Duas fotógrafas lançam projetos em que retratam o nu para questionar códigos sociais e religiosos

Despir-se pode ser uma forma de protesto ou de propor uma reflexão. Erica Simone, fotógrafa francesa radicada em Nova York, criou o projeto “Nue York” -- um trocadilho com “New York” usando a palavra francesa para “nu” -- para questionar a ditadura da moda no mundo moderno. E desde o ano passado a fotógrafa mórmon Katrina Barker Anderson retrata mulheres de sua religião como donas do próprio corpo.

Erica acredita que as roupas denunciam nosso status social. “Este projeto levanta o questionamento: ‘o que seríamos se não tivéssemos roupas para expressar nossa condição social, gostos e personalidades?’. Sem roupa, como comunicaríamos essa posição aos outros?”, explica ao Delas.

Para a fotógrafa, a moda é uma expressão criativa, não necessariamente relacionada a marcas e grifes. “Muita gente julga o outro com base no que este está vestindo. A moda é uma maneira de nos posicionar silenciosamente na sociedade”, completa. É aí que reside o impacto das imagens de alguém desempenhando tarefas corriqueiras sem roupa.

A nudez é um ato de protesto contra o pudor da retórica e cultura da igreja mórmon

Celebração

Já para Katrina, seguidora da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, os corpos nus devem ser vistos com naturalidade, pois são uma celebração da forma humana. “A teologia ensina que os corpos são criados à imagem de Deus, uma ideia que deve ser comemorada e honrada“, fala Katrina ao Delas.

Em seu atual projeto, intitulado “Mormon Women Bare” (em tradução livre, “Mulheres mórmons nuas”), Katrina produz ensaios para criticar a rigidez dos códigos da igreja em relação ao comportamento feminino. Desde 2012, ela já clicou 30 voluntárias, que escrevem um texto em tom de desabafo ao longo do ensaio fotográfico. “A nudez é um ato de protesto contra o pudor da retórica e cultura da igreja mórmon”, diz a fotógrafa.

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“Eu quero mostrar que o corpo nu das mulheres pode ser visto de uma forma não-sexual. A meta é apenas aceitar e apreciá-lo da forma como ele é”, defende ela.

Reações diversas

Apesar do corpo esbelto e cheio de curvas, o objetivo de Erica tampouco é ser sexy. Mas ela admite que sua forma física ajudou na repercussão do “Nue”. “É verdade que na sociedade moderna sexo e mulheres atraentes vendem mais revistas e jornais, então acho que o projeto pode ter tido uma vantagem nesse sentido”.

No entanto, ela garante que esse não é o propósito. Fotografar nua pelas ruas de Nova York (ela mesma produz os cliques com o disparador em mãos) provoca reações diversas.

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Katrina teve todo o apoio de seu companheiro para posar nua: 'Ele é meu maior fã'
Katrina Barker Anderson
Katrina teve todo o apoio de seu companheiro para posar nua: 'Ele é meu maior fã'

“O projeto é uma maneira para contemplar ou suscitar perguntas. Eu gosto de ver como as pessoas reagem a ele. Algumas ficam muito desconfortáveis com a nudez. Outras pensam que estou me exibindo. Cada um tem sua leitura e isso é o que realmente torna este trabalho interessante”.

Nas ruas, Erica ainda não testemunhou manifestações negativas. É mais comum risos e aplausos. Mas de modo geral, ela conta, a aceitação do trabalho tem sido grande. “Meus amigos e familiares têm pensamento liberal, mente e espírito abertos. Meus pais estão orgulhosos, acham engraçado que eu estou nos jornais”.

Já o projeto de Katrina vem em defesa das mulheres que não se encaixam no padrão de beleza atual. “A maioria de nós não se parece com as mulheres da mídia, que têm corpos perfeitos e ‘photoshopados’, e ainda assim são mulheres lindas. Eu quero que as mulheres, ao verem essas fotos, tenham mais compaixão por si mesmas”, diz Katrina.

Seu desejo é mostrar às mulheres como elas realmente são -- com suas cicatrizes , estrias, rugas e flacidez. “As mulheres fotografadas para este projeto questionam as mensagens culturais que recebemos diariamente. O objetivo das fotos é a aceitação e apropriação de seus corpos”.

Na comunidade mórmon nos Estados Unidos, a nudez das modelos incomodou alguns maridos. Para os mórmons, as mulheres têm que andar cobertas e seus corpos pertencem a Deus, não a elas.

“Eles têm um sentimento de propriedade e proteção sobre elas. Não querem que os corpos nus de suas mulheres sejam publicamente vistos”, diz Katrina, que também posou nua, e ao contrário, teve apoio de seu companheiro. “Ele é meu maior fã”, derrete-se.

Uma possível punição da comunidade mórmon não intimidou Katrina. Desde que se propôs a subverter os códigos, ela não recuou e pretende expandir as fronteiras. Voluntárias do mundo inteiro já se dispuseram a posar para as lentes da norte-americana. Será a próxima etapa do “Mormon Women Bare”. “Quando me propus a fazer esse projeto, decidi que não iria temer possíveis resultados negativos. Eu acredito no projeto de todo o coração e irei defendê-lo de qualquer membro da minha comunidade religiosa”, decreta.

Ideias poderosas

Katrina não tem ilusões de que sua iniciativa irá provocar uma mudança radical na igreja mórmon. Mas contenta-se em saber que está levando as pessoas a pensar e, quem sabe, a abrir suas cabeças.

“A ideia de recuperar nossos corpos da posse dos homens, da igreja, de Deus e dos nossos filhos é muito poderosa. Só percebi isso quando comecei a fotografá-las. É impressionante como [estas mulheres] partiram de uma condição vulnerável e se tornaram mais fortes e confiantes”.

O oposto acontece com Erica, que está acostumada a ficar nua em público, mas se sente desprotegida quando seus ensaios são replicados por toda internet. “Quando vejo a dimensão e a repercussão na rede, me sinto muito mais exposta do que pelada nas ruas”. Mas nada que a paralise: “Existe uma sensação de liberdade em ser tão aberto e honesto”.


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