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Proibição causa polêmica e levanta discussão: como controlar os filhos em lugares públicos? Leia dicas de especialistas e dê sua opinião

Crianças em restaurantes: o programa nem sempre é infantil
Getty Images
Crianças em restaurantes: o programa nem sempre é infantil
No início da semana passada, um restaurante norte-americano ganhou as manchetes dos jornais ao proibir a entrada de crianças menores de seis anos. O proprietário do restaurante explicou que o volume dos pequenos não pode ser contido e, muitas vezes, acaba perturbando outros clientes. O ato, perfeitamente legal nos Estados Unidos, levantou a discussão: até que ponto as crianças podem ser controladas em público?

Mike Vuick, proprietário do restaurante, diz não ser um "inimigo das crianças". Casado há 42 anos, embora sem filhos, ele foi professor por nove e está acostumado a receber equipes esportivas colegiais que treinam no clube onde funciona o restaurante. “Pensei a respeito da proibição por dois anos”, conta. Mike afirma ter tomado a decisão definitiva ao observar quatro fatores: os pais traziam bebês cada vez mais novos ao restaurante; as crianças entre um e cinco anos se comportavam cada vez pior; os pais mostravam cada vez menos disposição para controlar seus filhos e, por fim, as reclamações dos outros clientes – que muitas vezes haviam tido o cuidado de deixar os próprios filhos em casa com uma babá para ter um jantar mais tranquilo – só cresciam.

“Quando uma criança ficava fora de controle, eu pedia, educadamente, para os pais saírem do salão por alguns momentos até que ela se acalmasse”, explica Vuick. “Mas era recebido com olhares de estranhamento”. De acordo com Ana Gabriela Andriani, psicoterapeuta de casal e família, cabe aos pais conterem seus filhos – embora a tarefa seja mais difícil quando a criança não tem limites. “Muitos pais têm essa dificuldade por acharem que impor limite é sinônimo de desamor, mas não é. A criança precisa de regras”, diz Andriani.

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Mas nem sempre a criança malcomportada no restaurante é uma criança sem controle. “A percepção de tempo da criança é diferente da percepção do adulto. Nós temos uma demarcação cronológica do tempo, enquanto para a criança o tempo é o do infinito”, afirma a especialista. Por isso, é difícil que ela chegue ao restaurante, sente, se alimente, converse com os que estão à mesa e vá para casa tranquilamente. O mais comum é a criança viver aquele momento como se nunca mais fosse acabar. E se o momento é muito chato, ela vai querer fazer qualquer coisa para escapar.

Cabe aos pais – e não exatamente ao restaurante – prestar atenção e tomar a iniciativa para resolver o problema. Afinal, crianças são crianças e é bem difícil deixá-las quietinhas em um lugar e pedir que se portem como adultos em miniatura.


Ercy com os filhos Sarah e Gabriel: a família evita ir a restaurantes por causa do comportamento da caçula
Arquivo pessoal
Ercy com os filhos Sarah e Gabriel: a família evita ir a restaurantes por causa do comportamento da caçula
Dança das cadeiras


Em um restaurante, portanto, o interminável subir e descer da cadeira pode ser só o começo da bagunça. É o caso de Sarah, de três anos. Segundo a mãe, a autônoma Ercy Borba, de 49 anos, a família só pode ir ao restaurante se montar um revezamento: enquanto um come, o outro cuida da menina. “Ela é um tsunami, não consegue ficar na mesa pra comer. Ela quer andar, ir à mesa dos outros para conversar, atrapalha as outras crianças que estão comendo, sobe e desce da cadeira milhões de vezes”, conta. Ao levar bronca da mãe por não se comportar adequadamente, no entanto, abre o berreiro e faz escândalo.

“Ela tem um comportamento irregular e não é por falta de represália”, diz Ercy. Ao contrário de Gabriel, o filho mais velho de Ercy, que sempre se portou como “um lorde inglês”, na definição da mãe. A família deixou de ir a restaurantes por causa do mau comportamento de Sarah. E as áreas de recreação oferecidas por muitos estabelecimentos não adiantam: aos três anos, ela ainda não tem idade para brincar nessas áreas sem a supervisão de um adulto.

Entretenimento e respeito aos limites

De acordo com Luciana Blumenthal, psicoterapeuta da Elipse Clínica Multidisciplinar, os pais devem ser os primeiros a se preocupar com o entretenimento dos filhos. Oferecer atenção e alguns passatempos é a melhor forma de garantir um jantar tranquilo em troca. “Se você sabe que o local é inadequado para a criança passar muito tempo sem ficar impaciente, levar brinquedos diferentes para ela brincar depois de comer é uma boa alternativa”, afirma a especialista. Conversar com ela sobre assuntos que a interessam também é uma tática eficaz. “É preciso achar alguma coisa para entretê-las”.

Uma saída eventual da rotina pode fazer bem, mas respeitar os horários e limites da criança é essencial. Se ela tem o costume de dormir às oito horas da noite, não chegue ao restaurante às nove. Em pouquíssimo tempo ela ficará irritada e passará a atormentar. E é sempre melhor prevenir do que remediar: segundo Luciana, se os pais resolverem ir embora do local por causa da birra, a criança ficará satisfeita e tentará conseguir tudo desta forma, já que funciona.

Do restaurante para dentro de casa

Monica Dorin Schumer é psicóloga e terapeuta familiar especialista em desenvolvimento infantil e conexões entre pais e filhos, no Rio de Janeiro. Para ela, crianças precisam de limites – mas os pais devem conhecê-los. Todo mundo tem variações de humor, até mesmo as crianças. Os pais devem saber se podem arriscar levar seus filhos a um lugar mais intimista ou se a personalidade da criança seria um desastre combinada com o ambiente.

“Não tem como segurar as crianças o tempo todo, elas têm um lado imprevisível também”, concorda Ana Gabriela. Se uma criança de três anos cai e se machuca, ela vai chorar e fazer barulho – e os pais devem contar com esse tipo de situação, afinal, imprevistos acontecem.

Fora os acidentes, o hábito de se sentar para comer começa em casa. “É importante que dentro de casa a criança aprenda a comer na mesa, de garfo e faca, acompanhando o ritual”, diz. Como qualquer comportamento, a aprendizagem deste também não acontece de um dia para o outro. O ideal é ir estendendo o tempo à mesa aos poucos, além de mostrar algumas maneiras legais de se divertir, como fazendo desenhos no papel ou criando histórias com a comida. “Assim os pais podem transformar o momento em algo lúdico e ajudar a criança a ficar ali e querer comer”, diz.

O tempo ideal para o seu filho? “Quanto mais novinha a criança for, mais impaciente ela é. A partir dos cinco anos ela começa a entrar na mesma perspectiva de tempo dos adultos e passa a lidar melhor com isso”, completa. Mais ou menos à mesma época em que ela poderia voltar a comer no restaurante de Mike Vuick.


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