"O futebol é uma paixão nacional" é uma frase que você já deve ter ouvido por aí, mas a verdade é que nem todo mundo gosta do esporte e, quando o parceiro é apaixonado por ele, problemas podem começar a aparecer

A jornalista Gabrielle Larissa Cintra, de 23 anos, e o vendedor Edson Marcelo dos Santos, de 48, são dois apaixonados pelo futebol. Eles não se conhecem e nem mesmo são torcedores do mesmo time - ela do Palmeiras e ele do Corinthians -, mas ambos já sofreram com a falta de entendimento dos outros sobre seu amor pelo esporte. Mas será que pensamentos como “ai, mas é só um jogo ”, “são só 11 caras correndo atrás de uma bola” ou “você sofrendo e eles nem te conhecem, ganhando milhões” podem atrapalhar um relacionamento?

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Para a jornalista Gabrielle Cintra, quando o relacionamento está sendo interferido pelo jogo, está na hora de conversar
Arquivo pessoal
Para a jornalista Gabrielle Cintra, quando o relacionamento está sendo interferido pelo jogo, está na hora de conversar

No caso de Gabrielle, ela já alerta: se tivesse de fazer uma escolha entre um relacionamento e o time, não há dúvidas, escolheria o Palmeiras. “Acho que as pessoas que falam esse tipo de coisa não conhecem o futebol , não sentem a emoção que a gente sente. Não é só um jogo, nunca vai ser. Pode até ser sem emoção , mas nunca vai ser só mais um jogo, e queremos a vitória sempre”, explica em entrevista ao Delas .

A jovem é palmeirense desde que nasceu, um amor que vem de família. No começo, Gabrielle confessa que o interesse surgiu porque ela achava os jogadores bonitos, mas não menospreze este início, já que isso fez com que a moradora de Valinhos, no interior de São Paulo, passasse a prestar mais atenção no esporte.

Gabrielle já até faltou no trabalho para conseguir acompanhar os jogos do seu time do coração
Arquivo pessoal
Gabrielle já até faltou no trabalho para conseguir acompanhar os jogos do seu time do coração

Em 2009, ela assistiu a seu primeiro jogo, e aí não parou mais. Em 2010 e 2011, viu mais alguns, e quando fez 18 anos, em 2012, passou a ir de fato aos estádios. Começou a frequentar a torcida organizada do Palmeiras e, hoje, se considera uma torcedora fanática. “Saio todo jogo de Valinhos e levo uma hora para chegar em São Paulo. É sempre uma luta para conseguir carona, mas sempre venho. Hoje, tenho tatuagem do Palmeiras e até o hino gravado na parede.”

A jornalista, que já se relacionou com outros apaixonados pelo futebol, acha que ter alguém com quem possa dividir essa paixão é bom porque nunca vai ter alguém para proibir o outro de fazer o que gosta. Entretanto, ela ainda sofre um pouco com o pai, que, apesar de também ser torcedor do mesmo time, não aprova 100% todo o empenho que a filha tem pelo Palmeiras.

“O meu pai tem orgulho do que eu me tornei como torcedora, mas ele não admite para mim. Ele vai me criticar, mas eu entendo isso como cuidado, porque nos jogos a maioria é sempre homem, tem as brigas e, principalmente por eu ser mulher, ele tem esse zelo.”

Gabrielle sabe que por ser mulher é vista de forma diferente nos estádios ou como torcedora mesmo. No caso das mulheres que gostam de futebol, mas que o companheiro não apoia, a jornalista aconselha levar o parceiro a um jogo, mesmo que não sejam do mesmo time, para realmente conhecer o ambiente. “É preciso tirar a visão machista de que mulher não pode frequentar estádio. Tem homem que vai olhar, mas também tenho muitos amigos homens que não me desrespeitam.”

Marido e mulher

Às vezes, as mulheres se sentem
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Às vezes, as mulheres se sentem "jogadas de lado" por conta do futebol – os parceiros não prestam atenção em mais nada

O vendedor Edson também acredita que o melhor caminho seja mostrar para o parceiro ou parceira a paixão pelo jogo e explicar melhor como é esse sentimento. Ele brinca que a importância do jogo do Corinthians para ele é como o horário no salão de cabeleireiro para a esposa. “Se não chega na hora para levá-la, é um absurdo”, explica. O morador da capital acha que deve haver diálogo entre o casal para que esse amor pelo futebol seja entendível e não taxado como loucura.

