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Mulheres passaram a prestar mais atenção no que realmente querem na hora de escolher se tornar ou não mãe, mas decisão também gera consequências

Cada vez mais, as mulheres entendem que a decisão de engravidar ou não cabe apenas a elas mesmas. Se gerar uma criança era tido como uma vontade natural de quem é do sexo feminino, aos poucos essa ideia tem mudado. Hoje, muitas mulheres conseguem impor seu verdadeiro desejo, e não são poucas aquelas que não querem gerar uma criança por conta do mundo em que vivemos.

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Percepção das mulheres sobre elas mesmas vem mudando ao longo dos anos, e a ideia sobre engravidar também
Pixabay
Percepção das mulheres sobre elas mesmas vem mudando ao longo dos anos, e a ideia sobre engravidar também

Atualmente, são 7,6 bilhões de pessoas no mundo, não é preciso procurar muito para encontrar casos de violência até mesmo ao nosso redor e são inúmeros os exemplos de egoísmo e injustiça, e são estes o motivos que levam mulheres como a produtora audiovisual Vivian Stychnicki, de 30 anos, a não querer engravidar .

“Por conta da minha criação, fui condicionada a acreditar que o ‘certo’ era casar e ter filhos, independentemente do meu desejo. No entanto, aos poucos, fui seguindo meu caminho, desbravando esse mundão e me conhecendo melhor. Claro que cheguei a ficar em cima do muro, mas, depois que fui morar com meu namorado, há quase cinco anos, tudo ficou mais claro e as dúvidas evaporaram”, explica em entrevista ao Delas .

Vivian, que pensa em fazer a laqueadura – procedimento irreversível que impede as mulheres de engravidar –, considera injusto de sua parte gerar um ser humano para viver em um mundo cada vez mais violento. “Dizem que vou sentir a pressão do tal relógio biológico, mas estou prestes a fazer 31 e tudo continua bem.”

Produtora audiovisual Vivian Stychnicki acredita que o desejo de não querer engravidar sempre existiu nas mulheres
Arquivo pessoal
Produtora audiovisual Vivian Stychnicki acredita que o desejo de não querer engravidar sempre existiu nas mulheres

O mesmo pensamento é tido pela jornalista Marylha Maieru, de 23 anos. Para ela, não adianta falar que basta educação dos pais. “As crianças carregam uma dificuldade de viver com tanto bullying que acontece em escolas. O risco de ter algum problema psicológico porque o ser humano não tem zelo pelo outro é muito grande. E como eu lidaria com isso? Nem imagino.”

Marylha até acredita que o mundo possa melhorar, mas ainda o considera misógino, racista e intolerante demais, um local extremamente cruel e que há sempre o sofrimento, então colocar uma criança no mundo não é algo que ela queira fazer.

Adoção não é descartada

Vivian afirma gostar de seu ritmo de vida, trabalho, individualidade e liberdade. Além disso, sabe que filhos são dependentes e exigem sentimentos, tempo e energia. Já Marylha não encontrou nela mesma o tal instinto materno que tanta gente fala por aí. Elas não querem ser mãe, entretanto, nem todas as mulheres que não querem engravidar têm este mesmo pensamento.

A fotógrafa Maria Paula Vieira, de 24 anos, também tem vontade de fazer a laqueadura, mas não descartou a própria vontade de ser mãe. “Desde criança eu penso em adotar uma criança. Sempre achei o mundo muito difícil, violento e intolerante para colocar outro ser no mundo.”

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Maria Paula também acha complicada a ideia de ser responsável, indiretamente ou não, pelo sofrimento de alguém que ela mesma colocou no mundo. Se o local onde vivemos gera sofrimento, por mais que ela queira dar amor ao filho, uma hora ele vai sofrer. Por outro lado, isso não a impede de querer dar amor a uma pessoa que já está neste mundo.

“Para quê eu colocaria mais alguém se eu poderia cuidar de uma criança que já está aqui, que lhe foi tirado amor, que lhe foi mostrado o abandono tão novo? Eu poderia dar muito amor para uma criança que já está aqui, ao invés de colocar outra. Por isso cheguei a essa decisão.”

