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Reações públicas de adultos que reprovam comportamentos infantis e estabelecimentos que não aceitam clientes mirins indicam uma mudança social

Soraya prefere locais com área de brincadeiras para almoçar ou jantar fora com a família
Arquivo pessoal
Soraya prefere locais com área de brincadeiras para almoçar ou jantar fora com a família

Uma vez por mês, a esteticista Jussara Araújo, 38, pega a ponte aérea São Paulo-Rio de Janeiro para visitar a família – carioca, ela mora na capital paulista. Seu filho Lucca, de 3 anos, sempre a acompanha nas viagens e, por mais acostumado que esteja, às vezes chora na hora da decolagem por causa da pressão que sente nos ouvidos. Para a maioria dos pais, isso é normal. Mas as reações de outros passageiros já renderam a ela algumas saias justas.

“A que mais me marcou foi quando um rapaz engravatado, umas três fileiras à nossa frente, gritou que deveria ser proibido ter crianças a bordo de manhã e à noite. Fez mais barulho que o Lucca. Em outra, mais recente, uma mulher mais ou menos da minha idade disse que se tivesse filhos só viajaria com eles de carro, porque ninguém é obrigado a aguentar choro”, conta.

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Com mais ou menos agressividade, situações em que adultos se mostram incomodados com a presença infantil não são incomuns. Recentemente, a consumidora Jóice Guimarães contou, na sua página pessoal do Facebook, ter ido a uma loja de roupas infantis, em São Paulo, onde teria passado por uma situação que a deixou desnorteada. A filha de 4 anos se sentiu mal e vomitou dentro do estabelecimento. Sem manifestar solidariedade com a situação da criança, segundo Jóice, a vendedora a teria feito limpar o vômito da menina. O caso movimentou as redes sociais e foi compartilhado por mais de 15 mil pessoas.

Soraya Schmidt, que se dedica exclusivamente à criação de Ester, de 5 anos, e Erik, de 4, lembra que já percebeu a família sendo tratada de forma diferente por causa dos filhos: “Teve uma ocasião em que fomos a um restaurante japonês quietinho e foi aquela ‘festa’, derrubaram molho shoyu, tentavam comer o peixe e deixavam cair. Aí senti que os garçons não gostaram muito, pois ficavam perguntando se já estávamos satisfeitos e se queríamos a conta”.

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Como em sua casa o lema é “onde vai um, vão todos”, Soraya e o marido têm preferido escolher locais com área de brincadeiras para almoçar ou jantar fora. Cinema, só em sessão infantil. “Nem me atrevo a levá-los para assistir a filmes que não tenham classificação livre”, garante. Jussara também segue esse padrão e gosta de ir com o filho ao cinema e ao teatro em horários de matinê, mas nem por isso deixa de receber “olhares tortos”. “Se o Lucca fica manhoso, levanto e vou embora antes de o filme ou a peça acabar. E vejo reprovação nos rostos das pessoas à medida que passo por elas. Não entendo. Saio, não insisto em ficar lá. Nunca está bom para quem não tem filhos?”, questiona.

Alguém tem “culpa”?

Para Jussara, esse cenário passou a existir por culpa de pais que não sabem impor limites aos filhos. “Vejo famílias que deixam as crianças fazerem o que quiserem. Elas correm pelos restaurantes e chutam as cadeiras da frente no avião ou no cinema. É péssimo mesmo, até eu detesto. Só que acho errado transferirem essa rejeição a todas as crianças que cruzarem seu caminho”, afirma.

Já Soraya credita esse estranhamento à mudança de comportamento infantil. “Não que as crianças estejam piores, mas a geração mudou. Elas são mais questionadoras, observadoras, não aceitam somente um ‘não’ como resposta, como era na minha época”, diz. Ela continua: “E hoje as famílias moram muito mais em prédios, por segurança e praticidade, e com isso elas ficam com menos espaço. Imagine como a energia fica acumulada”.

Entre os adultos que preferem não ter o convívio forçado com crianças, muitos acreditam que a culpa pelo desconforto é dos pais. Esta é a opinião da roteirista Ana Paul: “Se há um grupo ‘anti-crianças’, geralmente é em função de adultos que levam seus filhos a lugares inadequados. Há quem vá com as crianças a restaurantes toda semana, mas pergunte quantas vezes o passeio foi em um parque de diversões. Pouquíssimas”.

