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Odara Gallo é mãe de Franco, de 3 anos, diagnosticado com autismo, e escreve sobre a experiência às sextas no Delas

Franco tem 3 anos e foi diagnosticado com autismo
Arquivo pessoal
Franco tem 3 anos e foi diagnosticado com autismo

- Filho, quer levar algum brinquedo pro banho?

- Bolinhas!

- Tá bom. Pode ser só a azul?

- Qué a branca.

- Tó.

- Qué a amarela.

- Tó.

- Qué a marrom.

Lá fomos nós com quatro bolinhas para o banho. No caminho de alguns passos até o banheiro, Franco tentava equilibrar as quatro sem sucesso. Ele não queria ajuda. Queria mesmo era conseguir vencer aqueles metros sozinho carregando suas coisas. Alguns minutos entre gemidos de raiva e passinhos rápidos. Chegamos ao banheiro.

Enquanto a banheira enche, Franco coloca as bolinhas uma a uma e observa um pouco a água subindo. Ficou monótono. Sobe na privada e salta no chão (ou no meu colo) algumas dezenas de vezes. “Finalmente essa banheira encheu!” Dentro da banheira, Franco tenta alinhar as bolinhas e deixá-las paradas na água. Não consegue. Mas já faz um tempo que ele entendeu que não tem como dominar o movimento da água e não se irrita mais com isso. Uma frustração a menos na vidinha dele. Rs.

Antes mesmo de o banho terminar, eu já estava sofrendo. “Ele não vai querer largar essas bolinhas nem pra colocar a roupa, vai levar HORAS pra carregar todas de volta pro quarto, não vai querer largar pra mamar, já vi tudo. Afe!”

- Filho, vamos deixar as bolinhas na banheira pra tomar banho com elas amanhã? Boa ideia, né?

- Qué levá.

- Tá.

Tenta equilibrar todas elas enquanto sai na banheira. Elas se espalham, ele reclama. Eu espremo cada uma para tirar o excesso de água e consigo ajeitar de um jeito que ele consegue carregar. Bolinha pra cá, bolinha pra lá, coloca uma blusa. Mais bolinha pra todo lado e todo o pijama está colocado. Mamadeira e cama. Franco tenta colocar todas no travesseiro, na linha dos olhos para não perder de vista, mas as bichinhas parecem que têm vida própria.

- Qué colocar ali.

Franco dormindo perto das bolinhas
Arquivo pessoal
Franco dormindo perto das bolinhas

Franco aponta a cabeceira da cama. Alinho todas as bolinhas no “altar”. Ele fica olhando, quietinho. Tranquilo. Dou boa noite pra ele. E repito a pergunta que até hoje, todas as noites, tinha ficado sem resposta.

- Cê me ama, filho?

- Sim.

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Odara e o filho, Franco, de
Arquivo pessoal
Odara e o filho, Franco, de

*Odara Gallo é formada em Jornalismo desde 2006, mas só criou coragem para ter um blog dez anos depois, quando descobriu que seu filho, Franco, tinha Transtorno no Espectro Autista. Às sextas, escreve sobre sua experiência no Delas. "Num dia Franco era uma criança diferente. No seguinte, eu era mãe de uma criança autista. Um pouco do que aconteceu dentro de mim com essa mudança quis sair e se desenhar em palavas. Nasceu esse blog.  Quê Cê Qué?"

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