Absorventes ecológicos conquistam as brasileiras

Quantos absorventes descartáveis uma mulher usa durante a vida? Confira a opção ecológica

Qual é o impacto que eles provocam sobre o meio ambiente? Por que a menstruação é vista como algo incômodo? Questionamentos como estes têm levado muita gente a buscar alternativas para atravessar o momento mais delicado do mês, como o coletor menstrual, um copo de silicone acoplado ao colo do útero manualmente e que pode ser reutilizado. As usuárias brasileiras garantem: os benefícios não são apenas ambientais, mas também físicos e financeiros.

Bastante difundido na Europa, o coletor ainda não é fabricado no Brasil mas começa a ganhar espaço por aqui por meio de revendedoras. Este é o caso da artista plástica Juliana Ventura, 26 anos. Ela, que começou a importar o produto do Reino Unido para uso próprio, hoje recebe encomendas de várias partes do País. "Fico mais confortável, colaboro com o meio ambiente e, a cada ciclo, pratico autoconhecimento. Mesmo as mulheres que começam a usá-lo com o objetivo sustentável resgatam uma ligação mais íntima com a natureza do corpo", acredita.

 Além de revender o coletor da Mooncup (uma das marcas mais conhecidas no segmento), Juliana ainda fabrica uma nova versão dos antigos absorventes de pano: os ‘abiosorventes’, que agora vêm bordados, coloridos. "Conheço mulheres que usam apenas o de pano. Eu prefiro só o coletor. A escolha depende da adaptação", diz.

A terapeuta corporal Bárbara Bolzani, 25 anos, usa o coletor há um ano e meio e diz que após um ou dois ciclos o corpo se adapta ao produto. "Sinto-me mais segura do que com o descartável, tanto em relação a vazamentos quanto na questão do conforto", relata.

Para simbolizar o resgate da natureza feminina, Bárbara despeja seu sangue na terra, prática adotada por muitas usuárias do coletor. "Poderia ser no ralo, mas opto por cultuar minhas funções femininas, então jogo no meu vaso de planta preferido", diz ela, que também usa os absorventes de pano. "O importante é ser ecológico", completa.

A artista plástica portuguesa Ana Pomar, 27 anos, conta que encontrou no coletor, há cinco anos, "tudo o que procurava". E indica o produto sem receios. "Não gostava da ideia do absorvente de plástico, com substâncias químicas e cheiro. Com o coletor tenho mais consciência das funções do meu corpo. Queria que todas as minhas amigas usassem também", declara.

Doutora em antropologia social pela Unicamp, Daniela Tonelli Manica explica que o coletor tem relação com o movimento ecofeminista, que traduz a preocupação com o meio ambiente e com o resgate da natureza feminina. "É uma resposta de como o corpo feminino é visto, mas ainda não tem força no Brasil", analisa.

Segundo Daniela, embora o sangue da primeira menstruação (menarca) tenha um simbolismo de passagem para o estágio de fertilidade, os outros ciclos estão associados a conceitos negativos. "Quando nos cortamos as pessoas não sentem nojo, mas o sangue da menstruação causa constrangimento ao ser visto", diz.

Saúde

Sob o ponto de vista médico, o coletor não tem contraindicações conhecidas. O ginecologista José Carlos Sadalla, do Hospital Sírio-Libanês, explica que os poucos estudos relacionados ao produto mostram que ele pode ser mais seguro que o absorvente descartável em relação a vazamentos. "Tudo depende da forma de uso. É uma questão de adaptação em relação ao conforto", diz ele, que acredita que o risco de alergias também é menor. "Sobretudo se comparado a produtos com aromas, que têm mais substâncias químicas".

Sadalla acredita que o coletor menstrual pode não fazer sucesso entre as brasileiras, assim como o diafragma não fez como contraceptivo. "As mulheres aqui ainda têm pudor em tocar a própria região genial, mesmo que seja para aplicar um produto como este", detalha.

Para o ginecologista Claudio Emílio Bonduki, professor do Hospital Universitário da Unifesp, o coletor menstrual é uma ótima alternativa para mulheres alérgicas. "Também é de fácil higiene. Mas, na dúvida de como colocar, por exemplo, é melhor levar ao médico", indica.

Intimidade Ecológica

Um absorvente, que contém plástico em sua composição, um dos piores inimigos do meio ambiente, leva pelo menos 100 anos para se decompor - isso sem contar a embalagem do pacote. E o perigo não para por aí, garante o consultor ambiental Maurício Waldman. "Degradando-se, o material fica invisível, mas não desaparece", afirma.

De acordo com o consultor, a iniciativa das adeptas do coletor e a adoção dos absorventes de pano são atitudes que fariam diferença para o meio ambiente. "As pessoas associam muito o problema ecológico ao lixo doméstico que, na verdade, só corresponde a 2,3% do total produzido no mundo. Os resíduos da fabricação e descarte das embalagens de plástico são muito piores", diz.

Não basta, porém, ser ecológica sete dias por mês e esquecer de outras atitudes importantes. "O mundo está mudando de maneira impactante", analisa.

Aprenda :

- O absorvente ecológico é um copo de silicone usado internamente, como um absorvente, mas que coleta o fluxo em vez de absorvê-lo
- Pode ser usado durante 10 anos
- O material veda a parede vaginal impedindo vazamentos
- O fluxo passa direto para o coletor e não deve provocar odor
- É fabricado no exterior, a marca mais conhecida e importada por aqui é a Mooncup, do Reino Unido. O produto pode ser adquirido por R$ 75 (preço médio)
- Dependendo do fluxo é preciso retirar o coletor a cada 4 ou 8 horas. Em seguida, basta enxaguá-lo e inseri-lo outra vez
- Após o ciclo, lave o produto como se fosse um bico de mamadeira. Aprenda como no site da Mooncup
- Há dois tamanhos: A (para quem teve parto normal, cesárea ou tem mais de 30 anos) e B (para quem não engravidou e tem menos de 30 anos)

Serviço:
Mooncup
Abiosorventes (de pano)

Por Marcela Rodrigues Silva

Link deste artigo: https://delas.ig.com.br/saudedamulher/absorventes-ecologicos-conquistam-as-brasileiras/n1237698084977.html