“Criança é criança, precisa ter seu próprio tempo, que já é tão curto. De nada adianta levá-la a peças do Antunes Filho ou a shows de rock, isso não determina que ela gostará desses programas no futuro. Na verdade, eu gostaria que os pais tivessem bom senso e procurassem lugares com atividades infantis para levar seus filhos”, complementa.

Filhos não são prioridade

A mudança de prioridades na vida adulta é, para os especialistas, a grande responsável por tais manifestações de insatisfação. “Creio que essa intolerância se deva ao fato de filhos não serem mais meta de vida. Há apenas algumas décadas, o plano da maioria das pessoas era crescer, casar e ter filhos. Para os homens, havia o sonho da carreira em paralelo, ele contava com a esposa dona de casa e não abria mão da família”, explica a psicóloga clínica Marisa de Abreu.

“Mas hoje o projeto de ter filhos está sendo adiado, pois as mulheres precisam estudar e se dedicar às suas carreiras. Há um número menor de pessoas que vivenciam em casa uma criança correndo e gritando, ou seja, se desenvolvendo saudavelmente”, afirma Marisa. Dados do último Censo demográfico do IBGE, feito em 2010, mostram essa mudança de perfil da mulher brasileira. Segundo o estudo, atualmente, o número médio de filho por mulher é de 1,86 – bem inferior ao do Censo 2000, que apontou uma média de 2,38.

O coach Ricardo Rozgrin concorda com a psicóloga e vai um pouco além: “No paradigma atual, começa a ser aceitável optar por simplesmente não ter filhos. E se a pessoa não quer crianças em seu núcleo familiar, sente que não tem problema levar essa escolha também para a vida social. Ela é mais dona de si, de suas preferências. Hoje em dia, ninguém fica estigmatizado por manifestar rejeição”.

Sem convívio com os pequenos, fica realmente mais difícil desenvolver alguma compreensão e paciência com as atitudes infantis. “Quem está longe dessa vivência será naturalmente menos tolerante. Há grupos que já viveram na pele a alegria de ter crianças por perto em suas próprias famílias ou grupos de amigos e não se incomodam tanto com a barulheira alheia. Não podemos negar que barulho no restaurante, chute na cadeira e crianças correndo e tropeçando só são ‘uma gracinha’ quando se entende o que significa ser pai e mãe”,

Para chegar a um convívio satisfatório para todos, é preciso ceder dos dois lados, de acordo com Marisa. “Até que as crianças aprendam a não incomodar os outros em locais onde o esperado é o silêncio e a serenidade, os pais devem limitar seus passeios a locais onde percebam que seus filhos conseguem interagir, preferir locais onde eles possam correr e brincar. E as pessoas de fora podem tentar se colocar na pele dos pais e perceber que seria muito bacana se tolerassem algum barulho, dentro de um certo limite, em nome do desenvolvimento da espontaneidade da criança”, sugere.

“Se há um grupo ‘anti-crianças’, geralmente é em função de adultos que levam seus filhos a lugares inadequados
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“Se há um grupo ‘anti-crianças’, geralmente é em função de adultos que levam seus filhos a lugares inadequados", afirma roteirista

Sem crianças

De olho em um público que não quer contato com o possível barulho dos filhos dos outros, alguns estabelecimentos turísticos e companhias aéreas no Brasil e no exterior têm vetado a presença infantil. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, não é difícil encontrar hotéis e pousadas que não aceitem menores de 12 anos entre seus hóspedes. Na Ásia, as companhias aéreas AirAsia (da Malásia) e Scoot (de Cingapura) têm a política de vender passagens da classe executiva e reservar as primeiras fileiras da classe econômica apenas para adultos – neste último caso, com um custo extra que gira em torno de US$ 15.

“Todo movimento social é acompanhado pelo mercado. No contexto do marketing, oferecer possibilidades para os adultos que não querem crianças por perto significa se destacar por ter um valor agregado para essas pessoas. Sai ganhando quem percebe mais rápido que existe um novo grupo a ser conquistado”, afirma Ricardo Rozgrin.

A estratégia empresarial parece agradar o público-alvo. A ideia de espaços sem crianças em aviões é bem aceita por Ana Paul. “Por questões estratégicas, sempre preferi fazer voos longos no período da noite, e ter que dormir com choro é bastante inviável”, justifica ela, que não se incomodaria em pagar uma pequena taxa para ter silêncio durante a viagem.


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