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Odara Gallo é mãe de Franco, de 3 anos, diagnosticado com autismo, e escreve sobre a experiência às sextas no Delas

No dia em que soube que esperava um menino, não chorei de emoção. Meus olhos nem sequer ficaram molhados. Senti um frio na espinha e lembro da primeira coisa que passou pela minha cabeça: "Não posso criar um homem babaca". Parece que foi ali, com aquele medo súbito da responsabilidade, que descobri que seria mãe.

Odara e Franco
Reprodução/Blog queceque
Odara e Franco

Para honrar a espécie, eu também fiquei ansiosa para a primeira homenagem de Dia das Mães na escolinha do Franco. "Vai ser cafona, vai ser bagunçado, mas eu vou amar", pensei. Franco tinha dois anos e pouco, não havia sido diagnosticado, era só um menino que não falava ainda e era fortemente apegado a todo tipo de rotina.

As crianças ensaiaram uma música para oferecer às homenageadas. Como Franco ia reagir em frente ao paredão de câmeras e celulares apontados para ele? Ele é diferente, não gosta de multidão. Vai chorar, certeza. Já me imaginei abrindo o mar de mães para tentar conter os berros. Normal, vai? Toda criança chora nesses eventos. Vamos lá.

Tracei um plano. Enquanto as outras mães assistiam a seus filhos com tchauzinhos frenéticos e acenos de incentivo, eu me escondi. De longe, observei atentamente para onde os olhinhos Franco apontavam, e ele parecia me procurar. Apesar disso, esboçou algo parecido com um canto. Não chorou. Não se assustou. Ouviu a música, entendeu como era a dinâmica daquele evento diferente de sua rotina e aproveitou.

O meu presente foi perceber que em tão pouco tempo ele estava adaptado e tranquilo na escola. Ele não olhou nos meus olhos para cantar a música de Roberto Carlos como muitas das outras crianças. Franco sequer me viu. Tudo bem pra mim. Naquele dia, o que me fez sentir especial, o que me encheu de orgulho, foi que ele era mais um garoto comum em meio à multidão.


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Odara e o filho, Franco, de
Arquivo pessoal
Odara e o filho, Franco, de

*Odara Gallo é formada em Jornalismo desde 2006, mas só criou coragem para ter um blog dez anos depois, quando descobriu que seu filho, Franco, tinha Transtorno no Espectro Autista. Às sextas, escreve sobre sua experiência no Delas. "Num dia Franco era uma criança diferente. No seguinte, eu era mãe de uma criança autista. Um pouco do que aconteceu dentro de mim com essa mudança quis sair e se desenhar em palavas. Nasceu esse blog. Quê Cê Qué?"