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Durante conversa sobre cabelos afros na TV, Dani Winits disse que já sofreu preconceito por ser loira

Dani Winits no 'Encontro': declaração durante debate sobre cabelos afros gerou polêmica nas redes
TV Globo/ Divulgação
Dani Winits no 'Encontro': declaração durante debate sobre cabelos afros gerou polêmica nas redes


Daniele Winits participou do programa "Encontro com Fátima Bernardes", da TV Globo, na manhã dessa segunda-feira (9), onde declarou já ter sofrido preconceito por ser loira durante conversa sobre cabelos afros. Soube o que foi dito e de toda a repercussão após as declarações dela. "A gente também sofre muito preconceito, porque eu gosto de ser loira, algum problema? Desculpa aí, gente", disse a atriz. 

Vou tentar explicar porque o que foi dito por Dani Winits gerou tanta polêmica.

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Quell Alves
Reprodução/Facebook
Quell Alves


Sim, ela pode sofrer preconceito por ser loira, por ser branca e até por ser mulher. Até existe aquele termo ridículo de "loira burra", né? Mas em hipótese alguma isso pode ser comparado ao racismo, como algumas pessoas brancas que já sofreram algum tipo de preconceito dizem. 

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Branco não sofre racismo?

Racismo é um sistema de opressão, e para que ocorra racismo, deve haver relações de poder. E os negros historicamente não possuem poder institucional para serem racistas. Logo, não existe possibilidade alguma de um branco sofrer racismo.

Cada vez que dizemos que um branco não sofre racismo, sofremos agressões. Não acredito que uma pessoa branca sofra de preconceito racista, não existe essa possibilidade, isso é uma tentativa de descaracterização do racismo.

Isso não significa que não existam outros tipos de preconceito, mas cada coisa tem que estar no seu lugar. Sabe por que uma pessoa branca nunca vai sofrer racismo? Porque eu duvido que alguém tenha atravessado para o outro lado da rua porque um branco vinha andando na mesma calçada, em sua direção. A Daniele Winits não teve seus antepassados sofrendo em um tronco até a morte.

Reprodução/Facebook
"Eu não acredito que uma pessoa branca sofra racismo por ser branca"

Por que um branco não pode dizer que sofre preconceito racial?

Isso definitivamente não se encaixa nessa categoria. As pessoas tendem a colocar tudo no mesmo pacote, mas nenhum branco sofreu o que nós sofremos. A pessoa branca não é jogada de lado nem é recriminada pela sua cor. 

Peso histórico

A maior diferença entre o racismo e o preconceito que o branco diz sofrer é justamente o peso histórico que cada um carrega. Bom, eu não consigo colocar tudo numa mesma embalagem. Quando a pessoa fala em racismo, a primeira coisa que vem na cabeça é o contexto histórico: o que você perdeu na vida por seu branco? Você conhece alguém que foi morto por ter o cabelo loiro? O que a Daniele Winits ou qualquer mulher loira sofreu para dizer que sofre racismo? São questões para serem pensadas. 

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Preconceito racial

Por decisão minha, alisei o cabelo durante 22 anos, mas, em 2012, comecei a usá-lo natural. Nesse tempo, entrei em uma empresa para fazer aquele periodo de experiência e me pediram para tirar o volume do meu cabelo com alisamento, relaxamento, qualquer coisa. Eu não aceitei e, por "coincidência", quando acabou o tal período de experiência, falaram que eu não havia sido aprovada. 

O racismo é isso. Perdi algumas oportunidades por conta da minha cor. Tem muita gente que perdeu gente da família, que morreu por ser negro. Então, pare de gracinha, pare de frescura porque você nunca sofreu nada disso.

Atualmente, dedico meu tempo de vida para discutir as questões raciais e para cuidar da minha filha, Odara Paula, que tem 1 ano e 10 meses. Quando ela completar 2 anos, pretendo voltar a atuar na minha área: pedagogia empresarial. 

Já estou buscando concursos públicos para voltar a atuar no ramo porque, nos concursos públicos, as chances de conseguir emprego para negros são maiores; ninguém vai pedir minha foto e me impedir de ocupar uma vaga ao ver que sou negra. 

*Quell Alves é ativista de causas raciais e administra o  canal Kinaya, com conteúdo relacionado ao tema.  É pedagoga empresarial, pós-graduanda em gerenciamento de projetos, maquiadora profissional, consumista, minimalista, feminista e negra.