Apaixonados têm dificuldade em lidar com as histórias antigas de seus parceiros e gostariam de apagar experiências anteriores

Síndrome do carro zero: diferente do automóvel novo, um amor já vem com quilômetros rodados
Getty Images
Síndrome do carro zero: diferente do automóvel novo, um amor já vem com quilômetros rodados
Aceitar que o parceiro já viveu outras experiências sexuais e amorosas pode ser difícil para os apaixonados. Acostumado com as queixas de seus pacientes, o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, autor do livro “Ciúme - O Lado Amargo do Amor” (Editora Ágora), dá nome e sobrenome para o ciúme do passado: síndrome do carro zero. E ele explica: “Faz parte da nossa cultura latina esse desejo de ser o primeiro”, diz. Mas diferente do automóvel novinho, um amor pode vir com muitos quilômetros rodados.

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Em 30 anos de profissão, o psicanalista Alfredo Simonetti conheceu poucas pessoas que aceitavam numa boa as vivências antigas de seus parceiros. Segundo ele, o ciúme do passado é mais comum do que se imagina e, geralmente, vivido por indivíduos conscientes do absurdo que isso possa parecer.

O médico defende que não sofrer pelas antigas vivências do parceiro é sinal de extrema maturidade, mas tal racionalidade desaparece quando estamos apaixonados. Isso acontece porque as emoções são atemporais. Imaginar quem a gente ama com outra pessoa no passado pode ser tão doloroso quanto enxergar a cena no futuro ou no presente. Assim, é preciso domar os sentimentos aflorados para evitar criar problemas.

Na novela “Insensato Coração”, trama do horário nobre da Rede Globo, o casal formado por Carol (Camila Pitanga) e André (Lázaro Ramos) sofre duplamente pelas vivências amorosas e sexuais vividas pelo o outro. Ela tem ciúme da antiga “peguete” do rapaz, e ele não suporta encontrar o ex-namorado dela.

Carol e André vivem em conflito por conta dos antigos relacionamentos
Rede Globo/Divulgação
Carol e André vivem em conflito por conta dos antigos relacionamentos
Para Ferreira-Santos, os homens sofrem até mais do que as mulheres com isso. E as aflições são diferentes entre os gêneros. Enquanto eles têm medo da comparação sexual, as mulheres sofrem ao imaginar que o atual parceiro já amou com maior intensidade. “Se o namoro anterior tiver acabado por escolha da ex-namorada, então a atual sente ainda mais ciúme”. Isso porque logo vem a ideia de que ele ainda deve amá-la, mas não teve escolha.

Lindando com o passado
O filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (2004) mostra como seria se pudéssemos simplesmente passar uma borracha no passado. Mas, enquanto isso não faz parte da realidade, precisamos aprender a lidar com as lembranças.

Os especialistas concordam que os pequenos detalhes de histórias antigas podem estimular ainda mais a insegurança do ciumento, resultando numa autotortura sem fim. Dessa forma, não dê detalhes e muito menos queira saber pormenores de como era a relação anterior. Se o seu atual perguntar, apenas responda genericamente. “Não responder nada também é perigoso. Vai dar margem para a imaginação”, lembra Simonetti. Omitir informações não significa mentir. “Muitas pessoas mentem pra não machucar o outro e depois acabam caindo em contradição”, alerta Ferreira-Santos.

Em busca de segurança também é comum que os parceiros estimulem o outro a falar mal do antigo namoro, o que pode acabar em frustração. Afinal, as pessoas namoram por desejo próprio e, obviamente, devem ter vivido bons momentos. “Quem procura, acha. Nenhum relacionamento é 100% ruim ou 100% bom”, explica Simonetti.

Falar demais sobre a “ex”, mesmo que seja com raiva, pode esconder um sentimento a ser superado. Contudo, essa é apenas uma suposição. Não existe dica nem receita para diferenciar delírios infundados de um real envolvimento emocional com pessoas do passado. O jeito é dialogar em busca de certezas e, além disso, observar o próprio comportamento: baixa autoestima, insegurança exagerada e pensamentos repetitivos podem denunciar um problema maior.

A coisa complica quando a pessoa do passado não vai embora – por ser amiga ou mãe do filho dele. Nesse caso, cabe a quem está no meio do fogo cruzado se colocar no lugar do outro e evitar agravantes.
Algumas pessoas até se sentem vaidosas pelo ciúme do parceiro – comentam em público, provocam crises –, mas não sabem quanto isso é prejudicial para a felicidade do casal. É preciso que os dois lados contribuam para a construção de uma história feliz.

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