Pesquisa mostra que restringir demais o acesso a determinados alimentos aumenta o interesse da criança e o consumo da comida que os pais estão tentando evitar

NYT

Pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia deram para crianças em idade pré-escolar a oportunidade de "trabalhar" em troca de guloseimas, clicando o mouse do computador quatro vezes para ganhar um biscoito sabor canela. Para receber mais, porém, o grau de dificuldade da tarefa foi aumentando: para a segunda bolacha era preciso oito cliques. Para a terceira, 16 e para a quarta, 32. (Veja, ao final da página, os 10 piores alimentos para crianças)

Embora práticas restritivas de alimentação sejam um tiro pela culatra, isso não significa que a criança deva ter acesso ilimitado a todo tipo de comida
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Embora práticas restritivas de alimentação sejam um tiro pela culatra, isso não significa que a criança deva ter acesso ilimitado a todo tipo de comida

Algumas crianças se mostraram satisfeitas depois de um biscoito só, enquanto outras continuaram clicando para ganhar mais. A grande maioria desistiu depois de quinze minutos, mas algumas prosseguiram e chegaram a dar dois mil cliques antes dos cientistas encerrarem o teste, depois de meia hora.

As crianças fortemente motivadas por comida ‒ a quem os pesquisadores chamaram de "comedores reativos" ‒ são as que mais interessam aos especialistas em saúde infantil. Elas nasceram assim ou será que a culpa é dos pais quando impõem muitas regras sobre alimentação e restrições em casa?

A resposta provavelmente está em um pouco de cada. A genética e a biologia influenciam em termos do tipo de comida que gostamos e no volume que consumimos. Ao mesmo tempo, estudos mostram que crianças que crescem em uma casa com hábitos restritivos, onde um dos pais está sempre fazendo dieta ou as guloseimas são sempre proibidas ou estão fora de alcance, geralmente desenvolvem reações mais fortes à comida e se servem mais dela quando a oportunidade se apresenta.

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Ainda em relação aos testes da universidade, às mesmas crianças que tiveram que se esforçar para ganhar os biscoitos, foram oferecidos dois tipos (Scooby-Doo ou Bob Esponja) na hora do lanche. Em cinco ocasiões, uma das bolachas era oferecida "de graça", enquanto a outra era colocada em um vidro com tampa e deixada de longe. A guloseima restrita ficou disponível durante cinco minutos apenas.

Obviamente foram elas que atraíram todos os pequenos, e os que se empenharam mais na tarefa do clique ‒ os "reativos" ‒ também foram os que reagiram mais intensamente ao alimento restringido.

Não só mostraram maior interesse como, ao serem servidas, pegaram mais biscoitos e comeram mais que as que tinham se mostrado menos interessadas na tarefa do clique do primeiro teste.

"A conclusão é a de que a restrição é contraproducente. Ela não funciona", afirma a pesquisadora Brandi Rollins, principal autora do estudo, publicado em fevereiro no Appetite. "Só aumenta o interesse da criança e o consumo do alimento que os pais estão tentando evitar".

Leann Birch, autora de vários estudos da universidade e professora de Nutrição da Universidade da Georgia, explica que pesquisas adicionais mostraram que aqueles que impõem regras alimentares altamente restritivas ‒ escondendo os doces, por exemplo ‒ tendem a ser os pais das crianças mais reativas no laboratório.

"É difícil falar em causa e efeito. Os pais respondem à reatividade da criança que, por sua vez, reage às regras e à predisposição genética geral. A única forma de interromper esse ciclo é tentando fazer os pais mudarem o comportamento".

Acesso ilimitado

Embora as práticas restritivas de alimentação sejam um tiro pela culatra, isso não significa que a criança deva ter acesso ilimitado a todo tipo de comida. Os pais devem saber que o controle excessivo pode desencadear uma compulsão, sim, mas a solução é controlar a qualidade da comida que se tem em casa.

Não adianta comprar refrigerante, doces e salgadinhos e esconder tudo na despensa. A solução é encher a casa de alimentos saudáveis, com acesso fácil às crianças, e um nível de controle coerente sobre o consumo. Na hora do lanche, por exemplo, ofereça a opção entre maçã ou laranja ou legumes com molhos diferentes.

"A regra alimentar básica deve levar em conta a qualidade para todos", afirma o David Ludwig, diretor do Centro de Prevenção à Obesidade da Fundação New Balance do Hospital Infantil de Boston.

Os pais não devem estabelecer regras diferenciadas para si mesmos nem permitir que o filho coma ‘junk food’ à vontade só porque é magro enquanto restringe a comida do irmão mais gordinho. Também não há motivo para se preocupar com o consumo excessivo de alimentos de alta qualidade. Por exemplo, é quase impossível se empanturrar de maçãs, mas basta transformá-las em purê ou suco para que aconteça algum tipo de exagero.

Um agrado especial fora de casa também não faz mal. "Leve a criança para tomar sorvete uma ou duas vezes por semana no shopping, mas não guarde um pote do alimento no freezer", ensina Leann Birch. David Ludwig observa que, com os filhos mais novos, os pais precisam mesmo estabelecer mais limites, mas os adolescentes devem ter mais liberdade na hora de comer.

"Não concordo com essa ideia de dizer a uma criança faminta que ela não pode comer isso ou aquilo. Na verdade, o nosso objetivo é permitir que a criança identifique e administre seu nível de saciedade. Se o corpinho dela diz que está com fome, a mãe não pode ignorar o fato ‒ é só prestar atenção à qualidade do alimento oferecido".

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