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Pesquisa sugere que tirar um cochilo no meio do dia pode aumentar a capacidade de memorização de crianças entre três e cinco anos

NYT

Numa época em que os dias das crianças pequenas estão cheios de atividades curriculares que parecem imprescindíveis, um novo estudo americano aponta que a soneca do período da tarde não é desperdício de tempo. Ao contrário, a pesquisa sugere que tirar uma soneca à tarde pode aumentar a capacidade da criança de aprender, melhorando a memória dos pequenos.

Em um dia típico, crianças com idade entre três e cinco anos guardam as informações que recebem em áreas de armazenamento de curto prazo no cérebro, explica Rebecca Spencer, autora do estudo e neurocientista da Universidade de Massachusetts, Amherst.

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"Estamos todos dormindo pouco, mas o sono da criança é afetado pelo horário dos pais", afirma pesquisadora



"Uma sesta permite que a informação se mova do armazenamento temporário para o mais permanente, a partir do hipocampo para as áreas corticais do cérebro", disse ela. "Você já ouviu o conselho: 'pense nisso depois de uma boa noite de sono'. É disso que estamos falando: as crianças precisam processar o que aprendem durante o dia."

Pouco sono

Muitas crianças da educação infantil enfrentam dias mais longos do que o período de trabalho dos pais, chegando na escola por volta das 6h30 da manhã e indo embora às 17h, aponta Spencer. "Estamos todos dormindo pouco, mas o sono da criança é afetado pelo horário dos pais", afirma pesquisadora.

Para o estudo, os pesquisadores ensinaram 40 crianças de seis escolas no oeste de Massachusetts, nos Estados Unidos, um jogo de memória visual-espacial, no período da manhã. Elas precisavam lembrar onde estavam localizadas de nove a 12 fotos diferentes em uma tabela.

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Durante a tarde, as crianças foram incentivadas ou a tirar um cochilo ou ficar acordadas. A soneca durou cerca de 80 minutos. No final da tarde daquele dia e na manhã seguinte, os pesquisadores testaram a memória de todas as crianças.

Os pesquisadores descobriram que, embora as crianças tenham apresentado comportamento semelhante no período da manhã, quando a informação ainda era bem recente, o número de crianças que esqueceram o posicionamento das imagens aumentou significativamente no período da tarde entre as que não dormiram. O índice de acerto entre as que dormiram foi 10% superior quando comparado com o resultado das crianças que ficaram acordadas. No dia seguinte, quem tinham tirado a soneca na tarde anterior teve um melhor desempenho do que os que não cochilaram. Segundo os pesquisadores, os dados mostraram que a criança não apresenta uma melhora da memória com o sono noturno.

Saúde

Para entender melhor se memórias foram processadas ativamente durante os cochilos, os pesquisadores levaram 14 crianças a um laboratório de sono para realizar uma polissonografia, exame que mostra as mudanças no cérebro durante o sono. As crianças cochilaram por cerca de 70 minutos. Dentre essas crianças, havia indícios de que sinais estavam sendo enviados para a memória de longo prazo através do hipocampo do cérebro.

"Há evidências de uma relação de causa e efeito entre os sinais de que o cérebro está trabalhando novas informações e os benefícios que o cochilo traz para a memória", disse Spencer. O estudo foi publicado em setembro no periódico “Proceedings of National Academy of Sciences”.

Um pediatra que não tem relação com o estudo afirmou que os resultados provam que os médicos já sabem há anos. "Antes mesmo deste estudo, sem dados concretos, muitos pediatras têm incentivado o cochilo das crianças porque faz bem para a saúde em geral”, esclarece Peter Richel, chefe de pediatria no Hospital Northern Westchester, em Mount Kisco, Nova York.

No entanto, alguns pais resistem à ideia de cochilos, segundo Richel. "Para aqueles que compram camisetas com emblemas de faculdades famosas para seus bebês de três meses de idade, isso pode ser difícil de aceitar", disse. Mas ele ressalta que pais de ambas as extremidades do espectro socioeconômico podem encontrar dificuldades para entender a importância do cochilo em meio a uma agenda diária lotada. No entanto, o pediatra faz questão de deixar claro que “sonecas não são perda de tempo". Spencer completa: cochilos precisam estar na rotina das escolas de educação infantil.

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