
“Mas você não é todo mundo.” Certamente, qualquer adulto já ouviu essa frase em algum momento da vida, especialmente durante a infância e a adolescência. Quando mais novos, não entendíamos a lição poderosa sobre a singularidade da criação que esta expressão simples e corriqueira carregava. “Não ser todo mundo” reflete o quanto cada vivência familiar ajuda a moldar valores e comportamentos únicos durante a infância.
De acordo com a psicopedagoga Alessandra Rogel , ressaltar a importância da individualidade e autonomia durante a primeira infância é essencial na jornada de desenvolvimento de valores importantes, tornando a criação cada vez mais consciente e menos influenciada pelas divergências de outras rotinas.

“ Nenhuma criança é igual, assim como nenhuma criação também. Os pais vivem essas diferenças na pele e no dia a dia” , complementa.
Esse e outros ensinamentos fazem parte das reflexões que dedicamos aos pais a seguir. Com eles, esperamos que as famílias possam criar dinâmicas que elevam a autoestima e segurança dos pequenos. Confira:
Ensinamento 01: “O tempo e a organização é uma responsabilidade de todos nós”
Nessa lição, o dialogo e a inclusão de crianças e adolescentes no gerenciamento do tempo familiar pode vir a ser uma estratégia eficaz na promoção de um senso de organização e de responsabilidade para os pequenos.
Segundo Alessandra, essa inclusão consciente contribui no fortalecimento de laços familiares , no desenvolvimento da autonomia e também na criação da autoestima, tão importante nesses primeiros anos de vida.
“Comece com pequenas responsabilidades , como organizar os brinquedos ou arrumar a cama . Isso incentiva o senso de responsabilidade , a importância da autonomia, tanto individual quanto coletiva, especialmente para aqueles que dividem espaços com irmãos e outros familiares”, explica Rogel.

Para a especialista, abrir mão de realizar algumas tarefas pelos filhos também se torna essencial em dado momento, principalmente para os adolescentes, afim de evitar relações de extrema dependência emocional e comportamental .
“Evitar fazer tudo por e com eles pode ser difícil, porém, isso os ajuda a entender o real valor de completar tarefas sozinhos. Não se trata de terceirizar responsabilidades ou de criarmos ‘pequenos adultos’ , mas sim de desenvolver autoconfiança para lidar com desafios mais complexos no futuros”, diz.
Ensinamento 02: “Faça no seu ritmo, no tempo que precisar”
Cada criança tem seu próprio ritmo, e respeitar esse aspecto é fundamental para fortalecer habilidades como a paciência e a concentração . Ignorar esse processo, segundo Alessandra, pode limitar o potencial de desenvolvimento cognitivo e emocional, gerando ansiedade .
“Em vez de os compararmos com outras crianças ou pressioná-los a se ajustarem a padrões externos, como expectativas de alto rendimento, é essencial oferecer um ambiente de aprendizagem que respeite as necessidades individuais . Isso inclui explorar diferentes métodos de ensino e adaptação”, explica Rogel.

“Independentemente da forma como cada um aprende, é essencial permitir que as crianças se desenvolvam no próprio tempo. Não queremos criar crianças ansiosas por não atingirem boas notas ou por não serem boas em determinadas atividades. O tempo gera lições valiosas”, conclui.
Ensinamento 03: “Sua escolha é importante. Qual ou o que você prefere?”
Permitir que crianças e adolescentes tomem decisões apropriadas para sua idade , como escolher roupas, atividades ou refeições, é um passo importante na construção da autonomia.
Segundo Rogel, oferecer esse espaço desde cedo não apenas desenvolve a autoconfiança, mas também prepara os jovens para decisões mais complexas nos anos seguintes. “Perguntar ‘O que você acha que seria melhor fazer agora?’ é um ponto de partida eficaz. Essa prática estimula a formação de opiniões sólidas, que serão fundamentais para lidar com situações de medo, tristeza, vergonha ou perigo”, explica a especialista.
Além disso, a prática de tomar decisões colabora para o fortalecimento da inteligência emocional , habilidade de equilíbrio que durante a infância ajuda a gerenciar emoções de forma cada vez mais independente, reduzindo a necessidade de validação externa.
Ensinamento 04: “Os seus sentimentos são importantes. O que você está sentindo?”
Por fim, ensinar os filhos a reconhecer, compreender e expressar suas emoções é um pilar fundamental para o desenvolvimento da autonomia emocional e social. Essa prática vai além de apenas ouvir o que a criança tem a dizer; é um exercício de construção de um vocabulário emocional .
“É preciso ajudar a identificar e nomear os sentimentos , pois entender o que estão sentindo e as razões por trás dessas emoções revela muito sobre o que estão vivenciando e como estão processando essas experiências”, afirma a psicologista.

Essa abordagem promove não só a construção inicial da inteligência emocional, mas também os prepara para lidar com situações de frustações e perdas.
“Quando uma criança aprende, por exemplo, a dizer ‘estou frustrado porque perdi no jogo’ ou ‘estou triste porque não consegui o que queria’, ele também aprende a lidar com a situação de maneira construtiva. Essa capacidade de identificar emoções ajuda na autorregulação e evita que sentimentos negativos sejam internalizados ou mal compreendidos”.
E aí, qual desses conselhos você daria para o seu eu do passado?
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