"É ver o milagre da vida diante dos olhos": como é ser uma fotógrafa de parto

Profissional revela como é a rotina – ou a falta dela – de quem trabalha para registrar o momento em que uma criança nasce e pessoas se tornam pais

O momento de um parto é um dos mais felizes na vida de uma mãe e de um pai. Há aquela ansiedade por eles finalmente conheceram a criança, aquele medo por saber se vai dar tudo certo e a prova da incrível capacidade da mulher de gerar e dar vida a uma criança dentro do próprio ventre. E, apesar de muita gente ainda ficar chocada com as imagens que retratam uma criança nascendo, é cada vez mais comum fotógrafos acompanharem mulheres nas últimas horas e minutos de gestação até, finalmente, segurar o filho no colo para que tudo isso fique eternamente registrado.

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Foto: Ellen Brito
Registro feito por Ellen do momento em que, após 14 horas de trabalho de parto, o bebê vai direto ao encontro da mãe



Ellen Brito, de 25 anos, desde 2014 acompanha grávidas em São Paulo para registrar o momento do nascimento das crianças. Ela afirma que não há rotina quando se trata de fotografia de parto , que é tudo muito imprevisível, afinal, "qualquer hora é hora". "Os imprevistos são enormes", conta a profissional que já chegou a registrar dois nascimentos diferentes em um mesmo dia.

"A antecedência na contratação das fotos é algo muito importante. Quanto antes, melhor! Eu controlo a gestação da mamãe a partir de 37, 38 semanas. Vou mandando mensagem semanalmente para saber como está, se já tem alguma evolução, como está o bebê, qual tipo de parto ela vai seguir... E assim me aproximo mais ainda do meu cliente e fico sempre sabendo da evolução para ir me programando."

A confiança e o laço entre os pais e a pessoa que vai registrar o nascimento da criança são essenciais para o resultado final do trabalho. O profissional estará dentro da sala enquanto todo o processo estiver acontecendo, vai estar lá durantes as dores, durantes os risos, durante a saída da criança do corpo da mãe e o primeiro carinho dos pais. 

Foto: Ellen Brito
Bruna perdeu um filho pequeno vítima de câncer e, pouco tempo depois, engravidou da pequena Lívia, conta a fotógrafa

No caso de Jessica Wright Hogan, uma mãe dos Estados Unidos que quase não conseguiu entrar no hospital para ter o filho, a presença de uma fotógrafa foi essencial para que tudo desse certo. Enquanto o marido da norte-americana corria para o centro médico para avisar aos profissionais que o bebê já estava realmente nascendo, foi a fotógrafa Tammy Karin que ajudou a mãe a sair do carro e avisou que ela teria o bebê ali mesmo, no corredor do hospital.

E ainda deu tempo de registrar tudo, depois do susto e, claro, depois que Jessica já estava amparada pelo marido e pelas enfermeiras do local. As fotos do parto foram posteriormente compartilhadas no Facebook e chamaram a atenção de milhares de pessoas pelo mundo.  Confira a história completa ao clicar aqui. 

Ellen não passou por uma emoção tão grande assim, mas já presenciou o nascimento de uma criança cujos pais decidiram descobrir qual era o sexo só na hora do nascimento mesmo. De acordo com a fotógrafa, a experiência foi "sensacional". 

Um conselho da profissional é não deixar o registro de um dia tão especial em segundo plano. A fotógrafa explica que é preciso encontrar uma pessoa qualificada para o trabalho, avaliar bem os serviços que já foram prestados anteriormente, já que "a missão da mãe e do pai é apenas viver, em corpo e alma, tudo aquilo, sem preocupações com as fotos". "A emoção é total. Alguns choram ao relembrar os detalhes daquele dia único. É gratificante demais!"

Paixão pelo trabalho

Foto: Ellen Brito
Foto que representa o apoio do pai durante o trabalho de parto para Ellen, algo que foi fundamental para o casal acima

A jovem fotografa famílias desde 2011, mas só começou com a fotografia de parto três anos depois, em uma empresa terceirizada que prestava serviços a um grande hospital da capital paulista. "Lá, trabalhei fotografando partos por quase um ano. Nesse período, foram mais de 300 partos."

Em 2015, a fotógrafa saiu da empresa, e só em 2016 retomou a atividade de acompanhar os nascimentos de crianças.  Ela voltou por conta do nascimento do próprio sobrinho, Yuri, e descobriu que era apaixonada pelo que ela chama de arte. Em menos de dois anos trabalhando sozinha, já são que cem partos.

"Eu me sinto muito honrada sempre que sou escolhida para fotografar o nascimento de um bebê. Fico pensando que, entre muitas opções, eu fui escolhida para estar ali. A responsabilidade é muito grande, então me jogo de corpo e alma e vivo tudo aquilo intensamente, me sinto feliz, honrada, grata..."

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Foto: Ellen Brito
Ao presenciar a emoção de mulheres e homens como o de cima, que sonham em ser pais, Ellen tem de segurar o choro

Ellen explica que o sentimento de grande alegria já a invade quando está no caminho da maternidade. É impossível para ela não se envolver com a história do casal e com os familiares, todos ficam muito ansiosos para receber a criança. Ela confessa que quase sempre chora quando o bebê nasce – mas tem de segurar, né? Para não estragar a foto.

A emoção que toma conta de Ellen ocorre mesmo ela ainda não sendo mãe. Isso não é obrigatório para a profissão, já que ela consegue entender como a vida dos pais muda em questão de segundos ao encontrar um filho pela primeira vez. São sentimentos que a fizeram mudar até mesmo como mulher.

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"É ver o milagre da vida diante dos meus olhos e retratar tudo aquilo com amor, é retratar todo o sentimento, é viver aquele sonho junto com eles. Aprendi a não julgar escolhas, aprendi a escutar melhor a história dos meus clientes, a entender o trajeto de cada um deles até chegar no dia tão esperado. Eu sou extremamente grata por trabalhar com a fotografia de parto", completa.