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Relacionamentos, aparência física e carreira estão entre os temas que devem figurar nas conversas entre pais e filhos

Chega a adolescência e com ela muitas dúvidas nas cabeças dos filhos, que mal acabaram de deixar a infância. Já do lado dos pais, é a hora de surgirem os questionamentos sobre como abordar temas importantes com os novos jovens e acompanhar o crescimento e amadurecimento dos filhos.

O psicólogo de família Miguel Perosa afirma que o diálogo natural é sempre o melhor caminho: “No cenário ideal, fico imaginando a família jantando e comentando os assuntos do dia. E acho que não se deve ter um assunto específico. Na medida em que há diálogo na família, nada deve ser tabu”, orienta o profissional, salientando a importância da abertura que os pais devem dar aos filhos para abordar assuntos mais delicados nessas oportunidades.

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"Na medida em que há diálogo na família, nada deve ser tabu”, orienta psicólogo


Karina Rodrigues, também psicóloga, defende que cada adolescente tem um ritmo e forçar uma conversa só deixa a relação de pai e filho artificial.

“É legal deixar os filhos se expressarem da maneira deles e esperar surgir o assunto. Os adolescentes não necessariamente precisam tocar no assunto. É uma questão dos pais terem uma percepção aguçada e abordarem determinados assuntos”, afirma Karina.

Exemplo

Para os pais que sentem a necessidade de abordar algum assunto e não conseguem pela forma natural, pode ser interessante esperar um exemplo de uma situação que aconteça próxima ao adolescente ou até mesmo na televisão.

Aline Kelly é mãe de Gabriel, 15 anos, e conta que conversou sobre preservativos com o filho quando uma amiga da idade dele engravidou. Ela também aproveitou um episódio específico para falar sobre riscos e cuidados da troca de mensagens íntimas pelo celular com o adolescente. "Rolou, aqui no meu bairro, um vídeo que expunha as meninas, então conversamos muito sobre confiança e sobre sexting”, conta a mãe.

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Outro conselho para tratar de um assunto mais complicado é sair com o filho para um passeio e falar sobre sua própria experiência. Dialogar com o filho sobre o que já aconteceu com o pai ou com a mãe é importante porque a adolescência é um período em que aflora a rebeldia: “Se você der um testemunho pessoal, ele vai pensar, refletir sobre o assunto. Se você falar como deve ser, a chance dele rejeitar o conselho é grande”, orienta Miguel.

Karina também acredita que dar a forma pronta não funciona: “A orientação é sempre melhor do que a imposição”, diz. Além disso, ela defende que os pais devem respeitar os filhos se eles não quiserem conversar sobre o assunto.

Cris Guimarães é mãe de três filhos meninos, dois deles adolescentes: Pedro Henrique de 12 anos e Daniel de 14 anos. Ela conta que, por ser separada do marido, sempre teve que conversar sobre tudo com os meninos e diz que nunca sentiu dificuldade ou desconforto. “Como estou quase sozinha com eles, se eu não conversar, eles vão aprender na rua”, desabafa.

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Apesar da naturalidade, vale lembrar que pai e mãe não são considerados amigos pelos filhos adolescentes e, portanto, é necessário manter sempre a hierarquia no tratamento e deixar claro que os adultos estão presentes para orientar e ensinar.

Veja abaixo 6 temas importantes para falar com seu filho adolescente:

Relacionamentos
Essa é a época em que relacionamentos amorosos ou de amizade costumam começar e terminar. É importante a orientação neste momento de como lidar com as emoções. Miguel diz que se os pais não gostarem de um novo relacionamento do filho ou da filha, não é recomendado proibi-lo. Dialogar com o adolescente e tentar entender e participar do que está acontecendo na vida do filho terá mais efeito positivo do que a simples proibição.

Sexualidade
Assunto clássico para tratar com os adolescentes. Eles têm muitas dúvidas sobre sexo e muitas vezes não têm naturalidade para tratar disso em casa. A sugestão é sempre se manter aberto para as perguntas dos filhos, em todas as idades, e tratar a questão com naturalidade. Levar a menina a um ginecologista também é uma saída quando a mãe não se sente tão à vontade para falar sobre o assunto.

Drogas
Com relação às drogas, o segredo, segundo os especialistas, é esclarecer os riscos do consumo da substância. Aline explica como aborda o tema com seu filho: “Conversamos mais sobre não fazer nada ‘no embalo’ dos amigos e sobre saber os riscos a que se está exposto quando se usa drogas. Não fico demonizando o tema, pois acho que gera mais curiosidade ainda”, conta a mãe.

Aparência física
Muitos adolescentes se sentem inseguros com a aparência física. Cris conta que seu filho mais velho passou por uma fase de ser incomodado na escola por ser muito magro e usar óculos. “Além de falar que ele é lindo, eu disse que nunca liguei para o que os outros falam”, conta ela. A fórmula encontrada pela mãe foi explicar que cada um tem suas qualidades e que a opinião alheia não deve ser tão importante assim.

A psicóloga Karina conta que, às vezes, é interessante procurar um profissional para ajudar com o problema: “Por exemplo, se a menina está com a autoestima prejudicada porque tem espinhas, procure um dermatologista. Essas pequenas atitudes podem ajudar bastante”.

Carreira
Nesta época também surgem dúvidas quanto a carreira a seguir, e é necessário estar aberto para tirar dúvidas. “Gabriel sempre quis ser jogador de futebol, então combinamos um prazo para que ele continue tentando. Mas depois disso seria interessante fazer ingressar em um ensino técnico, intercâmbio ou mesmo pensar em outras alternativas”, conta Aline.

É importante também entender que nem sempre um filho tem interesse pela carreira dos pais e deseja buscar um caminho próprio. Tentar impor uma profissão a um adolescente pode trazer prejuízos futuros importantes, como a insatisfação profissional tardia.

Religião
Este assunto é, por muitas vezes, razão de discordância entre pais e filhos. Impor uma visão religiosa para o adolescente também é prejudicial.

“Mais do que a opinião, sua experiência religiosa é válida. Contar por que se tornou religioso é importante para o adolescente entender a visão dos pais” afirma Miguel. Karina também faz uma sugestão: “Os pais podem levá-lo a missa, mas se ele quiser ir a um centro espírita, por exemplo, tem que deixar também. A adolescência é uma época de curiosidade”.

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