Dois estudos mostram disparidades: um diz que 71% das casadas não têm ajuda em casa e outro aponta que elas ganham 72,7% do salário deles

As paredes das casas brasileiras ainda representam sólidas barreiras para homens e mulheres desempenharem as mesmas funções recebendo salários compatíveis por elas. O século é o 21, o ano 2013, mas a informação acima é validada por duas pesquisas recentes sobre as desigualdades no trabalho vivenciadas pelo sexo feminino dentro e fora das residências.

Um dos estudos, elaborado pelo Instituto DataPopular, entrevistou 800 mulheres de todas as regiões do País e mostrou que 71% das casadas não têm nenhuma ajuda dos companheiros para lavar, passar, limpar e cuidar dos filhos. O outro, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), evidencia que fora do ambiente doméstico os salários pagos às trabalhadoras representam 72,7% do valor pago aos homens.

Desigualdade de salário pode ter raiz na divisão também desigual das tarefas domésticas
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Desigualdade de salário pode ter raiz na divisão também desigual das tarefas domésticas

Para o economista Renato Meirelles, especializado em mercados emergentes e diretor do DataPopular, os dois dados estão associados e um funciona como combustível do outro.

“Ou a profissional não se dedica da forma como gostaria ao mercado formal ou tem de abrir mão dos avanços na profissão por conta da sobrecarga que tem em casa”, avalia ele, que realizou o levantamento em parceria com o Instituto Feminista para a Democracia.

“Isso aumenta a rotatividade das mulheres nos postos de trabalho e contribui para que a mão de obra feminina, que tem se capacitado cada vez mais em cursos, faculdades e pós-graduação, não chegue aos postos de gerência e cargos de chefia em condições semelhantes à dos homens, inclusive do ponto de vista salarial”, completa Renato Meirelles. “É muito ruim para a economia de um país em plena ascensão como o Brasil.”

“Desde que”

Para Verônica Ferreira, antropóloga e pesquisadora do Instituto Feminino para a Democracia, está enraizado na cultura que “executar tarefas caseiras” é um verbo conjugado somente por sujeitos femininos. “É uma resistência estrutural que toca no machismo. Os homens não querem assumir as atividades porque o tempo é dedicado a outras questões, como o lazer”, afirma a pesquisadora.

Segundo ela, ficou incorporado que a mulher pode trabalhar fora de casa desde que dê conta da dupla jornada. “Se há um problema com a criança, por exemplo, o problema é da mãe. Na nossa pesquisa, mesmo entre as poucas mulheres que têm ajuda dos companheiros, a tarefa deles é fazer compras no supermercado”, ilustra.

O resultado do acúmulo de funções pode ser medido pelos algarismos diferentes nos holerites femininos e masculinos, mas também em outras áreas.

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As pacientes femininas são mais numerosas nos índices de estresse e depressão (na proporção de dois casos para cada homem) e um dos motivos listados pela Associação Brasileira de Psiquiatria é justamente a sobrecarga de funções.

“No trabalho remunerado, não raro, as mulheres se inserem em posições mais precárias para conseguir dar conta dos filhos. Nossos dados mostram ainda que 90% delas cuidam da casa no tempo livre e que uma em cada cinco não tem nenhuma atividade de lazer”, diz Verônica.

Na disputa por reconhecimento, mulheres ainda estão abaixo dos ganhos salariais dos homens
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Na disputa por reconhecimento, mulheres ainda estão abaixo dos ganhos salariais dos homens

Soluções

O ciclo que fomenta a divisão desigual das tarefas domésticas também tem a contribuição das próprias mulheres, como atestou pesquisa da Fundação Carlos Chagas, realizada em 2008 com a revisão de todos os documentos nacionais e internacionais sobre o trabalho feminino.

Na publicação, os autores ressaltaram que “no geral, as mulheres culpam as mães dos maridos (pelas divisões desiguais nas tarefas domésticas) mas às vezes reproduzem o mesmo comportamento com seus maridos e filhos”.

80% das meninas de 10 a 14 anos disseram cuidar de afazeres domésticos, enquanto 41% dos meninos da mesma idade tinham esta atribuição

Para sustentar esta afirmação, os pesquisadores trouxeram dados da PNAD 2002 (Pesquisa Federal de Análise de Domicílios): 80% das meninas de 10 a 14 anos responderam “sim” à pergunta “cuida de afazeres domésticos?”, mas somente 41% dos meninos da mesma faixa etária disseram ter esta atribuição.

O caminho para equilibrar as tarefas domésticas, de acordo com os especialistas, é educar meninos e meninas com a responsabilidade destas funções igualmente distribuídas, sem questões de gêneros. Mas não só isso, ressalta Verônica Ferreira.

“O poder público e as empresas também precisam atender a esta demanda. Vagas em creche, instituições que cuidam de idosos, horários de funcionamento de lavanderias, tudo isso contribui para que a responsabilidade doméstica deixe de ser feminina e passe a ser dividida”.

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