Assim como Gabrielle, o envolvimento com o futebol começou por conta da família. Ele via o pai, que sempre foi corintiano, jogar bola, e bastou para que também se interessasse pelo jogo. “Hoje, estou mais tranquilo, mas quando era mais novo era muito fanático. Ia a estádio, passava o dia inteiro acompanhando. Hoje, eu ainda não perco um jogo, mas mais pela internet ou televisão.”

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Ele acha um absurdo quando as pessoas menosprezam o amor pelo futebol porque é um sentimento formado desde a infância. Como Gabrielle, nunca é só um jogo, e os torcedores querem ganhar sempre e ficam chateados quando o time perde – e Edson não deixa de enfatizar que, mais do que para os torcedores de outros times, para o torcedor do Corinthians nunca é só um jogo.

A esposa do vendedor é uma das pessoas que já soltou a famosa frase “são apenas onze caras correndo atrás de uma bola”. A crítica é pelo fato de Edson não prestar atenção em mais nada quando começa o jogo, mas isso nunca foi motivo de uma briga mais séria. “Ela fica chateada, mas depois eu peço desculpas, a gente conversa e tudo fica bem.”

Basta só conversar?

Além de conversar com o parceiro, é preciso também entender o que motiva o desgosto pela atividade que o outro gosta
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Além de conversar com o parceiro, é preciso também entender o que motiva o desgosto pela atividade que o outro gosta

A coach de relacionamento Miria Kutcher afirma que o desentendimento em relação ao amor pelo futebol pode, sim, afetar o relacionamento entre duas pessoas. A especialista alerta que, para a pessoa que gosta do esporte, essa é uma parte muito importante para a vida dela.

“Um relacionamento saudável é o que casal compartilha dos mesmos interesses, não completamente todos, mas se entende na minoria que não compartilha”, explica Miria.

Entretanto, a coach acha engraçado o fato de ambos os torcedores acharem que basta uma conversa para amenizar a situação, já que esse “desgosto” pelo futebol pode ter causas bem mais profundas. É preciso entender o que desencadeia a falta de interesse pela atividade ou que causa esse sentimento ruim em relação ao gosto do outro – seja com o futebol, com a pesca com os amigos ou qualquer outra paixão.

“O ‘buraco’, às vezes, é mais embaixo. O problema muitas vezes não é o jogo. Quando a gente está feliz em um relacionamento, a gente atravessa o mundo com o outro. É preciso analisar o quanto essa situação tem mesmo a ver com o jogo”, alerta a coach. “É bom ser autêntica e falar a verdade para si mesma: o que me impede de fazer com meu parceiro o que ele gosta de fazer? O que me impede de curtir esse jogo? Será que é só o jogo mesmo?”

Miria já foi indagada várias vezes sobre como fazer a pessoa mudar de gosto, mas não é bem por aí. “A verdade é que ninguém muda ninguém. É perder tempo em um relacionamento se você acha que a pessoa vai deixar de fazer o que gosta, vai deixar de ir em um jogo para fazer outra coisa.”

Machismo

No caso das torcedoras do sexo feminino, também existe a pressão do machismo e os achismos de que mulher não pode fazer isso ou aquilo. Novamente, Miria alerta que, em um relacionamento que está dando certo, ambos os parceiros estão felizes um com o outro. É errado impedir alguém de fazer o que gosta por pura pressão sexista, mesmo que exista uma preocupação em relação à presença de uma mulher em um ambiente dominado por homens.

“A ideia é a seguinte: mesmo sem gostar tanto, eu gosto do que traz felicidade ao outro. Eu não gosto disso, mas sei que é importante para a parceira ou parceiro.”

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É preciso respeito e compreensão de ambas as partes. Primeiro de tudo, aconselha a especialista, saiba que ninguém no mundo vai te completar exatamente do jeito que você acha – isso, para Miria, é pura fantasia. Depois, avalie o que é negociável dentro do relacionamento. “A pessoa pode negociar o amor do parceiro pelo time toda semana, mas não o uso de drogas”, exemplifica a especialista. “Cada um deve saber o quanto pode abrir mão de uma coisa, porque relacionamentos são assim, não de outra forma.”

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