Os erros das homenagens no Dia Internacional da Mulher

Por Giovanna Tavares - iG São Paulo |

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Flores, chocolates e mensagens são presentes inofensivos. Mas, oferecidos sem reflexão, reforçam um ideal que destoa do real objetivo da data: a busca pela igualdade

A história se repete todo ano. No Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, a oferta de bombons, rosas vermelhas, perfumes e outros presentes considerados “femininos” aumenta consideravelmente. Porém, mais do que uma data comercial, o Dia Internacional da Mulher nasceu como um protesto contra a opressão feminina, proposto em 1910 por Clara Zétkin e Rosa de Luxemburgo, na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhague.

>> Veja na galeria algumas "homenagens" que acabam reforçando clichês:

As homenagens acabam caindo sempre no mesmo clichê: nesse caso, esqueceram que as mulheres também agem pela razão, como qualquer pessoa normal. Foto: ReproduçãoAlém de ser uma mensagem machista e recheada de estereótipos rasos, existe uma referência homofóbica sobre homens que atuam em profissões “de mulher” – outro preconceito. Foto: ReproduçãoA propaganda acredita que o que toda mulher (as felizes, alegres e de bem com a vida) precisa é de um guarda-roupa incrível. Foto: ReproduçãoUma das lutas das mulheres é justamente contra o estereótipo do ideal de beleza das passarelas e a obrigação de serem bonitas. Foto: ReproduçãoA vaidade é ressaltada como uma das primeiras ambições femininas. Foto: ReproduçãoA ironia é evidente nessa mensagem: uma série de direitos básicos são negados às mulheres, mas no dia 8 elas têm o direito de ser belas, amadas e de receber flores e beijos. Foto: ReproduçãoTudo o que remete ao universo feminino cai no clichê da sensibilidade, delicadeza, ternura e beleza. Faltou dizer que Amélia é que era mulher de verdade. Foto: ReproduçãoSensível e sexy, mas inteligente e guerreira: reforço do clichê da delicadeza. Foto: ReproduçãoToda mulher é delicada e, obrigatoriamente, deseja ser mãe? Mais um clichê pelo qual parabenizam as mulheres, o sonho da maternidade. Foto: ReproduçãoA 'homenagem' é padronizada logo na primeira frase, definindo o que é ser mulher. Cada mulher é única e determinar qualidades não homenageia. Foto: ReproduçãoEssa homenagem é voltada para as mulheres “que geram a vida com força e delicadeza”, excluindo aquelas que não desejam ser mães. Foto: ReproduçãoPor fim, a luta das mulheres é encarada do jeito mais banal e vazio o possível: tudo se resume a achar as chaves na bolsa. Foto: Reprodução

“A data representa a luta das mulheres por igualdade social, política e no mercado de trabalho, mas acabou sendo comercializada e banalizada. Muitas vezes, as propagandas veiculadas nesse dia acabam sendo extremamente depreciativas e abafam a discussão da desigualdade de gêneros”, atenta Lourdes Bandeira, socióloga da Universidade de Brasília e Secretária-Executiva da Secretaria de Política para as Mulheres.

Gentileza ou machismo?

A linha que separa o que é gentil do que é machista nas homenagens no Dia Internacional da Mulher se torna tênue à medida em que muitas das mensagens e presentes direcionados às mulheres acabam reforçando estereótipos ou comemorando uma situação de igualdade e empoderamento que, na realidade, ainda não existe por completo.

“A gentileza, a delicadeza e a generosidade podem acontecer a qualquer momento, não necessariamente dia 8 de março e não só para as mulheres, mas isso não pode tomar o lugar da discussão de que ainda temos muitas reivindicações pela frente. Não são atos negativos, exceto quando nos discriminam e reforçam um padrão único de mulher”, completa Lourdes Bandeira.

Exemplos de discriminação e sugestões de presentes que passam longe da gentileza são, por exemplo, as homenagens que tentam enaltecer qualidades tidas como obrigatoriamente femininas: delicadeza, esmero, beleza, fragilidade, vaidade, entre outras, que acabam padronizando as mulheres dentro de um ideal que precisa ser quebrado.

“Mesmo sem maldade, a pessoa pode acabar contribuindo para esvaziar o sentido da data. É importante retomar a importância da luta pelos nossos direitos, justamente para conscientizar as pessoas de que ela não existe para dar flores e presentes, nem para homenagear a beleza e a feminilidade”, acredita Aline Valek, escritora e feminista.

Rosas, chocolates e perfumes, por exemplo, são apenas presentes e não precisam ser encarados como atitudes machistas, mas não estão isentos da culpa. “Na verdade, o presente é um ato inconsequente. Não vou recusar rosas e chocolates, mas a questão é que sempre caem no clichê de nos parabenizar por sermos mulheres. Nas propagandas, a nossa luta se resume a encontrar a chave no meio da bolsa, a suportar a TPM e andar de salto alto”, afirma Lola Aronovich.

No fundo, os presentes e homenagens carregam uma intenção subjetiva. “Ao dar uma escova de cabelos, por exemplo, você está colocando a mulher em um estereótipo: a mulher feminina precisa ter o cabelo bem cuidado”, ilustra Lourdes Bandeira. Segundo ela, vale ainda outro exemplo, o de presentear a mulher com eletrodomésticos. “Remete ao estereótipo da dona de casa”, completa. Fica ainda pior quando a tentativa das propagandas ou mensagens é colocar a mulher no papel de heroína: mesmo sendo bem-sucedida profissionalmente, ela não deve “deixar de lado os cuidados com a casa, família e beleza”.

Celebrar e lutar

Aos poucos, alguns aspectos da desigualdade entre mulheres e homens vão sendo desconstruídos para dar lugar a uma sociedade com mais oportunidades e direitos iguais. O Dia Internacional da Mulher representa a luta por essa desconstrução, que não acontece em apenas um dia do ano, e sim ao longo dele. É uma data para recordar que ainda existe um longo caminho pela frente, mas também para celebrar as conquistas adquiridas até então.

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Mesmo que a presença das mulheres tenha aumentado no mercado de trabalho, persiste o senso comum de que a vida doméstica deve ficar por conta delas


Embora existam conquistas e avanços para comemorar, muitas coisas ainda precisam mudar para que o 8 de março seja, exclusivamente, um dia de celebração. Uma delas, de extrema urgência, é o feminicídio – pelo menos 15 mulheres são mortas por dia no Brasil vítimas de companheiros ou ex-companheiros, de acordo com os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplica.

“Ainda estamos numa situação péssima, ganhamos salários inferiores em relação aos homens, na mesma profissão e com o mesmo grau de escolaridade, fora outras situações de desigualdade. Por isso, é importante que seja um dia de reivindicações, para exigir que nossos direitos sejam respeitados”, ressalta Lola Aronovich, professora universitária e ativista feminista.

“Nós precisamos discutir todos os dias a violência, a diferença salarial, por que a mídia ainda nos estereotipa, porque a sensualização e a objetificação sempre nos atinge e nos desqualifica. Nesse dia, discussão deve ter ainda mais força”, alerta Lourdes Bandeira. O que percebo, felizmente, é que está havendo uma melhora, independente da condição socioeconômica das mulheres. Elas estão se engajando cada vez mais para derrubar essa cultura completamente desqualificadora”, completa.

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