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Idealizadora do projeto propõe que meninas sejam independentes sem esquecer de ter bons modos, de saber organizar a casa e de se apresentar bem

Em uma casa de 360 m² com 12 cômodos na cidade mineira de Uberlândia (a 556 km de Belo Horizonte), meninas de 4 a 15 anos de idade aprendem a ter bons modos, a ser respeitosas com familiares e amigos, a lidar com a organização da casa e a se apresentar bem. Não, você não está lendo sobre os ensinamentos de uma escola vitoriana dos séculos 18 e 19. Mas do Brasil do século 21: mesmo reconhecendo que as mulheres precisam estudar, trabalhar, viajar e conquistar seu lugar no mundo e sua independência, a formação de uma família feliz no futuro e os conhecimentos domésticos devem ancorar os atributos de suas alunas. Pelo menos é o que pensa a singular pedagogia da Escola de Princesas, fundada em janeiro de 2013 por Nathália Mesquita.

“Eu queria um novo conceito de princesa: uma mulher completa, que domina tanto o gerenciamento da casa quanto a realização profissional. Sempre acreditei que não é preciso abrir mão de um lado por causa do outro”, explica Nathália, formada em Letras, professora há 17 anos, casada e mãe de dois meninos, de 13 e 9 anos de idade.

Da idealização da escola, que nasceu por meio de um sonho – literalmente: ela uma noite sonhou com um lugar em que ensinava tudo isso a meninas de variadas idades –, até a sua abertura foram oito meses de planejamento, escolha do local de funcionamento e registro de marcas registradas e patentes, uma vez que não havia nada parecido com isso no mundo. “Meu marido era a única pessoa que sabia, e me apoiou desde a manhã em que contei meu sonho para ele. Mantivemos tudo em sigilo”, lembra.

Depois de uma divulgação modesta pela internet e no boca a boca pela cidade, mães e pais começaram a efetuar as matrículas de suas filhas. A criadora da escola até se assustou: “Foram 150 meninas logo no primeiro mês. Eu esperava que aparecessem umas 20”.

A Escola de Princesas teve 150 alunas matriculadas no primeiro mês de funcionamento
Divulgação
A Escola de Princesas teve 150 alunas matriculadas no primeiro mês de funcionamento

Do básico ao avançado

O conteúdo varia de acordo com a idade das garotas ao chegarem à escola. Elas são divididas pela faixa etária (de 4 a 6 anos, de 7 a 9, de 10 a 12 e de 13 a 15) em turmas com no máximo dez alunas. Há também a possibilidade de fazer aulas particulares.

As mais novinhas aprendem desde o básico, como arrumar os cabelos, manter a higiene e usar roupas limpas, até o avançado, como cuidar das roupas e do quarto e se alimentar. Nathália ensina que “não é preciso sair por aí de vestido e tiara de pedras para ser uma princesa. Uma roupa limpa e bem cuidada é suficiente para a apresentação ser digna”. Ela reforça para as pequenas que elas não devem ser consumistas ou dar mais valor às roupas do que à educação.

“As que chegam mais velhas já sabem algumas coisas, então podemos ir direto ao específico: cozinhar, arrumar o quarto, conversar, ter bons modos, se produzir com delicadeza”, afirma. Destas, muitas são levadas pelas mães com o objetivo de serem preparadas para se virarem sozinhas em outra cidade quando entrarem na faculdade dali a alguns anos. “Às vezes, a menina sabe tudo de inglês e dos esportes que aprendeu, mas não consegue fazer um lanchinho, ligar a máquina de lavar roupa”, justifica.

Em todos os módulos, o curso se apoia em seis tópicos principais, cuja abordagem muda apenas para ficar pertinente à idade das alunas. “A essência é elas entenderem que podem enfrentar todas as situações da vida com sucesso, que têm capacidade para serem mulheres completas”, esclarece, de antemão, Nathália.

O primeiro é “A identidade de princesa”, em que se fala sobre a importância do caráter, da autoestima, da individualidade e até de sustentabilidade. O ponto alto são as biografias de princesas fictícias (dos contos de fadas) e reais, as preferidas da professora, que diz: “Mostro a elas que as princesas da vida real, como a da Suécia, estudam, trabalham, casam e não abandonam a profissão por isso. Que o mundo não é cor de rosa, que elas vão fazer faculdade e ser independentes, por isso precisam estar preparadas”.

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Em seguida vem “Os relacionamentos de princesa”, sobre obedecer os mais velhos, dar valor à família e até como agir na internet. “Elas precisam saber o que e como postar nas redes sociais, como se preservar de assédio de adultos desconhecidos”, detalha. O terceiro tópico é “Etiqueta de princesa”, com lições de comportamento à mesa, em situações sociais, boas maneiras, postura corporal e organização pessoal.

No quarto tópico, “Estética de princesa”, as alunas fazem a festa diante do espelho. É nele que elas aprendem a arrumar os cabelos, a fazer maquiagens e a combinar roupas e acessórios, além de reforçar as noções de higiene pessoal e alimentação saudável. Uma preocupação de Nathália aqui é impedir que as meninas queiram pular etapas da infância e da adolescência: “Explico que elas são princesas, não rainhas, então não vão se vestir como mais velhas ou exagerar na maquiagem. Tudo tem sua fase, e elas entendem”.

Os dois últimos tópicos são “O castelo de Princesa”, focado no aspecto organizacional de toda a casa (com noções de corte e costura, culinária básica e lavanderia) e na educação financeira, e “De princesa a rainha”, uma preparação para a fase adulta – inclusive com aulas de educação sexual. Para tudo isso, a fundadora da Escola de Princesas conta com o auxílio de profissionais como psicóloga, nutricionista e cozinheira, entre outros.

Muitas críticas

Nathália conta que 90% das mães que matriculam as filhas em suas aulas são profissionais superatarefadas que veem a escola como um apoio à educação familiar. “Elas confessam que adorariam ensinar as meninas o que elas aprendem aqui, mas não teriam como, porque focaram tanto na carreira que não sabem fazer as coisas da casa”, diz.

É claro que choveram críticas à Escola de Princesas desde sua inauguração. O principal motivo seria um suposto reforço de estereótipos machistas que as aulas promoveriam ao ensinar as meninas a cuidarem da casa. Nathália garante que não se abala com elas, porque “100% das críticas são de quem não conhece o trabalho da escola, que acha que é ‘uma escolinha de princesinhas de contos de fadas’ porque associa a palavra ‘princesa’ a uma figura passiva à espera de um príncipe salvador, e isso está longe de ser o que acontece aqui. Convido qualquer uma dessas pessoas a vir ver o que as meninas aprendem”.

“Há quem alegue que aulas de etiqueta são uma futilidade, mas quem não gosta de estar perto de uma pessoa bem educada? Algumas feministas dizem que é um retrocesso, mas que mal há em saber fazer sua própria comida, em saber cuidar da sua roupa? Elas não fazem isso também?”, questiona.

Para acabar de vez com a ideia de sexismo, Nathália revela que tem um projeto semelhante focado nos meninos, “porque eles também precisam ser educados e aprender a tratar as mulheres”. Os registros já estão providenciados e a formatação do curso está em andamento. “Eu me preocupo com a formação de todos. Precisava começar por algum dos lados e escolhi as meninas. Acho que foi porque não tive filhas. Crio meus príncipes em casa e minhas princesas na escola”, finaliza.

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