ao fim.


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