Nova percepção sobre si mesma

Não querer engravidar também não é uma decisão que surge da noite para o dia. Se você é mulher, muito provavelmente já se viu colocando a mão na barriga ou olhando para o próprio corpo e imaginando como seria ficar grávida. Algumas mulheres não conseguem nem se imaginar, mas para a assistente de edição Letícia Figueiredo Bina, de 25 anos, gerar uma criança e ser mãe era o mesmo que uma realização pessoal.

Desde pequena esta era a sua vontade, mas as coisas começaram a mudar nos últimos anos. “Não sei se tenho condições de educar uma criança no mundo em que a gente vive hoje. Não acho que tenho estrutura psicológica para dar conta.”

Atualmente, Letícia namora um homem que tem uma filha, então ela tem contato direto com uma criança e com o trabalho da paternidade. Ter uma ideia mais direta e real sobre como é criar uma criança está ajudando a jovem a amadurecer a ideia de não querer ser mãe, pelo menos não neste momento.

“Acho que o mundo caminha para uma evolução, mas muito lenta. Sempre me considerei forte para lidar com as coisas, com o meu próprio empoderamente, mas, hoje, eu sinto que sofro pelo próprio sistema. Tenho problemas emocionais, físicos e psicológicos gerados pelo mundo em que a gente vive, então não sei como seria projetar todas as minhas frustrações e emoções nos meus filhos. Ficaria muito decepcionada comigo mesma em virar uma mãe superprotetora e paranóica. Não quero frustrar os filhos”, explica a jovem.

Opinião nem sempre é aceita

Vivian acredita que o desejo de não querer engravidar sempre existiu nas mulheres. O que teria mudado, na verdade, é o fato das mulheres estarem respeitando mais as próprias vontades e as expondo para as pessoas ao redor. Por outro lado, nem sempre essas mulheres recebem o respeito de volta.

“Por sorte, circulo em um nicho de pessoas que têm a necessidade de refletir racionalmente sobre tudo, e, quando esse assunto vem à tona, não há grandes reações. Mas é claro que não é sempre que estou rodeada por pessoas assim, sem falar na pressão familiar. Quando me perguntam, sempre vejo caras e bocas e ouço comentários como ‘Nossa, quem vai cuidar de você quando for velha?’, ‘Que horror, como você é insensível, egoísta…’, ‘Mulher tem que ter filho…’ e por aí vai.”

Jornalista Marylha Maieru acredita que a formação de uma criança não depende apenas dos pais, mas de todo o mundo
Arquivo pessoal
Jornalista Marylha Maieru acredita que a formação de uma criança não depende apenas dos pais, mas de todo o mundo

Marylha também aguenta a pressão da ideia de que uma de suas famílias vai acabar nela mesma se não tiver filhos. Outras pessoas também acham que ela vai mudar de ideia assim que começar a ter um relacionamento sério.

E até mesmo Maria Paula, que quer ser mãe, sofre preconceito por não querer engravidar. “As pessoas não costumam reagir bem. Às vezes acham que é egoísmo, às vezes entendem e até acham um gesto nobre. Mas a maioria torce o nariz. Tanto que não costumo falar sempre porque parece que nós que não queremos ter filhos odiamos criança, mas não é isso. Eu, por exemplo, amo e trabalho com crianças, adoro brincar,  conversar, estar com elas, mas a partir do momento em que dizemos que não queremos ter filhos... parecemos monstros.”

O que elas acham das grávidas

“Maravilhoso” e “toda a mulher tem o direito de escolher” são algumas das opiniões de Vivian, Maria Paula, Marylha e Letícia sobre mulheres que querem, sim, gerar uma criança. Estas mesmas mulheres que não têm o desejo de ficar grávida deixam bem claro que não têm problema algum com grávidas ou crianças. Muito pelo contrário.

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“Respeito mulheres que querem engravidar, assim como gosto que respeitem a minha escolha também. A maioria das minhas amigas querem ter filhos, e eu sempre falo que vou brincar com eles e mimar. Cada uma tem sua decisão, não iria olhar diferente para elas”, explica Maria Paula. “O fato de não querer ser mãe não significa que recrimino outras mulheres. O importante é tomarmos decisões baseada em nossas próprias vontades, de forma consciente e realista”, completa Vivian.

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